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– Como surgiu o nome “Lancelot”?
Lancelot – Quando eu era mais puto frequentei o sistema educativo francês e, no terminar das aulas, os professores tinham o costume de nos contar uma história, habitualmente, focavam aquela história do reino de Camelot e do Rei Arthur. Optei por este nome porque é algo que me fascina, é uma história que eu aprecio muito, toda aquela imagem em que a honra é a nobreza do cavaleiro por detrás do nome. E também porque eu nem sempre escrevo sobre temas reais, gosto de ir um pouco pelo imaginário, criar cenários, por isso inventei também a personagem Lancelot.
– Conta-nos um pouco do teu percurso até este álbum.
Lancelot – Comecei, propriamente introduzido no movimento, pela mão do Cruz. Ele conheceu-nos (a Fundação) numa festa e convidou-nos para a mixtape “Cosa Nostra” (em 98/99), onde participámos, eu juntamente com o Omega. A partir daí entrámos em mais alguns trabalhos, como foi o caso da “Nova Escola”, também do Cruz, e o “Jackpot 2000” do Bomberjack.
– Isto sempre acompanhado pelos Fundação… fala-nos um pouco do grupo.
Lancelot – Nós começámos como amigos, fomos colegas de turma, colegas de escola, colegas de desporto, de basket, já estamos juntos há muito tempo e, entretanto criámos os Fundação. Mas tivemos um longo processo de aprendizagem, para treinar tudo. Começámos em finais de 97, já tínhamos dado um ou dois concertos, o que é muito pouco – não queríamos ser como alguns grupos que, possivelmente tinham muito futuro, podiam ser bastante bons, mas tinham uma atitude precipitada. Só em 99 é que surgiu a oportunidade de aparecer (na tal mixtape do “Cosa Nostra”), mas mesmo assim nunca aparecemos todos juntos, os quatro, porque a vida não permitia, dois estavam livres e outros estavam a trabalhar e essa cena.
– Com o decorrer dos tempos, os Fundação tiveram várias maquetes na net para quem quisesse ou procurasse conhecer. Isto foi propositado, ou algo que não conseguiram controlar?
Lancelot – Quando começámos, em Odivelas, eu sinceramente não conhecia grupos que representassem o movimento e, nessa altura, quando o pessoal nos começou a conhecer e a convidar para os concertos, só íamos cantar para outros sítios. Quando o pessoal do bairro soube, quando começou a ouvir por fora que havia um grupo em Odivelas, começaram a pedir-nos sons, e, naquela cena de servir o pessoal do bairro, representar Odivelas, apesar de cantarmos para todos, acabámos por fazer essas maquetes. O pessoal, depois, é que foi introduzindo isso na net, inclusive maquetes experimentais e cassetes antigas, de 98, que a gente gravava, mas só naquela da prática. Passámos por um longo processo de aprendizagem em que a gente gravava e o meu irmão mais novo pegava, dava aos amigos e os amigos é que passavam para a net. Nós nem nos importamos, eles faziam e nós “pronto, se calhar até ajuda, é bom para divulgar”.
– Porquê a opção de um álbum a solo ao invés de um trabalho com Fundação?
Lancelot – Não foi uma coisa que eu pensei “agora vou-me separar de Fundação e vou fazer um álbum a solo”. Simplesmente o pessoal de Fundação estava um bocado disperso, não é no sentido de andarem perdidos, mas sim ocupados: o Omega foi para Londres com o objectivo de estudar música, aprender mais e voltar (até para não ficarmos só quadrados em rimas), mas chegou lá e acabou um pouco por constituir vida; o meu sócio Mafioso também teve que entrar num curso de informática, graduou-se na cena de web designer, concluiu agora; o Vigilante está a trabalhar. Portanto, o pessoal estava todo ocupado e eu fui escrevendo, escrevendo e agarrei a oportunidade para fazer um álbum a solo.
– Fala-nos um pouco sobre o “Pugilista Verbal”.
Lancelot - Estou um bocado em expectativa em relação ao meu álbum, porque apesar dos trabalhos e apesar de considerar que tenho estado sempre por aí dentro do movimento, é algo novo, tanto a nível de instrumentais como de participações. Mas, para quem conhece Fundação, não foge à temática do grupo, pelo menos os temas que nós abordávamos, só que agora tem o meu toque pessoal, a minha visão das coisas e claro, deixei bem patente a minha adoração por punch lines.
– Que temas abordas nas letras deste álbum?
Lancelot – Falo um pouco de tudo. Eu afirmo-me como ego-trip, mas não é aquele ego-trip de estar constantemente no “eu sou, eu sou”, falo muito do que eu vivo, acho que todos dizem um bocado isso. Foco as várias fases da minha vida, falo um bocado também sobre as mulheres, na parte de as enaltecer um bocado, porque muitos MCs têm sempre aquele padrão de fatigar e cascar em cima das mulheres, mostram-se rudes no microfone mas, no entanto, são os mais românticos na hora em que estão sozinhos com as damas. Também foquei ao de leve a condição do negro cá em Portugal, aquilo que eu vivo, baseando-me nas minhas experiências e nas experiências que tenho com os meus amigos. De resto, são musicas que tentei ser um pouco original, depois o pessoal avalia isso, sempre dentro das minhas punch lines que eu adoro, o pessoal pica-se, mas é a minha cena.
– Por vezes também rimas em francês. De onde vem essa influência?
Lancelot – Sempre estudei no liceu francês até ao nono ano, em 95, altura em que tive de vir cá para Portugal. Eu estive dois anos em Luanda para fazer a aprendizagem do português, e vivi em Ponta-negra que é uma ex-colónia francesa em África e como o meu pai tem um trabalho que lhe permite viajar um bocado por todo o mundo, eu sou um nómada e nos sítios onde eu estive, para não quebrar, não andar a trocar de ensino, então o meu pai focou que iríamos andar em liceus franceses até decidirmos por outra coisa. De nacionalidade, sou angolano, mas as minhas bases educacionais e, pelo menos até ao nono ano, sempre foi o francês. Por isso, e também para dar um bocado de versatilidade, um bocado aquele toque original, se tenho isso comigo aproveito.
- Fala-nos das participações que surgem neste álbum.
Lancelot – Fiz uma faixa com o Mafioso, tinha que ser, outra com o Vigilante. Com Enigma, que é um MC da Povoa de Santo Adrião, perto do meu bairro, com o Calígula, que é o meu irmão mais novo, e com o God G dos Afiliados. Tenho também umas participações femininas, mas elas não estão por dentro do movimento, só uma vez ou outra é que se disponibilizam para cantar. Não convidei propriamente pessoal do movimento porque, na minha opinião (sem querer ofender ninguém), acho que a maioria dos álbuns que têm saído até agora, têm vindo a seguir um pouco o mesmo padrão: os mesmos produtores, sempre os mesmos convidados, os mesmos MC’s, o que acaba por dar a ideia que o Hiphop é limitado, que só determinado grupo ou pessoa é que canta, produz e participa.
Convidei esses também porque são talentos, podem ser desconhecidos mas não desiludem.
Ao nível da produção, o Mafioso – que tem vindo a produzir todas as cenas de Fundação até agora - acabou por produzir apenas um tema, porque estava muito ocupado, não tinha tempo para mais, senão era metade ele e metade o Scotch. Assim, as produções são praticamente todas do Scotch, o DJ dos Afiliados, que também é um puto lá do meu bairro.
– Num dos temas deste álbum dizes que as tuas rimas são “verbalmente agressivas”, é uma característica tua ou achas que é comum no Hiphop?
Lancelot – Eu não sou uma pessoa agressiva, quando eu na música digo agressivas é no aspecto de, às vezes, dizer coisas que podem ofender, “picar” ou chocar o próximo. Eu posso ter um texto inteiramente pacífico, mas tem sempre uma linha desse género, porque é como eu disse, sou um viciado em punch lines e battles de freestyle, é o que mais adoro. Então tem sempre aquele toque, mas não é agressivo no sentido de eu o ser como pessoa, ou que faça agressividades na rua. É uma característica minha, gosto daquelas frases que provocam reações no próximo.
– Daí também o nome, “Pugilista Verbal”?
Lancelot – Sim, “Pugilista Verbal” pelo aspecto das punch lines, pela cena do improviso e por mais outras cenas pessoais. Eu adoro improviso, se houvesse possibilidade de dar um concerto só de improviso eu dava, com MC’s a subir ao palco, em confrontações pessoais.
– Agora um pequeno desvio na conversa e voltando aquele conflito que houve em Queluz, um assunto que já deu muito que falar, mas que, a meu ver, não deve morrer sem conhecer a tua versão. Não querendo transformar isto numa novela interminável, explica-nos melhor o que sucedeu ao certo, até para acabar de vez com mal entendidos.
Lancelot – Houve um pequeno atrito, mas de pensamento. Antes, acreditávamos muito no pessoal do movimento e essa crença fazia-nos ir para todo o lado, o pessoal podia morar lá onde o diabo perdeu as botas e convidar-nos para dar um concerto que nos ía-mos na boa, na paz, porque acreditávamos e estávamos empenhados nisso. Depois desse acontecimento em Queluz passei a ter uma imagem negativa. Nesse dia convidámos os putos lá do bairro para irem conosco, como por exemplo o filho de uma professora, aqueles casos em que as mães nos telefonam a dizer “cuidem bem deles” e nós respondemos “não se vai passar nada, eles vão connosco, está tudo bem, o pessoal conhece-nos” . No entanto, quando estávamos a ser atacados, não vimos ninguém daquele pessoal do movimento que nos chamava de irmãos, ou ainda os vimos mais afastados.
Foi um conflito, foi uma confusão que não teve nada a ver com J-Cap, a única cena foi uma frase que o J-Cap disse em palco que eu critiquei e critico porque acho que não se diz aquilo, mas não teve nada a ver com conflitos físicos, e foi mesmo físico porque eu levei facada, o Mafioso levou facada, mas não adianta entrar nisso.
Não tenho beef nenhum com J-Cap, ele até telefonou ao Mafioso para esclarecer a situação e mais tarde telefonou-me também a mim e falámos.
Depois saiu aquela noticia na Skillz, mas é falsa. Só passados dois ou três dias da revista estar cá fora é que o editor me telefona a pedir a minha versão da história. Como é que é possível?! A revista estava feita e distribuída, a única coisa que eu disse foi que era falso e para ele me dizer quem era a fonte segura que ele tinha para ela, na minha frente, afirmar se eu alguma vez disse que ia fazer um tema a queimar o J-Cap na mixtape do Link. Não sei, se calhar foi uma estratégia da revista para vender mais ou qualquer cena assim. Neste momento não tenho beef com ninguém, sei que há pessoal nas festas que se pica com algumas das minhas frases, mas é como eu digo, para mim punch lines é uma vertente, se contestam aquilo que eu digo até me sinto mais feliz porque quer dizer que faz efeito nas pessoas.
– ODC é Odivelas City, ou cidade. Odivelas tem muito Hiphop?
Lancelot – Eu penso que sim, e afirmo que sim. Tem agora os Afiliados, tem os KGB, que é um grupo que o meu irmão criou, mas como eles nos têm como mentores, nós temo-los sempre guiado para eles não terem pressa, tal como nós. Estamos sempre a aprender, e, nos outros grupos de Odivelas, às vezes falta, aquela disciplina de grupo, sincronização dos tempos, adequarem-se e entenderem-se uns aos outros. Mas de resto, os Afiliados e KGB estão aí e há mais grupos como os Mentes Criminosas e os Youth Criminals que é o grupo do Dog Blunt e que para mim representam aquela temática da street, eles representam muito bem só que é a tal cena, o pessoal acaba por optar e seguir a vida, porque cá em Portugal, é o que eu digo, isto não dá milhões e às vezes mais vale bulir, estudar e empenhar-se nisso.
– Na tua opinião como está a qualidade dos artistas cá em Portugal?
Lancelot – Elevada. Eu sou muito competitivo, até comigo próprio, mas aquela competição saudável. Ouço as coisas cá em Portugal e vejo muita qualidade, o que me obriga a redobrar o meu trabalho, o que à partida, é sinal que as cenas estão a avançar, há muitos MC’s de boa qualidade.
– Na tua opinião quais seriam os álbuns (para além do teu) que aconselharias seriamente a incluir num cabaz deste natal?
Lancelot – A começar pelo Hiphop tuga, incluiria o “Rapresálias” do Chullage, porque me identifico muito com o que ele diz, como o “Rapensar” ainda não saiu teria de ser esse. O “Educação Visual” do Valete, porque também está muito bom e diferente, ao menos em termos de liricismo. Estrangeiros: o Diam’s, Booba e Lunatic, porque é o que ouço agora e me influencia muito.
– Para breve, podemos esperar algum álbum de Fundação?
Lancelot – Para breve não, mas podem estar à espera porque nós estamos a trabalhar nisso. Quando estivermos todos sincronizados e com tempo, o objectivo é fazer o álbum de Fundação.
– Mensagem aos leitores
Lancelot – Quando o CD estiver aí comprem e apoiem o Hiphop nacional.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |