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- Qual o significado da sigla e como surgiram os SS?
Celso - Eu já faço as minhas cenas desde 95, tinha o meu grupo mas entretanto o pessoal teve que se separar porque isto não estava muito fixe, tiveram que ir trabalhar para fora e eu fui o único que fiquei cá.
Tenho tido trabalhos paralelos fora do movimento Hiphop, entretanto o Ivo, meu primo, também esteve sempre aí a curtir a cena, aprendeu, começou a interessar-se e demos conta que ele tinha boa voz.
SS significa Sampadjudo…dois sampadjudos.
Em cabo verde há dois dialectos, o badio de Barlavento e o sampadjudo de Sotavento. Como somos de Sotavento, somos sampadjudos.
- Existe em vocês uma ligação a Shotgun, um grupo que participou no “Jackpot 2000” do DJ Bomberjack. Continuam no activo?
Celso - Yah, eu faço parte dos Shotgun. E brevemente, quando os niggas descerem, contamos fazer uma cena…
O grupo surgiu naquela altura, há bastante tempo, quando muito people ainda não tinha aparecido porque não havia os meios que há agora. Depois, de repente, um foi de cana, o outro foi pai… agora como a vida já está assim mais ou menos organizada o pessoal tem que se comunicar e tal, para ver se fazemos aí uma cena.
- Como é que um grupo surge de súbito com um CD, cheio de qualidade, como o vosso sem nunca ter dado quaisquer indícios, mesmo a nível individual. Ou será que sou eu que estou meio desatento ao vosso trabalho?
Celso - Eu nunca estive parado. Há aí muitos trabalhos na linha de Sintra, vários grupos, para os quais eu produzo, vários tipos de cenas.
Nós já temos uma visão diferente, se calhar não só sobre o rap mas da música em geral. Aprendi mais sobre outras coisas, em “Escuta Só” não está apenas o Hiphop nu e cru das ruas, mandámos umas dicas da street e tentámos enriquecê-las um pouco mais, de forma a que o people possa ouvir um pouco mais de “música”.
- No entanto, já pensam em realizar uma nova capa para este vosso álbum. Isto significa que o CD está a ter mais procura do que esperavam?
Celso - A capa não diz nada do conteúdo. Quem vê caras não vê corações, tu vês a capa e não sabes o que está lá dentro, ou melhor, não esperas.
- Já agora, por curiosidade, quais vão ser as principais diferenças para a nova capa?
Celso - Tudo. Já viste as capas do Nas, as primeiras? Mesmo na fase de puto? É mais dentro dessa onda.
- Estavam descontentes com o aspecto gráfico.
Celso - É daquelas cenas, fomos só nós a fazer isso, com a ajuda do Victor. Não tínhamos mais ninguém nem andámos por ai à procura de pessoal, porque neste movimento mais vale estar só que mal acompanhado. Se vais andar a pedir ajuda para fazer certas coisas, depois vão dizer que o álbum está a vender muito, que também ajudaram a fazer a capa, etc…
- Falando um pouco dos conteúdos do CD, têm músicas muito descontraídas e outras de maior intervenção, com muita análise. Falam do “guetto”, do “sistema”, da “Street Life” sempre com uma visão muito próxima e directa, como já alguém afirmou, acham que um MC deve possuir também grandes capacidades de repórter?
Celso - Eu acho que é precisamente isso que define um MC. Escrever aquilo que vê, aquilo que vive, da maneira mais fácil para as pessoas perceberem, mais simples e directa. Não andarem com muitos rodeios para tentar explicar alguma coisa, porque há muitos niggas aí que dão muitas voltas para chegar ao problema.
Este disco fala da rua, como eu e tu estamos a falar agora, é assim que eu escrevo as minhas letras.
- “No guetto eu nasci/ guetto boy eu vou ficar/Acabaram com o meu guetto/mas nem tudo arrasaram/ foram apenas casas/comigo não acabaram”, este refrão do tema “guetto” espelha bem um sentimento de revolta. No fundo é mostrar o lado prático das acções políticas mais radicais, dar a conhecer o lado da consequência. Não querem falar um pouco sobre este tema?
Celso - Resumindo isto é assim. O mal da politica aqui em Portugal, em relação a nós que vivemos em subúrbios, em guetos, e cenas assim. A meu ver, eles pensam que ao porem-te num prédio, te isolam.
É como eu digo na letra “Não é o fato de um homem, mas sim o homem que o veste”, lá por eu ser das barracas não quer dizer que eu seja um barraqueiro, ou mesmo um marginal, um homem à parte. E acho que demonstro isso nas minhas letras, se me deixassem eu mostrava-lhes mais, porque é mesmo isso que se passa e escrevi-o nessa música também.
- Há outra frase também um pouco polémica no tema “4real”, onde dizem: “Os bacanos do ‘Rapública’ tiveram a oportunidade mas não tiveram cojones para lhe dar continuidade”, apesar de acrescentarem “quem sou eu para criticar”, isto acaba por reflectir algum desagrado na lentidão do Hiphop, não é assim?
Celso – Sim, já houve muito pessoal como os bacanos do “Rapública” que tiveram a oportunidade de fazer subir isto e eu não vi nada, só viveram aqueles 15 minutos de glória e de repente desapareceram. E hoje em dia, se calhar, muitos deles andam aí bué desiludidos com a cena, a queixarem-se que “isto está sempre a mesma merda”… eles tiveram mais do que nós temos agora…Agora, andam aí muitos trabalhos independentes, eles podiam fazer muitas coisas e não fizeram não sei porquê. É como eu disse, “quem sou eu para criticar”.
No que depender de mim eu farei com que este movimento suba e, se me puderem ajudar eu ajudarei também. Não estarei toda a minha vida nisto, mas o meu filho ou o próximo que vier já vai achar que será melhor.
- Quem olhar apenas para o tracklist de “Escuta Só” pode deduzir que os dois temas “Homem” e “Mulher” seriam dois hinos especialmente dedicados. No entanto, depois de escutar, apercebemo-nos que são relatos de duas histórias onde a imagem da mulher é sempre a mais denegrida. Querem falar um pouco sobre isto?
Celso - (risos) Não quero falar. Ouçam a música, ela diz tudo.
Eu quando fiz este álbum tinha muitos mais temas para lançar, mas eu tentei fazer um álbum que todos gostassem de ouvir: tu que não és do rap, ela que não está muito dentro dessa onda, um gajo qualquer que queira ouvir… A última música do CD, que é “Descansa em paz”, até tem crioulo, os meus cotas podem ouvir. Quando fiz esta cena tentei apanhar tudo aquilo com que lidamos no dia a dia, a mulher, o homem, a traição e essas cenas todas que tem o álbum.
- O álbum é todo muito bounce, e passa mesmo algumas tangentes ao R&B. Notam-se várias influências. Estão perfeitamente à vontade com esta mistura ou há um estilo específico que preferem, com o qual se identificam ou gostam mais?
Celso - Este é praticamente o meu álbum a solo, mas são as nossas duas almas dentro dele, o Ivo traz aquelas partes mais cantadas.
Como sou eu e ele, fiz dessa maneira, dois mundos.
- Falem-nos um pouco sobre o Vídeo Clip. Expliquem-nos um pouco a escolha de “Street Life” e descrevam-nos também o vídeo.
Celso - Basicamente é tudo aquilo que eu sou todos os dias, aquilo que eu passo e acho que muitos rapazes da minha idade (ou quase) já passaram ou ainda estão a passar pelas mesmas circunstâncias. Nós escolhemos esse tema para que qualquer pessoa mais chegada a nós, mais dentro do nosso mundo, ao ouvir esse som se identificasse logo. Até fizemos um clip que desse para entender melhor a história, não só ouvir mas também ver. Tentar demonstrar um dia, desde o acordar até ao anoitecer.
- As produções ficaram todas a vosso cargo, não é assim? Sentiram dificuldades a esse nível?
Celso - Acho que o que a gente fez está bom. O que está aí no álbum foi só para ver o que é que se passa, porque ainda agora saiu e os niggas já estão para ai “bla bla bla”, mas eles só sabem é falar. Porque eu respeito a minha ideologia, nós fazemos aquilo que gostamos e logo a partir daí eu sinto-me bem. Falem o que falarem, digam o que disserem, eu produzi à minha maneira, fiz os sons à minha maneira, não fui copiar ninguém, foi de acordo com todas as nossas influências. Fizemos a cena para nosso agrado e para quem tem um pouco o nosso ponto de vista.
Podem não ter a nossa forma de viver, mas oiçam. Se ouvirem conseguem entender, mesmo não estando de acordo, podem perceber a nossa maneira de pensar.
- Falem-nos um pouco da participação que têm no álbum.
Celso - A Sónia é uma miúda para quem nós também produzimos umas cenas, ela tem um grupo e brevemente também terá a sua cena. Toda a gente que trabalha connosco tem de ter sempre os seus 15 minutos de glória. Se depender de nós hão-de aparecer aí muitos mais.
- Qual é a vossa postura/atitude perante o movimento Hiphop português?
Celso - Eu acho que isto ainda está um pouco como uma brincadeira de crianças.
Eu tenho 23 anos, não sou ninguém para estar aqui a falar da minha experiência de vida que é ainda um bocado básica.
Eu procuro entender, conhecer e só depois falar. Há muito pessoal que é capaz de te avaliar e, se calhar, nunca se envolveu contigo nem nunca te quis perceber. Eu acho que o movimento está assim porque andamos a fazer o jogo de gato-rato com cinismo e falsidades entre nós. Digo isto porque sou rapper e sei o que se passa no movimento. Ainda não há aqui nenhum big boss, nenhum patrão.
Em vez de nos unirmos e lutarmos por uma só causa, o pessoal quando consegue alguma coisa, já pensa que é o maior e já se acha no direito de fazer e falar aquilo que bem lhe apetece.
Se isto continuar assim, mais 2 anos e vamos andar todos à batatada, isto há-de virar como virou lá fora.
Eu respeito. O respeito primeiro começa em ti.
Ainda há bocado estávamos a falar disso no carro. Canta pimba, canta aquilo que tu quiseres, se for pela nossa causa, mesmo só para pormos este barco a ir em frente tens todo o meu apoio. Não vou estar aqui “Ah o Ivo canta assim, o Victor assado, eu sou underground e tu não és” isso não tem nada a ver. Há muita gente que é na letra e depois no dia a dia não é nada. E eu acho que isto é a maior falsidade que pode existir.
Por isso eu acho que essas pessoas deviam pensar, se querem mesmo que o movimento suba, então que ponham a cabeça no lugar e que comecem a agir como homens. E mais ainda, como homens de negócios. Tratem a música por igual, não negoceiem o rap como rap, nós temos que nos pôr no mesmo patamar de qualquer música. E então, para além de sermos MC’s, Produtores, DJs, bboys, writers… teremos que nos comportar como músicos também. E só assim vamos ser respeitados, quando passarmos a ser uns homenzinhos.
- Quais são os vossos objectivos?
Celso - Continuar a trabalhar. Chamem-nos para trabalhar e nós trabalhamos. Se for mesmo para fazer este movimento crescer, vamos trabalhar. Espero que eu e ele tenhamos um dia um estudiozinho onde possamos fazer as nossas cenas e ter os nossos meios para ajudar people como nós que ainda não tem nada... Já procuramos fazer isso.
Eu quero fazer disto uma vida, quero fazer disto o meu futuro. Se eu não conseguir o meu filho há-de continuar o meu esforço, se ele realmente o quiser… por mim está à vontade.
- Há alguma mensagem ou recado que queiram deixar?
Celso - Para todos os niggas que estão mesmo no movimento, que ponham a mão na cabeça e pensem se estão nisto por um dia ou se querem estar nisto para toda a vida. A vida são dois dias é ver nascer e morrer, temos sempre a hipótese de a levar para a esquerda ou para a direita. Agora espero que vocês saibam para onde querem ir, porque eu sei para onde vou, estou a rumar em frente, viver em frente, espero que a vossa seja também puxar pelo movimento.
Quero também deixar outra mensagem para todos esses que andam aí a falar à toa, a falar porcaria. Perante mim são uns grandes bacanos, uns grandes dreads e tal, mas nas costas vêm com muitas cenas porque um gajo tem linhas paralelas na música, fora do Hiphop (produzi para outras cenas). Mas isto é assim, se tu tens algum problema procura-me, eu moro na portela Nº 23 dto da Av. Dos cavaleiros, não fiques aí a falar à toa. Procura-me e eu estarei lá à tua espera, no dia, hora e minuto que tu quiseres.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |