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- Conta-nos um pouco do teu trajecto. Enquanto estiveste no estrangeiro chegaste a editar alguma coisa?
Kronic - Eu sempre fiz música, faço música desde os quinze anos. Estive em Paris, fui para Nova Iorque, fiquei lá cinco anos, nesses cinco anos envolvi-me com o rap, numa crew chamada Da Boom Squad, relacionada com os Artifacts. Participei nas bodas do primeiro álbum dos Artifacts, isto durante dois anos e meio. Depois, em 96, vim cá para Lisboa. Vim para aqui porque de uma certa forma é o meu pais, sou português, calhou ter crescido em França mas é aqui que eu me sinto bem. Não tem nada a ver com o Hiphop nem com a música, é uma questão de escolha, onde é que tu queres viver a tua vida.
No entanto, o meu primeiro trabalho editado a nível de composição foi o trabalho de TWA, “Miraflor”.
- Chegaste também a ser apresentador das segundas horas do ‘Submarino’ na Antena 3. Fala-nos um pouco dessa tua experiência na Radio.
Kronic - Foi uma experiência muito boa, porque deu para ver qual é a responsabilidade que uma pessoa tem quando dá a informação. Aprendi a ser responsável com o Hiphop ao fazer aquele programa, porque era Nacional e era muito importante tudo aquilo que dizíamos, de quem e como falávamos. Nós íamos espalhar uma informação para um público que se calhar não tinha muitos sítios onde a ir buscar, e isso tem que ser gerido com muita cabeça, tentar ser o mais justo possível com as pessoas que fazem Hiphop e também para com o público. Estive lá mais ou menos um ano, depois fomos despedidos.
- Pois... e deixou de haver um programa de Hiphop que chegasse de norte a sul do Pais. A teu ver isto representa uma grande lacuna no Hiphop ou até mesmo na cultura musical em geral?
Kronic - Claro, como é que é possível durante vários anos não ter acesso às televisões, não ter acessos a canais que vão mostrar em várias rotações por semana um vídeo-clip, não percebo porque é que na altura do “Submarino” as rádios estavam muito mais abertas a um estilo musical que estava pouco divulgado. Hoje em dia as rádios não entram naquela onda de espalhar o Hiphop, não sei porque é que elas não aderem ao nosso formato nem à nossa música.
- Será falta de confiança para com o Hiphop em si, desvalorização desta cultura...?
Kronic - Eu acho que a rádio portuguesa está orientada em playlist e rotações feitas por computadores, portanto o que se passa é que programas de autores, quer dizer, programas de pessoas que fazem Hiphop para o pessoal que o ouve, não estão a ser valorizados pelas rádios, não estão a ver o quanto têm a ganhar com isso. Ou seja, uma informação muito mais direccionada, muito mais controlada e pessoas a levar mais além essa informação Hiphop, a quem está interessado em ouvir. Porque é muito fácil tocar uma música de Micro ou uma música do Eminem, depois de uma Shakira.... mas assim não há a informação necessária à volta do movimento.
- Se calhar é surpresa para muita gente quando souberem que tens cerca de 11 mixtapes editadas no mercado. Queres explicar-nos a filosofia que adoptavas normalmente nas tuas mixtapes?
Kronic - Consistiam pura e simplesmente num freestyle gravado ao vivo: eu a rodar uns instrumentais desconhecidos dos MC’s, os MC’s a darem rimas desconhecidas pelo DJ, ou seja, uma cena de puro improviso no Hiphop durante cerca de meia hora. Depois, ainda no mesmo lado, havia um DJ convidado e no Lado B era música underground, mais ou menos de Nova Iorque.
- Como é que surge a tua integração nos TWA?
Kronic - A minha relação com os TWA foi-se fazendo conforme os anos, eles faziam parte de uma crew com a qual me identifiquei.
- Praticamente aquando do “Miraflor” saiu o “Projecto Inoxidável”. Qual era a tua ideia inicial para esta compilação? E que balanço tiras agora que estás prestes a editar o segundo?
