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– Quando surgiu a King Size?
Lexo – A King Size surgiu em 1997, na altura era Godzila. A mudança ocorreu porque tivemos problemas internos.
Micko – Foi necessário abandonar a Godzila para a loja poder evoluir um pouco mais, porque lá, devido a esses problemas, ia simplesmente andar para trás, entrar em retrocesso e não valia a pena.
Lexo – A par com esses problemas internos juntou-se também o facto de partilhar no mesmo espaço a música com a roupa, tivemos vontade de ter uma loja exclusivamente de música.
– Mais tarde efectuaram uma nova mudança de instalações. Isto foi quando? Porque é que aconteceu?
Lexo – Isso foi no dia 3 de Março deste ano, 2003, e foi por uma razão muito evidente, as instalações não tinham condições mínimas para trabalhar, isto em termos de água, esgotos, basicamente condições higiénicas.
Micko – As infra-estruturas não funcionavam bem e quando chegava o inverno o que acontecia era que chovia e a loja acabava sempre por inundar. A baixa não tem grandes condições de saneamento e esgotos.
Lexo – É pena, era um bom sitio, com muita passagem, bem situado, mas em termos de condições deixava a desejar, tivemos muito prejuízo, fez-nos perder demasiado material. Todos os natais era a mesma coisa, no mínimo ficávamos ai umas dez vezes inundados. Não foi possível continuar.
– Habitualmente o que é que a loja costuma vender mais?
Lexo – Música! (risos) Black music em geral claro, porque é a nossa referência, o Hiphop, o reggae, cada vez mais o Hiphop tuga também. Mas aquilo que se vende mais são vinis de scratch e battles.
Micko – Material profissional para DJ. Mas em termos de vendas de CDs acho que o Hiphop tuga consegue ter uma vantagem e estar sempre um passo à frente do Hiphop estrangeiro. Porque não há nada de Hiphop estrangeiro que tenhamos vendido 50 cópias.
É música de cá, o pessoal compreende a mensagem, é muito mais fácil o pessoal sair atrás desse tipo de música.
Lexo – Isso também acontece porque o Hiphop estrangeiro é mais disponível na Internet, o que é uma pena (vocês não podem ir buscar à Internet! Isso não é bom), para além disso, leva vantagem sobre o Hiphop português nas grandes superfícies ou nos centros comerciais. Tu podes encontrar o álbum de 50Cent mais facilmente que o álbum de Dealema, de J-Cap ou de TWA, coisas assim.
– Este ano o Hiphop teve muitos lançamentos, houve uma maior projecção a nível nacional, até mesmo por parte dos media (TV, rádios, etc...) notaram esse reflexo nas vendas?
Micko – Agora há muito mais variedade de Hiphop português, o pessoal sabe muito melhor o que tem de comprar porque já tem informação, mas, entretanto meteu-se a questão monetária. A posse de compra está cada vez menor e isso nota-se muito na música. Em vez de vires buscar dois CDs tugas vais levar um e ainda questionas se vais levar esse CD, por melhor que seja. O Hiphop tuga, assim como toda a música, está a ressentir-se um bocado nesse aspecto.
– Houve algum disco que se tenha destacado em 2003 pela procura?
Lexo – Por exemplo, o álbum de Kosmikilla, “Politika de Rua”, saiu muito rapidamente. Outro que rebentou tudo e saiu muito bem foi o de NBC, “Afro-Disíaco”. A compilação “RealMente”, dos Red Eyes Gang, que foi uma coisa muito underground, também saiu muito bem, vendemos praticamente uma por dia pelo correio, através de pedidos feitos pela Internet.
Mas por exemplo o álbum “Esperança”, de J-Cap, foi pena não termos tido um bom contacto com a editora, porque se tivessemos cerca de cem, cento e cinquenta cópias, certamente as teríamos vendido super rapidamente. É preciso dizer que as editoras não estão a dar a devida importância aos independentes, estão a esquecer a base do mercado e do movimento. É pena que a Edel até hoje, em seis anos de existência, nunca tenha falado connosco. Enfim, é assim que funciona aqui neste país.
– Se alguém quiser comprar um CD à King Size, através da Internet, como é que tem de fazer?
