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- Expliquem-nos como surgiu este projecto paralelo aos Micro. E qual a hipótese de continuidade do mesmo.
D-Mars - Não é um projecto paralelo aos Micro, é um projecto “one off”, algo que fizemos mais numa de curtir. Aliás, começámos a gravar sem intenção de o editar, apenas porque sentimos a necessidade de, naquele momento, entrar em estúdio e fazer a cena juntos outra vez, já não o fazíamos para aí há mais de um ano. Depois, em termos de sonoridade, começámos a criar algo que não queremos para o próximo álbum dos Micro. “Manter a chama acesa” nasceu da nossa vontade de partilhar com as pessoas, coisas que ainda tínhamos na gaveta e regressar um pouco ao ponto de partida dos Micro, quando éramos nós os dois que fazíamos as coisas, o Assassino ainda não estava muito bem integrado no grupo. Alguns dos temas que estão neste CD foram mesmo escritos nessa altura inicial dos Micro.
Foi mais um exercício artístico aqui no estúdio do que um projecto paralelo, em princípio não vamos dar concertos nem haverá um segundo álbum de Mentes Conscientes, mas eu percebo que as pessoas possam pensar isso.
Sagas - Nunca se sabe, se calhar podemo-nos meter de novo em estúdio e gravar um outro álbum. Mas, com um objectivo de fazer um segundo álbum de Mentes Conscientes acho que não, acho que é mais virado outra vez para Micro.
- Se o Assassino estivesse em Portugal durante processo de gravação de “Manter a chama acesa” este seria o terceiro álbum dos Micro?
Sagas - Se calhar não era um terceiro álbum, mas sim um projecto onde ele participava.
D-Mars - Se ele estivesse cá, seria uma cena dos três, mas não se chamaria Micro, talvez se chamasse Mentes Conscientes da mesma forma.
Sagas - Acho que aquilo que queremos para Micro é completamente diferente daquilo que fizémos.
- Mente Consciente é um dos termos (usual e em Português) correspondente à sigla MC, e foi também o nome que escolheram para encabeçar este vosso projecto. Não sentem uma responsabilidade acrescida por se fazerem apresentar sob um termo tão abrangente como esse?
D-Mars - Não, porque foi um termo que nós começámos.
Sagas - Desde o inicio do grupo que usámos a expressão “Mentes Conscientes”, só que agora, como o D-Mars disse que fomos buscar músicas à gaveta, fomos também buscar “Mentes Conscientes” à gaveta. Era um dos termos que, no início do grupo, usávamos sempre nas rimas.
D-Mars - É um termo nosso, que nós introduzimos, assim como muitos outros. A questão é que, como já somos um grupo com alguns anos de carreira é compreensível que muita gente não saiba isso, porque é um termo que depois deixámos de usar e outros pegaram nele.
- São inúmeros os trabalhos em que os 3 elementos de Micro já se desdobraram. Não temem que ao criar tantos projectos paralelos a identidade de Micro perante o público se disperse um pouco?
Sagas - Eu acho que não, penso que o público sabe diferenciar as cenas e ver que o grupo é o grupo e os projectos paralelos e a solo não passam disso mesmo. Eu acho que o grupo agora está a passar uma fase de projectos a solo e paralelos, mas acho que se vai reencontrar, no final do ano talvez, para um terceiro álbum.
D-Mars - E a identidade não foge, se fores ouvir o meu álbum eu falo de Micro, vais ouvir o álbum do Sagas e também fala de Micro e da Microlândia, o Assassino nas cenas dele, convidou pessoal da nossa crew, por isso a identidade de Micro já é maior do que isso tudo.
Sagas - Conhecendo eu o D-Mars, o Nelson e a mim próprio, sei que o pessoal pode estar um mês parado, mas não consegue estar sem fazer nada. Os projectos paralelos surgem assim, se um está a trabalhar na sua cena, os outros estão a fazer outras coisas, é a chama que está dentro de ti que não te deixa parar. Não há outra maneira das coisas crescerem a não ser com o trabalho.
- Este álbum, “Manter a chama acesa”, parece-me ter muitos recados, críticas ou ensinamentos. Este vosso ponto de vista incide sobre um universo geral ou são, na sua maioria, setas apontadas ao movimento Hiphop Português?
Sagas - Eu acho que é mais ensinamentos, o pessoal tem que criar cenas positivas. Nós nunca criámos cenas negativas, nem nunca iremos incentivar quezílias e coisas mesquinhas, como muitas vezes pessoas do movimento e outras acabadas de se integrar tentam criar. Tentam pôr palavras nas bocas das pessoas, coisas que ninguém disse.
Algumas músicas deste álbum foram feitas, não com o intuito de atingir A, B ou C, mas de ensinar o D e o E para não caírem no erro de A, B ou C.
D-Mars - Até porque muitas dessas letras, essas que parecem críticas a alguém, não o são, porque são mesmo antigas. Por exemplo, o tema “Cobras” é uma letra que já tem para aí uns quatro anos, assim como o tema de abertura, o “Operação de rescaldo”, uma ideia que já existe para aí há uns três ou quatro anos. São cenas que, ainda na altura do Microestática, já existiam, mas não entraram naquele álbum, nem entraram no Microlandeses.
Sagas - Mas têm sempre uma concepção positiva, queria frisar isto. Não cries boatos, não cries cenas, porque isso só vai trazer mais problemas.
D-Mars - Podes ouvir todas as rimas de Micro, que já são muitas, (quando digo Micro digo as minhas e as dele) e nunca vais encontrar algum de nós a falar mal de alguém assim directamente.
Mas claro, também tem muita coisa sobre um universo geral, não estamos a falar só para o movimento, sempre fez parte da nossa maneira de estar falar do mundo em que estamos inseridos.
Queremos consciencializar o Hiphop novamente em Portugal, ainda ontem estive a falar com o Fuse sobre isso, o pessoal mais antigo tem que assumir o papel de instrução e de consciência. O pessoal novo tem todo o direito de fazer cenas, mas os velhos estão aqui porque têm mais experiência, e estamos aqui para mostrar alguma coisa.
- Uma vez que este álbum possui poucos convidados, falem um bocado sobre cada um deles.
D-Mars - O Ridículo é aquele irmão, aproveitamos que estava aqui em Lisboa, porque ele agora está entre Lisboa e Porto. Naquele tema, estávamos na fase de fazer o refrão e lembramo-nos de chamar o Ridículo, porque ele faz sempre essas cenas fixe e, acabámos por estar em estúdio a curtir com ele. A miúda dele, que é a T-rex, veio com ele e também participou nesse tema, entra no último refrão, quem estiver atento ouve mais uma voz por detrás.
Sagas - O Wadada foi uma cena mais pensada, o D-Mars fez o beat, fizemos a música, fizemos o refrão, mas depois sentimos que faltava qualquer coisa à música e resolvemos chamar o Wadada.
D-Mars - E a outra convidada, a D_fine, ela largou as vozes em “O lado dos Micro” e completou a cena, era quase mais um sample, ficou muito fixe.
- Este inesperado álbum de Mentes Conscientes surgiu numa altura em que muitas pessoas aguardavam o já anunciado álbum a solo do Sagas. Em que fase se encontra esse projecto?
Sagas - Está em gravação, e não posso anunciar nenhuma data porque ainda está em estúdio e também por várias situações burocráticas, mas sai este ano.
- Uma novidade que já é conhecida através do site da Loop (www.looprecordings.com) será a reedição do emblemático “Microestática”, um CD que poucos devem ter o original. Reedição que será acompanhada de um bónus não é assim?
D-Mars - O bónus, que terá o nome de “Rimas Perdidas”, vai ter doze temas e são cenas que não foram editadas antes. Vai ter uma remistura do Dinasty do “Rimas Assassinas”, diferente daquela que está no vinil, por acaso é melhor, não sei porque é que não escolhemos esta (risos). Tem temas antigos, no próprio CD está escrito onde e quando foi gravado cada tema. É um presente nosso para quem comprar a reedição, se comprar o “Microestática” pela segunda vez, leva um CD a mais, é como se estivesse a comprar mais um CD de Micro. E para o pessoal que nunca comprou o “Microestática” é uma cena fixe, é um bónus.
- Podem deixar-nos mais novidades da família microlandesa? Como andam essas movimentações?
D-Mars - Vai sair o álbum dos Ofício, para aí em Abril, vai-se chamar “Impressões Digitais” e vai surpreender toda a gente. Depois, o Sagas está a fazer a cena dele e o Assassino acabou de fazer uma compilação com vários convidados.
O álbum do Wadada também está previsto sair lá para Maio, está agora a ser misturado pelo Joe Fossard. Quando sair vai estoirar completamente, é um Reggae cantado em português, com rimas que até o pessoal do Hiphop deve curtir, porque muitas delas são rimas sociais e muito diferentes do Reggae português que se tem feito até agora, que é só “Está tudo fixe” e “vamos curtir”, cenas assim.
- Alguma mensagem ou recado final?
D-Mars - O recado é que o grupo ainda não acabou, o Assassino estava lá fora mas logo assim que ele voltou nós já demos dois ou três concertos juntos.
Mentes Conscientes deixam ainda ao H2T uma breve interpretação pessoal sobre cada um dos temas de “Manter a Chama Acesa”:
“Operação de rescaldo”
Sagas - É um som que já era antigo, é uma espécie de pôr a redoma à volta da tua música, dizer que o que tu fazes é teu e ninguém pode meter lá o dedo. O que diz o refrão é mesmo o significado da música.
“Manter a chama acesa”
Sagas - É um bocado literal, a chama refere-se ao Hiphop claro, no fundo dizemos que a cena nunca há-de morrer e que nós estamos aí, sempre no caminho, a chama está sempre acesa, nunca apaga. Aproveitamos isso também para dar um obrigado ao pessoal que nos apoia nesse caminho.
D-Mars - Somos tipo aqueles gajos que transportam a chama olímpica, é a chama eterna, nós os três sempre fomos isso, cada um à sua maneira, com as suas características. É a cena que nos une, e esse tema tem a ver com isso.
“Mentes Conscientes”
D-Mars - É um tema antigo mesmo, para aí de 97, e foi nesse tema que traduzimos o termo MC como sendo Mente Consciente em português. É um tema onde falamos que somos Mentes Conscientes, com uma linguagem um pouco antiga, que costumávamos usar mais naquela altura do que agora. Acho que se escrevêssemos agora o mesmo tema seria bem diferente.
“Tem cuidado”
Sagas - Vem na sequência daquilo que dissemos há bocado, a cena é tão sagrada para nós que é preciso ter cuidado com certas coisas e não inventar quezílias. Do género, tem cuidado com o que dizes, com o que fazes, com quem falas.
D-Mars - O movimento Hiphop aqui é tão pequeno ainda, mas acho que já existe muito a mania da grandeza. Estamos todos no mesmo barco, por isso é preciso ter cuidado. Tenho que ter cuidado com o que digo e com o que faço, porque faço parte da mesma cena que o outro e se calhar nem o conheço, mas como estamos todos no mesmo barco acabo por me estar a afundar também.
“Faz da vida um vício”
D-Mars - Um tema antigo também, a primeira versão passou no “Rapto” em 96, ainda nós gravávamos no Hi-Fi do meu irmão, uma cena de Karaoke.
O tema é uma espécie de conselho para a juventude, para fazerem da vida um vício, porque acho que é o vício mais belo, os outros estão aqui só para a destruir.
“A distância”
Sagas - É um som que fala da distância que está a separar cada vez mais os ricos dos pobres, os negros dos brancos, as minorias das maiorias. Está-se a criar, cada vez mais, um fosso, e tudo isso por causa do dinheiro e da ganância.
“O lado dos Micro”
D-Mars - É outro tema antigo, mas tem metade da rima nova e o refrão também está diferente. É uma música que, se calhar, naquela altura (início do grupo) era a que nós curtíamos mais. Estávamos no processo de criação de todo o nosso mundo imaginário, a Microlândia, a nossa crew, que ainda hoje existe. E, “O lado dos Micro” significa, simplesmente isso, é a Microlândia.
“A cidade respira”
D-Mars - O refrão da música é que acaba por trazer a cena para o tema: a cidade respira a música, e nós somos os gajos que também respiramos essa música porque o Hiphop é essencialmente cultura urbana. Até tem um pouco a ver com os Bboys, porque um Bboy ouve o ritmo e faz a cena mais positiva que há, dança. Isto traduz um pouco o espírito do Hiphop, a essência, com o qual nós nos identificamos, é a necessidade de te expressares. No caso do MC, sentes a cidade falar contigo e é como se fosses uma espécie de profeta com a caneta, tentamos remeter no papel, nas rimas e depois nas músicas o que a cidade nos vai transmitindo.
“Apesar de tudo”
Sagas - O nome diz tudo, é do género, apesar das dificuldades, das desavenças com o pessoal que está fora, das nossas próprias desavenças uns com os outros, nós estamos sempre aí.
D-Mars - E não só, da minha parte pelo menos, é uma mensagem directa a todos os jovens MC’s que escrevem duas ou três rimas e já querem logo gravar um álbum, depois a cena não corre bem e andam por aí a queixar-se. Cresçam, percebam que antes de vocês estava aqui muito mais gente, antes dessa gente estavam outros ainda, tudo começou no South Bronx, não começou aqui em Portugal. E, apesar das cenas terem corrido mal também no início do Hiphop, o Hiphop continuou; apesar de tudo o que se já passou em Portugal, nos anos 90, com a cena dos Gangs, ao tentarem rotular-nos, apesar de termos estado no underground e só para aí em 2000 é que a cena começou a ganhar outros contornos, apesar disso tudo estamos aqui. Por isso, esse pessoal mais novo que encare o futuro como uma estrada comprida.
Sagas - E que não se limite a queixar e a reparar naquilo que o outro tem, que tente fazer o seu e que ganha o seu.
“Cobras”
Sagas - Foi um tema escrito numa altura complicada, e fala do mais podre que há no ser humano que é por exemplo: fazeres-te passar por uma pessoa que não és, não olhares a meios para alcançares os teus fins e lixares o teu amigo, cagares em cenas que pessoas fizeram por ti sem nunca teres a hombridade de chegar e dizer “desculpa, eu é que errei” e dar o braço a torcer, uma data de cenas deste género.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |