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Entrevistas
H2T - HipHop TugaAce (MC - Mind da Gap) - Dezembro/2003

Ace

Muito mais que um MC

O Ace que conhecemos das músicas é o mesmo que nos aparece à frente, e tudo o que diz parece já antes ter sido tocado em algum dos terços de temas que tem vindo a assinar, conjuntamente com Presto e Serial. Passados dez anos desta união, o Às joga-se de novo, e desta vez vem sozinho. A propósito de “IntensaMente” e outras coisas mais, fomos falar com ele.

- Há já algum tempo que ouvimos falar num álbum teu a solo, ouviu-se falar no projecto “Dokstranja”, no “A.Ventura”. Qual a razão dos sucessivos adiamentos e porquê agora, finalmente?
  Ace - Não há nenhuma razão específica e concreta que te possa dar para que isso tenha acontecido. O “Dokstranja” foi a primeira coisa que eu fiz a solo, mas na altura não achei que fosse algo que devesse mostrar a toda a gente. O “A. Ventura” foi uma experiência que eu fiz e na altura tinha um contrato com uma pessoa para trabalhar no seu estúdio, mas acabou por não acontecer, pois o contrato foi rompido a meio. Entretanto eu escrevo todos os dias, faço beats todos os dias e isto da música é muito bonito para quem está de fora, mas o que é certo é que um gajo tem que fazer pela vida e ao contrário do que as pessoas possam pensar eu não sou milionário, as contas que se fazem aos discos que eu vendo com Mind da Gap (MDG) provavelmente não estão bem feitas e, portanto eu achei que era um desperdício ter talento e não o estar a usar. A partir do momento em que comecei a pensar nisto, comecei a juntar letras com beats que tinha e as várias pessoas a quem mostrei gostavam do que ouviam, e eu apercebi-me que tinha ali um disco e que poderia utilizá-lo para rentabilizar o meu talento.

  - No Hiphop parece que não há grande espaço para o MC desenvolver tanto a parte artística como desenvolvem, por exemplo, os músicos no rock ou outros estilos musicais, tenta-se puxar sempre as coisas para uma aproximação às origens...
  Ace - Mas não é obrigatório que as coisas tenham a ver com as origens, não é obrigatório... Até porque se fosse assim nós nunca tínhamos ouvido hip-hop na vida, o hip-hop nunca tinha saído do Bronx. Eu também já pensei assim porque eu também já fui puto. Quando nós começámos, o press-release dos Da Wreckaz começava por dizer algo do género: “Os Da Wreckaz são um grupo anti comercial” e isso foi logo a primeira merda que nos começou a cortar as pernas na indústria portuguesa. Eu hoje digo-te a mesma coisa, eu sou anti comercial, mas o meu conceito de “comercial” é que mudou. Eu não acho que as pessoas, por terem a sinceridade de admitir que gostam de dançar sejam comerciais. Por exemplo, tenho uma música no álbum, a “Tu sabes”, que é completamente dançável. Quando acabei de fazer a música achei que aquilo era mesmo demais para dançar e depois virei-me para o Maze e disse “se eu meter esta música no disco está-se mesmo a ver quê que estes gajos vão dizer...”. Eu acho que é uma arrogância quem ouvir aquela música pensar “prontos lá está aquele gajo a fazer uma música para ganhar dinheiro”. Ganhar dinheiro com quê? Com uns míseros discos de hip-hop que se compram em Portugal? É ridículo, eu não vou ganhar dinheiro nenhum e depois criam-se uma data de lugares comuns à volta do hip-hop em Portugal que em vez de deixarem que ele avance só pioram. Não há um mínimo de profissionalismo nas apresentações ao vivo da maior parte dos artistas, não há um mínimo de cuidado na apresentação gráfica, algumas capas de disco são autênticos escarros. Mesmo as pessoas que fazem hip-hop em Portugal continuam a tratá-lo como se fosse algo muito novo. Aqueles mesmos que na TV dizem que o hip-hop tem de ser underground, tem de ser político, que não podem ter gajas nos telediscos, não se podem vestir de laranja nem podem dançar, têm vídeos no Sol com mensagens em baixo a dizer “gosto muito disto e de Britney Spears”. Eu hoje em dia vejo-me não apenas como rapper, eu sou um artista, pinto, faço design, faço uma série de merdas, e não estou obcecado com “sou rapper e faço yo”.

  - O Hiphop é uma cultura muitas vezes associada à violência urbana, mas neste álbum, mais uma vez, retracta-lo como uma ajuda ao teu desenvolvimento pessoal. Podes referir-nos como te ajudou o hip-hop nesse mesmo desenvolvimento?
  Ace - Eu não sei responder com muita certeza a essa pergunta mas é mais aquilo que eu cresci como praticante de hip-hop do que como ouvinte. Como ouvinte é mais a recordação de músicas, letras, discos... Eu não consigo apontar e dizer: “o hip-hop influenciou-me nisto”, foi tudo, sou um gajo muito vaidoso, sempre adorei a cena das roupas... Os Public Enemy marcaram-me muito, mas não é só aquela cena da política, de “sou um gajo muito rebelde” (que sou), sempre senti necessidade de ser contra o sistema. Teve muito a ver com isso mas também teve a ver com outras coisas que não têm nada a ver com isso... Aquilo em que o Hiphop me ajudou realmente foi em termos de escolhas pessoais enquanto pessoa, para o praticar e enquanto praticante e defensor do mesmo, posições que tive de tomar perante a indústria musical portuguesa, a minha editora, os meios de comunicação... Ajudou-me a canalizar alguma raiva, dor, alegria, acompanhou momentos muito maus e momentos muito bons... Desde há uma porrada de anos que o Hiphop é a banda sonora da minha vida. O Hiphop transformou a minha vida por completo.

  - Qual foi o processo de gravação do álbum?
  Ace - O álbum foi gravado da seguinte maneira: tínhamos um gravador digital, os instrumentais no computador, quando eu chegava à conclusão que tinha um instrumental para uma letra, ou vice-versa, passava o instrumental para a máquina, gravava o rap por cima, misturava, está bom. Gravava para o computador e apagava aquilo da máquina. Eu não tenho instrumentais ou vozes separados, tenho apenas as músicas finais, precisamente para não andar a perder tempo a ir ouvir outra vez “ai isto podia ficar melhor...”. As músicas ficaram o melhor que podiam naquele momento. Há uma série de erros técnicos, mas acho que o álbum assim resultou mais sincero.

  - Como surgiram as participações?
  Ace - O Presto era quase obrigatório e não me passaria pela cabeça fazer um disco a solo e não o convidar. Além disso, a música aborda uma questão que nós partilhamos, que é ver aquilo que nós durante estes anos todos andamos a construir para nós, e a perceber que enquanto nós crescêssemos o Hiphop também ia crescer e que durante um certo tempo a visibilidade que nós tínhamos era quase a visibilidade do Hiphop, porque houve uma altura em que só nós é que aparecíamos. O Mundo, porque temos uma boa relação pessoal, eu sou o padrinho e ele é o afilhado, desde sempre, relação que hoje funciona mais numa perspectiva de orgulho do que qualquer outra coisa porque os DLM entretanto cresceram, e bem, por mérito próprio. O tema surge como resposta a uma entrevista que um grupo deu em que responsabilizava Gaia pelo mau ambiente que se vivia no hip-hop, e era a única que retiraria do álbum porque hoje já não faz sentido, o tal grupo já nem existe. O Maze é o meu melhor amigo e estávamos já há um tempo a trabalhar num álbum em conjunto para o qual já tínhamos tudo pronto e só faltava gravar, mas eu um dia, sem querer, apaguei tudo e arruinei o projecto. Como crente no destino, acho que as coisas aconteceram assim porque tiveram de acontecer e as únicas duas que escaparam, pois já estavam gravadas, são as que estão no álbum. O Maze para mim foi o que deu um salto maior nos DLM, e é o que mais se destaca. Curiosamente, todas as pessoas que convidei para o meu disco são pessoas que me tratam por Nuno, é tudo meu amigo. E já agora eu dizia também que gostava de ter convidado o Sam The Kid, porque, até ver, fora da Coalizão é o único artista que me entusiasma mesmo, mas não foi possível devido à distância.

  - Tu nunca te tinhas mostrado muito na produção, conhecendo-se apenas as tuas produções para os CS, a tua participação no disco do Valete e a intro do “Sem Cerimónias”. Como foi a experiência de fazer um álbum praticamente todo produzido por ti?
  Ace - Eu, praticamente desde sempre que produzo todos os dias, mas se me puser a produzir instrumentais em MDG, que é que o Serial iria fazer? E não é algo que eu questione sequer, se não fosse assim nos MDG, se fosse eu a produzir os beats não seria tão diverso, o Presto não se sentiria tão bem, foi algo que esteve sempre estabelecido. Também fui eu a produzir o “Dokstranja”, o “A. Ventura” e agora que eu tive a oportunidade de mostrar que faço beats têm sido boas as reacções que tenho tido. O “Cor de Laranja” é um sucesso radiofónico, esteve até em primeiro lugar uma semana no top escolhido pelo público da Antena3, o que para mim é bastante mais importante que o outro top, das playlists. E esta é uma música que eu gosto, em que falo do que realmente senti, uma pessoa de quem eu gostava, mas não se passava nada, hoje já se passa, e pelo que vejo até aquela frase a “Tas a ouvir” passou, pelo menos em minha casa, o meu pai é qualquer coisa e “tas a ouvir?”, e isso para mim, como artista, é algo de muito positivo. Ver os meus pais, com 60 anos... podem-me chamar comercial, rasco, o que quiserem, mas para mim não há nada que pague eu ver o meu pai a dançar uma música minha com a minha mãe!

  - Também todo o design gráfico do álbum é da tua autoria. Esta é uma outra vertente do Ace? A capa tem algum significado ou foi algo mais a brincar?
  Ace - É mais isso... a capa é baseada no construtivismo, que é uma corrente artística que surgiu associada aos cartazes de campanha comunista, e é uma imagem que eu sempre gostei, pelo visual, não pela política, pelas suas cores, pela força da imagem, pela simplicidade das linhas rectas, é tudo baseado em prédios, imagens humanas, e se fosse eu a fazer as capas dos MDG, que não sou, que é o Presto, provavelmente já teria usado essa imagem e agora que tive a oportunidade não deixei passar, e para além disso acho que tem tudo a ver com o disco: a intensidade, a capa do disco passa intensidade, os vermelhos e os cor-de-laranjas são cores intensas. Foi mais uma questão de gosto do que associar a uma mensagem qualquer, apesar de acabar tudo por se associar, porque o álbum é algo de muito intenso e a capa também o é.

  - A música “Mostra o teu orgulho” é o primeiro single, e pelo que sabemos dos teus temas preferidos do álbum. Fala-nos um pouco desta música e também do seu video-clip...
  Ace - O vídeo foi uma oferta minha à editora. Foi feito com a ajuda de algumas pessoas que trabalharam comigo na NTV e que conheci. Como não tinha meios, tive de fazer um vídeo simples, de design gráfico, animações e a tentar associar símbolos e imagens do disco que tivessem a ver com as palavras que são ditas quando elas aparecem. O resultado acho que é algo diferente do habitual em rap, até é um pouco psicadélico, e isso foi algo de que gostei. Acabei de ver o vídeo e pensei: “fogo que é que eu acabei de ver?”. Acho que o resultado final foi fantástico, foi grátis, foi feito pela minha boa vontade, e pela boa vontade das pessoas que trabalharam comigo. Quanto à escolha do tema... eu quando acabei o disco já sabia que o single seria ou o “Tu sabes”, que seria a minha inclinação mais lógica, ou o “Cor de laranja”, e eu usei uma táctica que se baseia em inventar um single, escolher quatro ou cinco temas, que mandei para programas de rádio, em que eu escolho os meus singles, e coloco os temas que para mim são mais representativos do álbum, em que se incluía a “Mostra o teu orgulho”. Desses três ou quatro temas o que achei que era mais “tele-discável” era essa. Entretanto o single oficial da editora, em vez do “Tu sabes” vai ser o “Cor de laranja”, que a Antena3 adoptou quase como single, pois a música “Mostra o teu orgulho” não passou, talvez por ser um single rap, passou nos tais programas a que mandei os temas e algumas vezes o vídeo clip. Cá a editora é forçada a escolher um single para as rádios, tanto que eu escolhi um que não era muito comercial, mas a rádio escolheu o seu próprio single, obrigando a editora a também o adoptar.

  - Concertos com este álbum, não houve. Porquê?
  Ace - Não houve e não vai haver. A partir duma certa altura, por muito que isto possa parecer arrogante, em que essas lojas deixam de ter lotação, deixam de fazer sentido. A partir da altura em que os MDG começaram a ter problemas com as lojas porque as pessoas que iam ver os nossos concertos destruíam as lojas, deixou de fazer sentido fazê-los. E se os MDG deixaram de os fazer não faria sentido eu ir fazer. Em termos de concertos, eu, enquanto músico que faz discos e que os tem a vender na loja, e sabendo que já há setecentas pessoas que ouvem aquele disco e me conhecem, já não me mete confusão nenhuma dizer que sou muito susceptível em relação a concertos. Se eu tiver mau ambiente não sou capaz de dar um bom concerto. Quando digo mau ambiente digo concertos em que as pessoas vão lá unicamente para nos prejudicar, para nos testarem, para verem se somos maus, machos...

  - Que reacções tens recebido do público quanto a este álbum?
  Ace - Não tenho tido, talvez por não dar concertos, a promoção não tem sido grande coisa, pessoalmente acho que é um bocado falta de ambição da editora, não digo que pelos MDG terem vendido 10.000 eu tenha de vender 3.333, mas isso não sou eu que decido... Para mim quanto menos me reconhecerem na rua, quanto menos as pessoas se sentirem traumatizadas com a minha presença, melhor, nem me queixo muito disso. Não tenho tido de facto reacções, na rua ninguém me vem dizer “o teu álbum tá fixe, tá mau...”, não tenho. Eu próprio também tenho a minha opinião quanto a este disco, também tenho esse direito, e é um bocado como os do MDG, da maneira que eu o fiz, à “kamikaze”, é o melhor que eu poderia ter feito. Não é o melhor trabalho em termos técnicos, não tem os melhores flows da minha vida, mas é provavelmente das minhas criações artísticas que eu senti mais, acho que agora só quando eu tiver um filho me vou sentir tão preenchido. Quando o ouço sinto-me orgulhoso. Aprecio que me façam criticas, positivas ou negativas, desde que sejam bem fundamentadas, mas não me preocupa muito.

  - Qual é a tua opinião quanto a certas críticas que se tem ouvido sobre o teu álbum que dizem que ele está demasiado conectado ao estilo Mind da Gap?
  Ace - Eu não sabia disso, mas acho que as pessoas daí podem tirar dois pensamentos: ou os MDG são só eu, ou eu não consigo fazer nada diferente dos MDG mas eu, sinceramente, não acho que seja igual a MDG. É óbvio que terá algo a ver com MDG! É impossível que não seja parecido, eu sou igual a mim mesmo, e se eu sou igual a mim mesmo em MDG também o serei quando fizer coisas sozinho, nunca posso ser diferente de mim mesmo.

  - O que é a “Ace produktionz”? É algo que está estritamente reservado ao Ace, ou pode vir a dedicar-se também a outros artistas?
  Ace - Não é algo só para mim, mas a escolha não é minha. A “Ace produktionz” só trabalhará com outras pessoas se me convidarem ou me pedirem, e até agora, tirando Valete e CS, só me têm pedido colaborações como MC. Se alguém me pedir um instrumental, e for alguém com quem eu me identifico e não tenha problemas em fazê-lo, eu faço o instrumental e não se fala mais disso. A “Ace produktionz” não é só instrumentais, é um supra alter-ego que vai englobar desde o design, produção, Internet, projectos musicais que não são só influenciados pelo hip-hop, vou começar a ramificar-me. Também tenho um projecto de um livro de poesia, que talvez venha acompanhado de um disco de musica, mas apresentado de uma maneira completamente diferente, acompanhado com desenhos meus, fotografias, trabalhos gráficos, o poema não estar isolado, ter um poema acompanhado por outras coisas, o que me vai dar algum trabalho... A musica também poderá ser spoken word, drum’n’bass ou soul comigo a cantar por cima, não será só rap, serão várias interpretações.

  - Como vês o actual estado do Hiphop em Portugal?
  Ace - Em termos de mercado e de produto, acho que cada vez está melhor, cada vez surgem mais editoras independentes, cada vez surgem mais grupos, o interesse dos media cada vez é maior. O único senão que eu vejo nisto tudo é que as pessoas se sintam atraídas por este “glamour” todo, e se deixem levar na corrente e as coisas acabem por voltar ao que aconteceu em 95. Apesar disso, acho que isto agora não acaba mais, acho que a partir de agora vai sempre haver público, nunca voltaremos a uma situação tão critica como a do “Rapública”, talvez porque agora já há bases. É claro que há uns que estão a trabalhar melhor, outros pior, mas isso é normal.

  - Assim em jeito de balanço de fim de ano, quais foram para ti os grupos ou artistas, internacionais e nacionais, que marcaram o Hiphop em 2003?
  Ace - Em termos nacionais, talvez os Dealema. A nível internacional, o Common, Nas, Litlle Brother, Eminem... é por aí...

Por André Lemos e Jaime Silva para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation

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