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H2T - HipHop TugaOfício - Novembro/2004

Ofício

“Entra no vício”

O grupo é jovem, no entanto, Marroquino e Aprendiz dispensam já grandes apresentações. Inseridos na “Selecção de esperanças” do Hiphop nacional, são ainda da geração em que as mixtapes eram fulcrais para a divulgação de novos MC’s e evolução do Hiphop.
  Oeiras é o espaço físico onde se movimentam, microlândia o espaço (senti)mental que os une em terra. Sem dispensar mais palavras, basta apenas frizar que é mais uma aposta forte da Loop Recordings esperada já há algum tempo. “Impressões Digitais”, põe nas ruas o primeiro álbum do grupo, procurem e... Entrem no vício!

Em 1999, na altura da vossa primeira participação em edições, na mixtape “Assassinato 3º Acto” do DJ Assassino, como eram os Ofício?
  Aprendiz – Em 99, na altura das mixtapes, foi o ínicio do grupo, já eramos nós os dois. Antes passamos por um grupo, os Associação Secreta, mais numa de começar a evoluir - era eu, ele e o Dourado. Depois, como eu e o Marroquino eramos da mesma turma e estávamos mais ligados, separámo-nos e ficámos a trabalhar só os dois, assim sugiram os Ofício.
  Marroquino – Nessa altura eramos mais novos, já tinhamos aquele espírito rebelde e contestatário, mas não com tanta noção e consciência do ambiente que nos rodeia. Hoje em dia somos mais maduros, temos outras responsabilidades e isso reflecte-se também nas músicas que escrevemos.

  – Em 2000, a vossa participação na compilação TPC surgiu por intermédio do D-Mars como produtor. Desde sempre (e até neste álbum) é evidente um apoio e ligação bastante próxima, como que um apadrinhar do vosso trabalho. Sentem isso?
  Aprendiz – Neste álbum principalmente, é quase como um terceiro elemento. Nós tivemos vontade, o D-Mars puxou-nos, ele produziu-nos, acho que neste álbum está muito mais integrado nos Ofício, como produtor.
  Marroquino – O D-Mars em estúdio faz o trabalho de orientador. Para já, ele trabalha por nós quase como um técnico em relação ao som, depois, quando estamos a gravar, apesar de nós sabermos a forma como cantamos e como queremos dar a entoação às coisas, pedimos sempre a opinião dele também.
  Aprendiz – Eu acho que desde sempre foi o nosso maior apoio em termos de produção.
  Eu era da turma do D-Mars na escola, curtia Hiphop e seguia os Micro, eu e o Marroquino eramos apoiantes da música, não cantávamos. Eu já tinha uma relação, não tanto de amizade, mas boa com o D-Mars, quando ele ouviu o som gravado no “Assassinato 3º Acto”, ficou contente porque parecia que não havia ninguém a querer seguir.
  Marroquino – Sim, ele disponibilizou-se praticamente logo em produzir. É claro que tudo isto foi de uma forma espontânea. Nós conheciamos o Nelson (DJ Assassino), gravámos para ele, o D-Mars gostou, achou que tinhamos potêncial, começou-nos a produzir e as coisas foram rolando a partir daí.

  – Como explicam o facto de, nas vossas actuações, ainda em 2003 como no caso da ZDB (em Março) as pessoas já saberem de cor algumas das vossas letras, entre as quais, temas que apenas agora foram editados neste álbum.
  Aprendiz – É um bocado incompreensível para nós também, ou seja, é bom, sentimo-nos bem com isso mas no entanto também nos questionamos “como é que é possível?”.
  Marroquino – Poderia ter sido através dos nossos concertos, mas na altura esses temas eram recentes e não andavamos a dar muitos concertos. É mesmo mistério.

  – Porquê a demora deste álbum? Fruto da política da Loop?
  Marroquino – Não, foi mais desorganização da nossa parte. Eu acho que caímos um bocado na estagnação, no início criámos umas certas músicas e estávamos cheios de força e motivação, só que de repente... talvez nos tenhamos deixado dormir, iludidos um pouco com essa “fama”.
  Aprendiz – Mas eu sou da opinião que o álbum não vem em má altura, porque acho que também é preciso ser-se um bocado maduro para poder lançar uma coisa com pés e cabeça. É bom saber do que se pode estar à espera e, embora não saibamos tudo, já temos uma noção do que nos pode acontecer e mais capacidade para lidar com isso. Temos maior maturidade devido aos anos que já passaram, nota-se na música e nas coisas que escrevemos.

  – Em relação à imagem e ao título do álbum, qual a ideia que pretendem transmitir em “Impressões Digitais”?
  Aprendiz – A ideia do álbum está um bocado associada ao tipo de música, a prever um pouco o futuro.
  Marroquino – É isso, é um álbum contemporâneo, a atirar para a frente, representa a nossa época e, se calhar, a nossa aspiração em relação ao futuro.
  Aprendiz – “Impressões Digitais” porque é nosso, tem a nossa maneira de falar, pensar, escrever... no fundo tem a nossa impressão digital!

  – Aprofundem-nos um pouco mais o primeiro single, “O mundo inteiro”.
  Marroquino – Eu ouvi na rádio um locutor dizer que este tema ou tem a mania da perseguição ou fala um bocado sobre ela. O tom dele pareceu-me depreciativo mas, no fundo, é quase isso, o tema fala sobre o preconceito, gente que fala sobre o que desconhece.
  Nós, como fazemos um estilo de música alternativo, estamos sujeitos a todo o tipo de críticas, principalmente pelo público em geral, porque o nosso (o do Hiphop) ainda é uma minoria. As pessoas ao verem que o estilo é Rap, ou alternativo, têm tendência para descriminar os valores e fazer juízos prévios.
  Aprendiz – Ao mesmo tempo é um tema que revela o nosso prazer em subir a palco e cantar. Mas algo que fazemos por vontade própria, porque nos faz sentir bem e esquecer de tudo, nunca porque alguém simplesmente quer, vai ver ou tirar conclusões.

  – Sentem que é um tema um pouco distinto dos outros (talvez mais chamativo para um público geral), ou apenas se tornou distinto pela participação do Tim, dos Xutos & Pontapés?
  Aprendiz – Esse tema é mais sonoro e mais audível, não é um som para chamar as pessoas a dançar, é mais para ouvir com atenção. A verdade é que, embora não tenha sido feito com essa intenção, é uma música que fica no ouvido.
  Marroquino – Mas, apesar de ter algumas diferenças, enquadra-se perfeitamente no conjunto do álbum. A participação do Tim, é sem dúvida uma mais valia para o tema que pode até alcançar outros públicos, apesar de não ter sido feito com esse intuito. Quando gravámos o som chegámos à conclusão que a voz dele encaixava ali perfeitamente, então convidámo-lo, por intermédio do Rui Miguel Abreu, e ele disponibilizou-se de pronto. Só o facto de um artista com 25 anos de carreira estar a participar no primeiro álbum de um projecto Hiphop (que é tão alternativo) é já uma gratificação, para nós, e para todo o público e artistas que vão ouvir, mesmo além do mundo do Hiphop.
  Aprendiz – Esperamos que seja uma música que possa abrir algumas portas. Assim como o Sergio Godinho tem uma música com os Da Weasel e o Gabriel o Pensador, o Tim faz com os Ofício. “Quem são esses?”.
  Marroquino – A partir daí é uma bola de neve.
  Aprendiz – Espero que outros artistas conhecidos façam músicas com o Hiphop, porque é cantado em português e ninguém se pode esquecer disso, é música nacional.

  – À parte dessa participação, todos os outros são fáceis de perceber pela relação conjunta à família Microlandesa. Falem-nos um pouco sobre o espírito e relacionamentos que se vive e veio vivendo no seio desta família ao longo dos tempos.
  Aprendiz – Antes de cantarmos já saiamos à noite, iamos para o “Extra” e apanhávamos as nossas bezanas, estávamos com pessoal e viviamos uma série de situações diferentes todos juntos. Hoje em dia muitas dessas pessoas cantam, mas antes disso já eram nossos amigos. A música une-nos talvez em pensamento, mas em coração é pela amizade que temos uns pelos outros.
  Marroquino – Cada vez temos menos tempo para estar todos juntos, porque vamos crescendo e cada um tem a sua vida, mas são sempre os primeiros a ser convidados para fazer participações, obviamente.

  – No que toca a produção, ficou praticamente toda deixada a cargo de D-Mars que navegou por diversos estilos e ambientes, sempre com um toque bem característico. A constante fusão de Dance Hall ao Hiphop é algo com o qual sempre se identificaram?
  Marroquino - Sempre não, porque já estávamos familiarizados há bem mais tempo atrás com o Hiphop do que com o Dance Hall, mas a partir do momento em que conhecemos Dance Hall, rendemo-nos imediatamente.
  Aprendiz – Foi um estilo de música que nos cativou bastante por causa da velocidade, agressividade, energia e a força que aquilo trás ao ouvir. Como nós sempre cantámos um bocado rápido, a primeira vez que apareceu no álbum captou-nos logo a atenção.
  Em palco, é um estilo de música que nos dá mais energia e ajuda a puxar mais pelo público, a festa torna-se muito mais quente.

  – Expliquem-nos um pouco o que falam no tema, “Ilusionistas”, qual é para vocês a “força da palavra música”?
  Aprendiz – O refrão não explica completamente o que a letra diz, é talvez uma colagem de várias ideias. A música diz para não te deixares iludir por aqueles que te dão palmadinhas nas costas, porque isto existe em todo o lado, no seio dos teus amigos, no teu trabalho, no mundo do Hiphop, no meio do jornalismo...em todo o lado. Há sempre aquele que te dá palmadinhas enquanto te espeta a faca nas costas, mas quando pela frente te dizem “Paz e Amor, vivemos todos juntos”, isso ainda irrita mais.
  O que nós fazemos, não é para nos pagarem, termos fama nem nada disso; é para exprimir a força que temos cá dentro e tentar passá-la a outras pessoas através da música. A música é a maior força, não magoa directamente (ou pelo menos não trás dor física) mas acerta-te no coração e faz-te pensar. A música é uma força, uma via para chegar a outras pessoas. Se toda a gente cantasse, se calhar não havia guerra.
  Marroquino – O som acaba por ser uma crítica à falsidade daqueles que estão no mesmo movimento que nós, trabalham para o mesmo, mas que tentam subir às custas dos outros.

  – Apenas por curiosidade, têm algum tema de eleição? Se sim... porquê?
  Marroquino – Eu tenho um especial carinho por todos os temas, mas o “Ilusionistas” é um dos meus preferidos, apesar de não se evidenciar muito dos outros. “O Sonho” também, é um dos sons mais positivos que já fizémos, cheio de boa onda, muita esperança, acho que todas as vibrações positivas que possam haver estão nesse som.
  Aprendiz – O meu é o “Levanta a voz” porque acho que representou um ponto de viragem no álbum quando, na nossa opinião, estava a seguir um caminho bastante convencional.
  E, foi este som que primeiro se testou com um beat de Dance Hall, mais rápido, caiu-nos bem no ouvido e agora, principalmente em concerto, é um som que eu adoro cantar.

  – Em jeito de projecção, digam-nos quais as vossas prespectivas para o Hiphop Nacional e até para vocês mesmos, daqui a uns anos.
  Aprendiz – Essa pergunta é díficil. A minha ambição de vida não passa (senão em sonho e desejo) pelo Hiphop, porque até agora eu não vejo possibilidades de vingar no mercado nacional. Só se tiveres algum mediatismo, como têm os Mind Da Gap ou Da Weasel que conseguiram criar um público maior, vão ganhando os seus trocos, mas não são ricos, fazem a sua vida, vão-se safando. Eu vejo pessoal muito bom a lançar álbuns e não conseguem viver disso, têm que fazer outras cenas.
  Marroquino – De há dois anos para cá, tem havido novos grupos, projectos, álbuns, houve tipo uma explosão. Começámos a ter programas na rádio, sites na internet, videoclips a passar na MTV, na Sol música, e tudo apontava para que o Hiphop realmente tivesse uma expansão muito maior do que a que temos hoje em dia.
  Mas estamos a trabalhar para que, talvez daqui a dois ou mais anos, possamos nós estar em alta, e connosco outros grupos. Claro que o que nós gostávamos mesmo de fazer era viver da música, isso era o ideal de vida profissional.
  Aprendiz – Se eu pudesse fazer o que gostava era bom, era um sonho. Sonhar é bom, faz-nos acreditar e lutar, mas também não nos podemos deixar iludir pelos nossos sonhos. Os anos vão passando, as mães precisam de ajuda, nós precisamos de montar vida e para tudo isso é preciso dinheiro, temos que trabalhar.

  – Para terminar, como é habitual, peço-vos uma mensagem para o público Hiphop Nacional.
  Marroquino – Larguem as drogas (risos).
  Aprendiz – Mostrem energia, vão aos concertos e cantem as músicas, abanem a cabeça, mexam o corpo, mostrem calor aos músicos porque eles também vos mostram calor. Se gostam apoiem, se não gostam começem a ouvir porque vocês não sabem o que perdem.
  E nunca pensem mal de nós, não queremos ser mais por dizer “dez anos”, inchar o peito ou ter cara de mau. Não julguem as pessoas pelo que o outro disse, se alguma vez quiserem julgar alguém, conheçam essa pessoa primeiro e depois têm o direito de fazer todas as críticas que quiserem.
  Marroquino – E viva o Benfica! (risos)
  Aprendiz - Quero mandar um abraço a desejar boa sorte a toda a gente que faz música, a toda a gente que canta Hiphop principalmente. Sucesso, felicidades e que consigam obter tudo aquilo que querem, desejam, sonham. É isso que nós fazemos e é isso que toda a gente deve fazer - tentar atingir os seus sonhos e objectivos.

Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation

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