|
- Em poucas palavras, és capaz de nos contar um pouco do teu percurso no Rap até ao lançamento de “Ideologia Negra”.
PM – Em 1995, foi o ponto de partida, sempre gostei de músicas “negras” americanas e, contudo, nessa altura, o que mais me incentivou foi a moda, o estilo, maneira de ser dos rapazes que andavam comigo, a imagem que o Rap passava (dança, mensagem…). Dois anos depois, comecei a consumir o que o Hiphop da América mais mostrava, o comercial, passou a ser o meu Rap de 97.
Criei a minha primeira banda, Street Soldiers, que não durou muito tempo devido aos estudos mas, logo em 98, aliei-me a uns “bradas”, Diva Gare e DJ Tonton, e juntos, ainda hoje formamos a C.B.O.S..
Em 2000, quando emigrei para Portugal, foi o meu verdadeiro encontro no tempo, solidifiquei melhor a minha ideologia no mundo do Rap, mensagem e intervenção social. Entretanto, até ao lançamento de “Ideologia Negra” (2003), foi o meu processo de socialização no movimento Hiphop português e não só.
- Consegues-nos dizer como surgiu em ti o gosto por este estilo musical?
PM - Desde muito pequeno que gosto de música, num âmbito geral, andei nuns grupos de dança, como bailarino (funk, house…) e em 95, comecei a ter mais contacto com o Rap, por influência de um primo. Ele rimava, na altura tinha um grupo chamado Street Soldiers do qual eu queria fazer parte, mas ele nunca aceitou. Em 96, eles acabaram e em 97, eu criei um grupo com o mesmo nome. Foi ai que comecei a consumir mais Rap de toda a parte do mundo, maioritariamente do americano, foi nessa altura que ganhei verdadeiramente o gosto por este estilo de música.
- Tendo em conta o significado da sigla P.M., Poderoso Mensageiro, consideras a mensagem peça fulcral no Rap?
PM – É claro que considero, em todo tipo de música a mensagem é o objectivo principal e o resto vem depois. No rap, muitas das vezes degeneram os rappers que fazem música de amor e de festas, e eu passo uma boa parte do tempo com algum desse pessoal, e até acabo por curtir bastante as músicas porque transmitem muita energia positiva. Quando é deseducação acaba por cair mal, mas não deixa de ter um conteúdo como mensagem porque o rap baseia-se muito na realidade das coisas e toda mensagem expressa tem a ver com a óptica de cada um. O resto é sempre válido, a habilidade de fluência para concluir uma música que agrade e cative os ouvintes.
- Como surgiu Poderoso Mensageiro? Sempre tiveste esse “nome de guerra”?
PM – Não, quando comecei como Street Soldiers o meu nome de MC era DN Rhymes e criei este nome porque a mensagem era enrolada em banalidades de rimas, rimar só por rimar, que muitas das vezes faziam com que as minhas mensagens ficassem sem sentido. O Poderoso Mensageiro só surgiu mais tarde, quando, em jeito de brincadeira, um compincha se virou para mim associando os meus momentos de Inspiração e de maior poder de mensagem ao período pós meridiano, PM. A partir daí comecei a ponderar mais ao nível da escrita para fazer jus ao nome.
- Em 2003, organizaste uma compilação que foi um verdadeiro confronto de ideias num debate que focou maioritariamente o racismo em si. Qual foi o principal objectivo com o lançamento de “Ideologia Negra”?
PM – Na altura, olhei para o meu álbum que estava praticamente preparado, olhei para os álbuns que estavam a sair cá na tuga, conversei com vários rappers e criei logo a ideia que muita gente tinha vontade de mostrar mais a realidade social mas, no entanto, enrolavam-se num receio de o fazer. Achei que se lançasse o meu álbum nessa altura, ele não seria compreendido como eu quero que seja, então a intenção de editar o “Ideologia Negra” passou também por preparar as mentes das pessoas para esta postura de frontalidade. Contudo, não foi apenas um afogar de criticas, tentámos tocar a sensibilidade das pessoas, de forma a repensarem as suas atitudes e decisões.
- Não tiveste receio que esta compilação originasse alguma polémica? Qual foi o feedback que sentiste por parte do público e dos media?
PM - Com relação à polémica não tive receio nenhum, de facto aquilo que senti e que já sabia que ia acontecer, foi a incompreensão dos textos, muita má interpretação por parte do público e banalização por parte dos media, por simplesmente não conhecerem o valor da arte. Voltando à polémica, as frases relacionadas ao racismo foram das mais incompreendidas porque a intenção não foi menosprezar o valor de um rapper branco mas sim o direito de “voz igual” e o restante conteúdo foi um incumbir de valores, se continuássemos aqui a debater este assunto não saiamos daqui…
- Ainda antes de “Ideologia Negra” chegaste a lançar, em 2002, um Max Single onde antecipavas um pouco este teu primeiro álbum. Previas que fosse tão demorado este lançamento?
PM - Sinceramente não, quando lancei esse Max Single contava que o meu álbum fosse editado dois meses depois, mas houve um imprevisto por parte da editora e procurei obter meios próprios para o fazer. Quando tive a possibilidade para tal, senti a necessidade de lançar o “Ideologia Negra”, foi como já referi anteriormente.
- Este tempo de espera levou-te a reformular o alinhamento do CD ou mesmo alguns dos temas que deste a conhecer no Max Single?
PM - É claro, mudei muitos temas do álbum, na altura do Max Single eu tinha o álbum com 18 faixas e agora tenho com 21, foi um repensar do conteúdo e até mesmo das participações. Em relação aos temas do Max Single, todos eles eram para fazer parte do CD, mas com o passar do tempo senti a necessidade de modificar textos e até os próprios instrumentais, e inclusive deixar de parte dois temas, o “PM é quem fala” e o “Vá lá identifica-te”.
- Em poucas palavras, revela-nos alguns dos principais conteúdos temáticos que abordas neste teu primeiro álbum.
PM - Em primeiro lugar a vontade de comunicação, a difusão da Cultura Africana, a articulação desta cá em Portugal, a apologia à opinião pública e manifestação popular...
Este álbum está formado por propostas juvenis, é um debate cuidado de questões que assolam os jovens na tentativa de dar a conhecer papéis de resolução a esses vários problemas.
No entanto, todo o álbum gira em torno do tema “Humanidade perdida”, um dos temas que está totalmente remodelado (desde o texto ao instrumental), em que procurei incumbir valores morais deixando um voto de esperança.
- Fala-nos um pouco das participações presentes neste álbum, tendo em conta todas as alterações que já nos referiste.
PM – Em termos de produções, tive mesmo que mudar rigorosamente alguns instrumentais, mas continuam presentes produtores como Eliei e Elvio (Vidalvisom), DJ Link, Kevela, J Verbal D, Condutor e DJ Tonton. No que toca a rappers convidados acho melhor esperarem para conhecer.
- Pelo que pude reparar, o tema “Tuga ypopanorama” é dirigido à comunicação social, mas acaba por gerar alguma polémica no meio do movimento. És capaz de aprofundar um pouco este tema?
PM - Desde que cá estou em Portugal procurei informar-me sobre a evolução da cultura Hiphop e tive bastante informação da forma como as coisas foram progredindo até ao momento actual. Foi ao olhar para o actual estado do mundo da comunicação que achei vantajoso reunir toda essa informação sobre o panorama da cultura Hiphop aqui em Portugal e, oferecê-la a esses mesmos meios de comunicação social. O restante dos conteúdos deste tema são análises que obtive ao olhar para o movimento, prefiro esperar para ver se causará alguma polémica.
- Fala-nos um pouco do título deste CD, como surgiu o nome “Espírito Africano”?
PM – Começo por dizer que este álbum é uma dedicação ao sofrido continente Africano, também pela vontade de espiritualmente expressar o meu sentimento pela África. Desde 97 que estipulei este título para o meu primeiro álbum como necessidade de me enraizar, com o andar do tempo senti cada vez maior vontade de ir à procura da história da África para cobrir o meu vazio e alienação que consumia a juventude do meu tempo em Angola. Por isso, dei este título.
- Entre o alinhamento deste CD constam três faixas principalmente focadas em conteúdos relacionados com Portugal. Isto deve-se a todos os laços que criaste e manténs nestes, apenas, 4 anos em terra Lusitana?
PM – É visível na base dos meus textos o meu interesse pelos movimentos e as mudanças sociais, qualquer que seja a sociedade, principalmente na qual estou inserido. Completando esta resposta, diria que os laços também se fizeram sentir na criação dos meus textos e é sobretudo um acordar para Portugal, acabei por me familiarizar, sempre foram 4 anos.
- Cada vez é maior o interesse demonstrado pelo Hiphop português, principalmente em terras africanas, querendo também dar a conhecer o que por lá se faz. Achas que existem muitas diferenças entre estas duas realidades ou que a aproximação tende a ser cada vez maior?
PM – São notórias as diferenças entre a realidade de uma cultura e outra, mas o choque cultural não é um tabu que não se possa quebrar, afinal de contas a existência de comunicação, trocas de ideias, culturas entre os povos é sempre “benéfica” para ambas. Actualmente essa aproximação tende a ser maior, pelo factor imigração e o interesse das pessoas em conhecer novos horizontes.
- Quais as grandes vantagens que consegues prever dessa maior aproximação?
PM – A articulação cultural, o respeito e a união entre o Hiphop português e o que se faz por terras africanas.
- Em 2000 chegaste a Portugal e, certamente, deparaste com este movimento em fase de desenvolvimento e evolução. Agora, em 2004, quais os principais aspectos que, na tua opinião, melhoraram e/ou pioraram nesta cultura?
PM – Quando cheguei deparei-me com um ambiente bastante caloroso no seio do movimento Hiphop português, que facilitou bastante a minha integração. Hoje, olho para o ontem e o que vejo? Vejo que as pessoas deste movimento andavam sob farsas e, hoje, criam incoerentemente grandes pontos de inflexão regressíveis (regressão), no que toca à difusão da cultura. Eu acredito que os rappers precisam de ter um projecto de sensibilização com o seu Rap, para que possam incentivar outro tipo de atitudes ao pessoal que está a começar e aqueles que simplesmente vão às festas para os ouvir. E, terminando, vem aí o meu álbum para meter uma ordem neste Hiphop (risos).
- Projectos?
PM – Para já, posso anunciar que estamos a preparar (eu, o Eliei e o Elvio) uma compilação, “Impulso Musical”, que tem como base o lema “Portugal 100 krime”, várias ideias num só álbum.
- Mensagem final
PM – O Hiphop continua, o movimento de Hiphop na tuga, para os sites de Hiphop, Hiphop Nation, Skillz, Tony Santos (Solstício), José Mariño, para as associações criadas nos bairros sociais (Kapaz, Escolhas …), haja harmonia, paz e compreensão. Paz!
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net |