Lexo – Vão a www.royal-underground.com e têm um link de compras, próprio da King Size, onde estão as capas dos CDs disponíveis. Um big up a quem ajudou a criar este projecto, é mais um serviço que se pode encontrar na loja independente e que faz divulgar o som a um nível nacional. Acho que os grandes centros comerciais não fazem isto. Nós estamos a mandar todos os dias coisas para Aveiro, Quarteira, Porto, Faro, para o país inteiro. E isso é um bom sinal de que cada vez está a crescer mais e mais. Por exemplo, em Faro nunca ninguém tinha ouvido falar em Nigga Poison, e agora são bem divulgado lá em baixo. Acho que o sistema de Internet é um instrumento que se pode trabalhar a nível nacional e, ao mesmo nível que a rádio, pode ajudar bastante o movimento.
– Alguns cd’s nacionais tendem a ser vendidos muito caros, têm capacidade de acompanhar essa subida de preços? Que tens a dizer sobre isto?
Lexo – Quando eu vou comprar um CD ao armazém, seja tuga ou americano, leva um acréscimo de 19% de IVA, num livro já assim não é, o IVA é de 5%, o que não é bem lógico, é um pouco racismo cultural. E também não é por isto que os portugueses estão a ler mais. Agora, um CD anda à volta de três mil e oitocentos escudos, cerca de 17 a 20 euros, é quase um escândalo. Para quem recebe o ordenado mínimo aqui, comprar um CD passa a ser um privilégio. É pena que esteja lá incluída a cena nacional. Vou voltar ao exemplo de J-Cap, o CD dele se calhar é quase mais caro que o CD da Missy Ellliot. Como é que isso é possível?
Micko – Às vezes é um euro que faz a diferença. É assim que os tugas se vão enterrando cada vez mais, e com as editoras a contribuir muito para isso. Vai chegar a uma altura em que vai ser muito difícil controlar.
– Já realizaram várias pequenas actuações na loja. Isso nunca vos trouxe problemas? Concentrar muitas pessoas num espaço onde estão expostos tantos cd’s.
Lexo – Nunca. Há uma relação de confiança, a casa é aberta a todos e fazemos confiança em cada um. Se não tens boas intenções, não tens nada que fazer aqui. Hiphop é uma música da realidade social, uma música da rua, o que não é sinónimo de ser uma música de bandidos. Podes viver em condições difíceis e ser bem educado. Educação e condições são duas coisas diferentes. Até hoje, em seis anos de show-case na loja nunca tivemos nem um problema.
– Mas, por exemplo, já aconteceram alguns incidentes em grandes lojas que, devido aos prejuízos, acabaram por fechar portas a essas festas.
Lexo – É porque também não sabem trabalhar. Deixam entrar gente com garrafas de whisky, fumar lá dentro, fazer ganza, tudo. Tens que saber o que estás a fazer, onde é que estás a meter os pés. Há uma lei para todo o mundo, tu queres fumar uma ganza, sai, ninguém te proíbe de fumar ganza, mas sabes que não deves fumar lá dentro, se queres beber um copo, vai lá fora beber.
– Vocês conseguem controlar isso aqui na loja?
Lexo – Acho que sim.
Micko – À partida o pessoal já sabe como é que funciona e como é que tem funcionado nos últimos anos. Existe troca de respeito entre o cliente e o vendedor.
Lexo – Se estás a dar respeito, recebes respeito.
Micko – Lá está, o atendimento personalizado acaba por dar frutos nesse aspecto, é muito mais fácil porque as pessoas já têm uma relação mais próxima com quem está atrás do balcão e levam tudo mais na descontra. Se eu disser “desculpa, não podes fumar aqui”, ele não vai dizer “não posso fumar aqui porquê?”, ele vai dizer “yah, está-se bem” e vai lá fora. É muito mais fácil resolver os problemas assim.
Lexo – Agora se essas grandes lojas tiveram problemas, acho que não é possível manipular e fazer uma cena que não é bem delas. São coisas que não têm bem a ver. Se tu vais receber duzentas pessoas que vêm lá do bairro social, tens de saber onde vais meter o pé, não significa que tenhas de ter duas carrinhas de policia lá dentro da loja. Também tens de saber o que estás a fazer, a controlar o povo, tranquilo. É uma questão de respeito, sem fazer uma forte autoridade. Mais uma vez, se vais dar respeito, vais receber respeito, se vais dar agressividade, vais receber agressividade. É super lógico.
– Pode-se dizer que esta loja é também um centro de informação precioso do movimento Hiphop. Que tipo de informação costuma passar por aqui?
Lexo – Informação sobre o Hiphop: festas, eventos, se queres comprar pratos vens cá e perguntas, queres saber onde podes gravar a tua maquete, vem cá, quais são os CDs novos, todo o nível de informações. Não custa nada dar uma informação, desde que a informação não seja privada. Agora, se me pedires o número do telemóvel do Chullage eu não vou dar de certeza. Mas se queres saber onde há um bom estúdio para fazer uma faixa, eu vou dar o número do estúdio. Tu queres saber como podes arranjar uns pratos em segunda mão, se eu souber de alguém que vende, eu meto-te em contacto com o rapaz. Queres saber onde é que há a próxima festa ragga, eu digo e dou o cartaz, ou até sobre o que se passa ao nível de drum’n’bass, qualquer cena. Tentamos divulgar ao máximo.
– Desde sempre a King Size tem apoiado os artistas nos seus lançamentos independentes (ou edição de autor) e isso foi um apoio importante para o crescimento e divulgação do Hiphop. Sentes que foi uma aposta ganha?
Lexo – Acho que foi positivo. As maquetes são um trabalho, se queres vender, vende aqui. Todo o mundo sabe como é complicado por à venda nos centros comerciais.
– Mas vendem qualquer tipo de maquetes, de alguém que chegue e peça para colocarem aqui o seu trabalho?
Lexo – Qualquer. Não somos ninguém para julgar, o cliente é que decide, não é a King Size, não somos ninguém para dizer “isto é mau, não tem nada a fazer aqui”. O movimento é aberto a toda a gente.
Micko – Acho que é importante salientar que quando esse pessoal deixar de ter um sítio para expor as maquetes, por mais básicas que sejam, provavelmente, o que vai acontecer é que o underground se vai fechar. O pessoal vai deixar de ouvir falar de quem está lá em baixo, quem está a fazer as primeiras produções, e, por melhor que elas sejam, simplesmente não vais ouvir falar delas. Acho que alguém tem que dar atenção a esse pessoal, porque se não tiverem atenção vai ser só desmotivação, e desmotivação traz desmotivação. Antes de arrancares tu já vais estar a desistir do Hiphop, é o que vai acontecer com muita gente.
O caso do Sam The Kid é um bom exemplo de produtividade, se não fosse aquela primeira maquete e se ninguém lhe tivesse dado hipótese de a expor, se calhar, a esta hora ele não era o Sam The Kid nem tinha o respeito que tem. Um dia, se não houver King Size, espero que esteja cá alguém para fazer esse trabalho.
– O que desejavam para a loja neste novo ano que se avizinha? E para o Hiphop?
Lexo – Para já, desejo uma rua super bonita e aberta ao trânsito. Para o Hiphop desejo mais vinil português. Agora chegou o tempo de podermos tocar a nossa música durante as festas, não é só tocar em casa ou no carro, temos que fazer mais vinis! Um big up a GMS, Bomberjack, Chullage, gente que já chegou a fazer isso. Temos que chegar a um ponto em que, durante uma festa, o DJ possa fazer um set de quarenta minutos ou uma hora só tuga. A indústria do vinil tem que crescer, é isso que eu desejo. E depois, também, mais maquetes com mais qualidade e mais festas sérias, ao nível profissional da palavra.
– Acham que ficou algum outro assunto por focar?
Lexo – Sim, gostava de referir que cada vez é mais notória a diferença entre a grande superfície e a loja independente. Gostava que as editoras e distribuidores ligassem mais a este tipo de loja. São sempre os independentes que vão atrás das majors, a pedir e perguntar como é que é possível ter as coisas, da NorteSul, da Edel e coisas assim. É uma queixa, é sempre uma luta permanente. E devia ser o contrário, deviam ser eles a querer vender aqui, porque nós somos a base. Não quero dizer que o início do Hiphop teve a ver com a King Size, quero dizer que a loja independente faz parte de um movimento do mesmo tipo que as grandes superfícies. Nós estamos a vender mil ou duas mil cópias ao mês, mas, quando fazemos a venda temos contacto directo com o cliente e é isso que é mesmo importante. Conhecemos o cliente, o cliente sabe o que vai encontrar na loja. Somos uma loja especializada, temos de trabalhar com gente da especialidade.
Micko – Da minha parte queria só lançar um apelo para o pessoal continuar a dar-nos atenção, agradeço a todas as pessoas que nos têm dado apoio, pessoalmente, isso faz-me sentir muito bem. Continuem sempre a dar apoio à King Size e às lojas pequenas.
Nuff Respect to all massive crew in TugaLand:
Raska’s brother Kronic & Cheeks, Red Eyes Gang, Pablo 27, TWA, N.P., Sam The Kid, Guardiões, Xeg, Kacetado, DJ Link, DJ Cruz, Uzi, Martinez, DJ Bezegol, Junior, Carla Menitra, Pascoal Silva, Mundo, Esquadrão Central, Dome…
Hip Hop Culture!
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |