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H2T - HipHop TugaPoesia Urbana (com Valete, Adamastor, Lince e Sir Scratch) - Março/2005

'Poesia Urbana'

O fim não está à vista...

Numa altura em que já se projecta o segundo volume desta compilação, fomos descobrir um pouco mais acerca da sua ideologia, realização e conteúdo. Considerada por muitos como o grande álbum de hip-hop português em 2004, a colectânea "Poesia Urbana Vol.1" é, além de registo histórico editado dez anos após "Rapública", uma aposta triunfal por parte da Horizontal Records (www.horizontalrecords.com), a editora que, sem grandes artifícios, conseguiu surpreender pela qualidade de talento reunida e conjugada neste projecto. Mera Felicidade ou prova inequívoca de saber conduzir a força da palavra? A resposta está no próprio álbum e na digna continuidade já prometida pelos seus organizadores. Valete e Adamastor foram os "pais" desta colectânea que reuniu ainda os nomes de Lince, Sir Scratch, Nigga Poison, Sam The Kid, entre muitos outros. Numa abordagem aos primeiros quatro, obtivémos o que se expõe de seguida.

Valete

  “A primeira remessa que mandámos vir da fábrica esgotou em menos de um mês e em geral as pessoas gostaram da compilação.”

  - Qual o intuito inicial que vos levou a organizar esta compilação “Poesia Urbana Vol.1”?
  Valete - Acho que é importante ir-se organizando este tipo de compilações para mostrar algum do hip-hop que se faz em Portugal. Visto também que muitos DJ's têm abrandado o ritmo de lançamento de mix-tapes, estas compilações servem para os MC's se mostrarem vivos enquanto os seus álbuns não saem e também para dar a conhecer alguns MC's talentosos ao público em geral.

  Já passaram alguns meses após o lançamento da compilação que parece ter sido bastante bem acolhida. Qual o balanço que fazem face às reacções que têm recebido?
  Valete - Foi uma cena bem estranha. Porque nunca pensámos que poderia ter o acolhimento que teve. A primeira remessa que mandámos vir da fábrica esgotou em menos de um mês e em geral as pessoas gostaram da compilação. Sentiram fescura, variedade e qualidade. Foi mesmo muito reconfortante para nós.

  - O título indicia continuidade. A reacção que têm tido a este 1º volume irá contribuir para um sucessor ainda mais forte?
  Valete - A ideia é sempre essa. Fazer com que o amanhã seja melhor que o ontem. Em princípio a Poesia Urbana Vol II poderá ter um conceito um pouco diferente. Nós estamos neste momento em contacto com MC's dos vários países que falam português, por isso é provável que o Vol II seja uma espécie de compilação da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Haverá sempre predominância portuguesa, mas na próxima já poderás por exemplo ver MC's brasileiros, o que não aconteceu nesta. No fundo a ideia é olhar para todos os países que têm o português como língua oficial e fazer disso o nosso campo de acção. Fazer da CPLP um só país e convidar alguns dos MC's mais talentosos, independentemente da proveniência.

  - O primeiro vídeo-clip reuniu duas faixas – Bónus “Nada Muda” e Sam The Kid & Daddy-o-Pop “Motivação”. Pretendem realizar segundo vídeo?
  Valete - Em princípio não. A nossa gestão é sempre muito racional, até podiamos fazer uma cena bem baratinha e pôr aí a rodar. Mas a ideia é fazer as coisas sempre com qualidade nem que seja preciso pagar um bom dinheiro por isso.

  - Sendo esta uma compilação bem representativa do actual Hip-hop em português, alguma vez ponderaram a hipotese de a levar para outros mercados?
  Valete - Temos propostas de duas distribuidoras para distribuir a compilação em Espanha e temos algumas cópias à venda no Brasil. É pena que países com muitos amantes de hip-hop como Angola, Moçambique e o Brasil estejam um pouco desorganizados e desregulados a nível de mercado. Há poucas distribuidoras a apostar em hip-hop independente, muita pirataria e há negociantes pouco confiávies... Falamos todos a mesma língua e é ridículo o facto de encontrares muito poucos álbuns de hip-hop brasileiro e angolano em Portugal, assim como há poucos álbuns de hip-hop tuga à venda nesses países. Nem se compreende.

  - Agora a nível mais pessoal, relata-nos como foi o processo de criação do teu tema “Fim da Ditadura” presente nesta compilação.
  Valete - Foi uma experiência um bocado penosa, porque foi tudo feito com muita emotividade. Depois da entrada das tropas americanas no Afeganistão e no Iraque, eu fiquei atordoado e meio desiquilibrado emocionalmente. Era ver aqueles filhos da puta a matar e a destruir a casa de pessoas inocentes em países alheios e não poder fazer nada. Aquela cena foi o extremo da arrogância e da crueldade. Andei todo esse tempo muito amargo e enraivecido, e desabafei assim no papel. Aquela história representava o meu sonho naquela altura. Se calhar ainda hoje. Quando fui gravar também foi  doentio, porque estava muito descontrolado, nunca tinha gravado assim... Até me queria controlar, mas foi bem mais forte que eu, e a cena saiu assim meio desiquilibrada mentalmente, mas era como estava na altura.

  - Sendo (no mínimo) uma música politicamente incorrecta, dava-te gozo que atingisse grande divulgação/projecção? Sabendo que, à partida, o conteúdo a exclui de fácil aceitação e seria, por exemplo, um tema arriscado para funcionar como single.
  Valete - Sinceramente acho que falta um pouco disso no hip-hop tuga. Não acho que todos os sons devam ser  de tendência revolucionária, mas se vires bem a maioria dos singles têm muito pouco disso. Os mc's preferem guardar os temas mais revolucionários no meio do álbum. Eu adorava fazer um clip desse som e fazer dele um single, o problema é  que o som exige um clip quase hollywodesco, e nunca teria orçamento para isso. Mesmo assim já sei que o resultado final iria ser a censura do som na rádio e na Tv. Mas que se foda, faria na mesma.

  – O H2T realizou um passatempo em colaboração com a Horizontal, com a simples pergunta “O que é poesia urbana?”. Pedimos também que nos deixes a tua definição.
  Valete - Acho que é uma nova corrente de Poesia. É a Poesia moderna, adaptada às grandes metrópoles, aos subúrbios, e a estas doenças urbano-depressivas. Também acho que é uma poesia mais próxima das pessoas e do real. Em minha opinião o bom rap é poesia urbana, porque traz essa construção mental elaborada mas típica de quem vive em cidades congestionadas, e que por isso sente de perto inúmeros conceitos como a competição, a guerra, a inveja,o stress, a pressão, a paixão, a emoção, a marginalização, o radicalismo e os antagonismos. A Poesia Urbana traz isto tudo dentro dela.


  Adamastor

  “Underground para mim é ser real. Nem tem a ver com quem vende mais, tem a ver com atitude.”

  - Relata-nos como foi o processo de criação do teu tema “Underground” presente nesta compilação.
  Adamastor - O Sam tinha dado aquele beat para o Valete fazer o "Fim Da Ditadura". Entretanto o Valete achou que não era o beat ideal para o tema, e eu mal ouvi aquilo apaixonei-me logo. Fiquei eu com o beat e achei que seria perfeito para desenvolver aquele tema. O beat despertou em mim muita emoção.
  Eu já tinha essa letra antes de ouvir o beat. Treinei um bocado e senti que a letra encaixava na perfeição naquele beat, ainda fiz uns ajustes e acho que ficou tudo bem casado.

  - Tu na tua música, assim como muitos artistas, dizes que não te importas com as vendas dos teus álbuns, mas imaginemos que Adamastor se tornava um ultra-sucesso. Que significaria isso para ti? E que panorama musical teríamos nós para ser isso possível?
  Adamastor - Para mim seria um bom sinal porque quereria dizer que anda muita gente atenta ao que se faz no hip-hop tuga underground , apesar de não estarmos sempre na TV e com sons na rádio. Também ficaria contente ao saber que muita gente se identifica com a esta linha crua e hardcore que trago para o hip-hop tuga. Sinceramente acho isso mesmo impossível, mas se acontecesse acho que estaríamos num panorama musical a tentar fazer uma inversão. Porque sinceramente também acredito que muita gente já anda cansada dessa música de plástico, vazia e formatada que anda sempre nos Tops. O pessoal até quer coisas diferentes, as rádios é que insistem nessa repetição tóxica.

  - No conceito de “Poesia Urbana” onde é que te podemos encontrar? E em complemento desta pergunta, o que é o "Underground" para o Adamastor?
  Adamastor - Eu tento mesmo trazer a poesia da rua, dos jovens dos subúrbios. Sem auto-censura e nunca politicamente correcto. O que penso, digo. Mas nunca tento banalizar as minhas letras. Sou da crew de dois liricistas extraordinários como o Valete e o Bónus, por isso por mais que eu venha com calão, e expressões de rua, quero sempre que a minha escrita seja refinada e elaborada. É essa a escola do Canal 115. Underground para mim é ser real. Nem tem a ver com quem vende mais, tem a ver com atitude. É fazeres o teu som a cagar em formatos para a rádio, a cagar em receitas para as massas, a cagar em exigências de editoras. É algo muito individual e de oposição a esse mainstream teatral e destruidor da arte que temos.

  - O H2T realizou um passatempo em colaboração com a Horizontal, com a simples pergunta “O que é poesia urbana?”. Pedimos também que nos deixes a tua definição.
  Adamastor - É uma poesia de revolta, de amarguras e de muita sinceridade. Acho que é também Poesia dos inadaptados da urbanização.


  Lince

  “Foi um dos álbuns do ano, não só a nível de hip-hop, mas como a imprensa anda a dormir não teve a projecção que merecia.”

  - Primeiro uma curiosidade. Fazes parte de New Tribe, um dos grupos intervenientes em “Rapública”. Desde então pouco se tem ouvido de vocês, apesar de constar que o grupo não acabou, é assim?
  Lince -  Posso aqui fazer uma declaração oficial: New Tribe terminaram pouco depois da “Rapública”!
  O que aconteceu foi que o projecto New Tribe não foi uma criação minha, quando me juntei com o M já existia e era composto por cinco elementos, dois dançarinos, um MC, um programador e um teclista! Comigo éramos seis, mas o que na altura se passou foi o amadurecer do projecto com o abandono de diversos elementos até que fiquei só eu e o M, como os New Tribe estavam mais virados para sonoridades dançantes só após a minha entrada é que se começou a praticar um hip-hop enraízado. Como era um projecto com algum nome decidimos fazer a “Rapública” ainda com esse nome, após a “Rapública” alterámos o nome e demos a direcção a MahogaNee, esse projecto criado por mim e pelo M ainda existe teve uma demo em 1996 mas como as editoras queriam diluir o nosso som, preferimos guardá-lo a vendê-lo.

  - Relata-nos como surge a tua participação nesta compilação e o processo de criação do tema “Voar”.
  Lince - O Valete contactou-me para fazer a mistura e masterização do "Educação Visual" no Estúdio BigBit, o contacto foi estabelecido e houve uma reciprocidade no relacionamento, embora eu não tivesse conhecimento de quem era (muito menos da excelência do seu som...) fiquei muito impressionado por ele saber quem eu era, uma vez que eu já estava praticamente desligado do movimento e fazia alguns sons apenas para consumo interno, durante os trabalhos que o Valete fez na BigBit, na altura em Algés com o M, surgiu em conversa a "Poesia Urbana" e o Valete simplesmente fez a proposta, algo que eu estava longe de imaginar uma vez que a minha escola é totalmente diferente da dele. Para mim foi mesmo uma honra quererem a minha participação.
  Depois em relação ao som em si, quem me conhece sabe que aquilo é o Lince, já com MahogaNee a postura era mais agressiva devido às influências do M. O processo criativo é o meu "trade mark", viola acústica como base e de seguida o som desenvolve-se por si só, é claro que nem sempre é assim, mas os sons mais típicos normalmente surgem desse modo. Eu gosto de poder tocar o meu som apenas com uma guitarra e a voz até porque ao vivo era uma coisa que eu fazia regularmente.

  - Esta é uma das músicas mais calmas da compilação e, curiosamente, foi o single escolhido pela Antena3 para rodar frequentemente em horário normal. Satisfaz-te esta divulgação?
  Lince -  É claro que me satisfaz. Sinceramente não estava à espera de tal exposição porque é um som que não agrada a todos, por ser um pouco mais musical que o hip-hop actual, mesmo relativamente às "Palavras" na “Rapública”, que estava na mesma onda, a exposição foi menor precisamente por não se encaixar nos modelos padrão de hip-hop, mas eu faço o que faço, como quero e se as minhas influencias levam a sons um pouco mais difíceis, é mesmo por aí que sigo.

  - Para além da tua música assumes também a produção do tema “Fim da Ditadura”, do Valete, e os sons são completamente diferentes. Como produtor é importante ter essa flexibilidade ou esse cuidado?
  Lince – Esse som tem uma história engraçada. Quando o iniciei adorei a musicalidade e o ambiente que me transportava, mas eu sabia que não era instrumental para mim. Como entre eu e o Valete há um clima de empatia mútuo, liguei para ele a saber a quem ele me aconselhava dar o som, e quase de imediato ele responde que estava a pensar numa letra em que ele atacava a Casa Branca e achava que se podia enquadrar. Quase sem querer consegui criar o som que o Valete procurava há algum tempo e que havia solicitado a outros para o fazer. Eu sei que se ele me tivesse ligado a pedir um tema naquela onda, não iria surgir nada de jeito, mas como foi um tema espontâneo fez click!
  A versatilidade é muito importante para quem quer criar! A música não pode ser excepção, mas não se deve exagerar porque se a diversidade é demasiada podes perder a identidade. O que eu faço é arranjar "trade marks", por exemplo, e não vou desvendar todos os segredos, mas a minha viola acústica ou outros gimmicks na batida podem-me identificar, mesmo diversificando os instrumentais!

  - És talvez um dos artistas mais experientes desta compilação. Como foi ver o resultado final, onde artistas mais reconhecidos aparecem lado a lado com outros novos valores? (Também em termos de equilíbrio/desiquilíbrio de qualidade)
  Lince - Não vou falar nos equilíbrios e/ou desequilíbrios na qualidade. Mas gostei da diversidade dos sons como o dos Nigga Poison, NBC, etc. As produções do Sam estão no ponto, o M surpreendeu quem não o conhecia, enfim acho que o Valete e Adamastor foram felizes na selecção dos temas e intervenientes. Tenho pena de um som que eu particularmente senti não ter entrado, mas isso foi da resposabilidade de quem o fez e não por qualquer tipo de censura. Sinceramente foi um dos álbuns do ano, não só a nível de hip-hop, mas como a imprensa anda a dormir não teve a projecção que merecia. Estamos perante o sucessor da “Rapública” e logo uma década após a sua edição.
  Tive a felicidade de entrar nas duas mais marcantes compilações do hip-hop nacional!

  - O H2T realizou um passatempo em colaboração com a Horizontal, com a simples pergunta “O que é poesia urbana?”. Pedimos também que nos deixes a tua definição.
  Lince - Poesia Urbana: Desperta o sentimento do belo, que se refere à cidade...
  Esta será a definição das palavras, mas em relação à compilação poder-se-á dizer muito mais: São os versos do dia-a-dia, relatos prosados da harmonia, ou falta dela; inserção citadina nas reflexões diárias. Ou como eu digo, "prosas poéticas nesta urbanação".


  Sir Scratch

  “Este som (‘Manias’) foi criado em quinze minutos, foi só um vipe que me deu depois de meia hora num chatroom... e daí surgiu a letra.”

  - Relata-nos como surge a tua participação nesta compilação e o processo de criação do tema “Manias”.
  Sir Scratch - Bem, basicamente o Valete disse-me que estava a preparar a cena e perguntou se eu estava interessado. Eu tinha uma maquete minha já gravada que ele gostou muito e perguntou se eu não queria meter o som lá, e eu concordei. Este som (“Manias”) foi criado em quinze minutos, foi só um vipe que me deu depois de meia hora num chatroom... e daí surgiu a letra. O flow é meio diferente da maioria das coisas que tinha feito antes, então não podia cantar num beat muito ou pouco melódico, queria que as pessoas prestassem atenção ao que estava a dizer. Por isso peguei num dos beats mais simples do Manny Light e gravei.

  - “Manias” apresenta-nos um jogo de palavras, bem condimentado de humor e ironia. É assim que te defines como MC?
  Sir Scratch - Hum... também. Não só, mas também. Não me considero muito irónico, humorista talvez... já quis ser actor! Mas por acaso sou um MC que não se auto-define... gosto de variar, surpreender, não sou estático.

  - Apesar de já teres diversas participações no movimento (como Plunasmo ou simplesmente Sir Scratch), há muita gente que só te conheceu agora, através desta participação na “Poesia Urbana”. O que podemos esperar do Sir Scratch enquanto MC?
  Sir Scratch - Concordo, isso deve-se à explosão que o rap tuga teve depois dos anos 90, de 2000 pra cima, que foi quando vim estudar para Dublin e o rap creceu bastante, daí ser normal haver muita gente que não sabe o que se passou anteriormente.
  Bem, neste momento estou a preparar o meu álbum de estreia, em principio será editado pela Footmovin e o DJ Bomberjack. Sairá lá para o verão se tudo correr bem. Terá algumas participações como: Raptor, Adamastor, Sam The Kid, Mundo, etc... não muitas.

  - O H2T realizou um passatempo em colaboração com a Horizontal, com a simples pergunta “O que é poesia urbana?”. Pedimos também que nos deixes a tua definição
  Sir Scratch - Essa é a pergunta dos 10.000 euros não é? Hum... é difícil definir poesia urbana. Acho que poesia urbana é tudo aquilo que me inspira, dá inspiração para transmitir em palavras e, duma forma ou doutra, influencia alguém.

Por Sofia Meireles e Jaime Silva para H2T - www.h2tuga.net

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