Kronic - O “Projecto Inoxidável” foi um deal que eu tive com uma distribuidora que tinha um catálogo direccionado para o Hiphop underground e que representava labels como Deathrow, Rawkus e Loud. Então eu fiz uma proposta para compilar o catálogo deles, dar um impulso a artistas como Talib Kweli, Pharohe Monch e Mos Def, que na altura não estavam assim muito mediatizados. E eu fiz o “Projecto Inoxidável”, convidei MC’s portugueses para rimar por cima dos instrumentais feitos pelos americanos e comercializados pela Rawkus, praticamente 85% do disco. O que se passou a seguir foi que tivemos a infelicidade de a Rawkus ser vendida e fecharem os escritórios aqui na Europa. Fiquei sem os direitos de usar as músicas naquela compilação e portanto o projecto caiu para a água e eu não pude sair com ele. Apenas tomei a iniciativa de espalhar umas cópias mas não chegou para satisfazer os pedidos.
- E agora? Porquê a continuação e não um novo trabalho totalmente independente?
Kronic - Na altura é óbvio que não tive vontade de fazer um segundo volume porque esse trabalho fez-me perder um ano da minha vida, foi um disco que não saiu da forma que eu queria, um investimento que caiu à água porque ninguém me devolveu o dinheiro. Fiquei a “engolir” aquela cena e pronto. Mas o “Projecto Inoxidável II” não é o mesmo conceito, é como se fosse uma desforra. O primeiro nunca saiu e agora estou a lançar o meu “Projecto Inoxidável II” que não tem instrumentais americanos e assim. Este é um disco com o qual me identifico muito mais.
- É notória a sintonia entre os MC’s e o beat. Tens grande preocupação com isso? Como costumas fazer?
Kronic - Não sei, não te consigo dizer como é que se passa. Simplesmente apetece fazer um beat, ligas a máquina e fazes a tua cena, não te posso explicar bem mas é um processo de criação. Tens de ser fiel a ti próprio e tentar exprimir aquilo que sentes; cada vez que fazes uma cena assim acabas sempre por ter um bom beat. Depois, é só chegar um MC, pegar naquele feeling e escrever uma letra que acerte em cheio, dar palavra e sentimento à música que tu fizeste.
Claro que há sempre uma preocupação especial quando tens beats pedidos por pessoas que tu respeitas bué, tipo: “será que vou fazer um beat ao nível da rima do gajo?”. Isso é muito competitivo, é mesmo para uma pessoa se empenhar ainda mais e servir cada vez melhor os rappers com as suas necessidades de instrumentais.
- Como escolheste os MC’s presentes neste teu álbum?
Kronic - Isso foi muito difícil porque eu sabia, desde o início, que não podia convidar toda a gente que queria, mas ainda tenho tempo à frente para fazer outras coisas com o pessoal que não aparece neste disco. Tive que pensar nas produções que eu tinha e quais dos MC’s ou grupos se enquadravam melhor nelas, antes mesmo de pensar quem é que eu ia convidar. Assim, não acontece o caso de MC’s terem de escolher o beat por ser o único que me resta. Faço um beat e penso quem é que pode pegar nele e subi-lo um nível acima. Basicamente os artistas foram escolhidos pelo beat
- Também tens DJ’s convidados? Porquê ?
Kronic - Só um, o Link! Porque eu como DJ não tenho aquela vontade de fazer, por exemplo, o que o Link fez no meu disco, dar uma coisa com muita pica e assim, já não tenho essa força. Eu, se calhar, ouço aquilo e digo-te “fiz muito bem”. E ainda para mais eu gosto do gajo, sinto-me à vontade e orgulhoso por ter assim uma pessoa a arrebentar assim numa cena minha. Eu gosto de dar um pouco de liberdade.. é como nas mixtapes, eu não tinha a necessidade de convidar um DJ em cada mixtape, não tinha necessidade nenhuma de o fazer, mas sempre o fiz.
Não é propriamente uma aposta, porque apostar é quando te aparece um gajo novo que ninguém conhece e estás a arriscar. Aqui eu não estou a apostar nada, o Link é sangue novo e o que nós precisamos no movimento em Portugal é de sangue novo.
- A que se deve a opção pela ausência de sampler?
Kronic - A ausência de sampler vem do facto que eu tenho muito pouco tempo para pesquisar discos velhos e até para manipular tecnicamente samples. Até porque eu estudei música e a minha maneira de me exprimir através da música é pegando num instrumento. Não tenho muito essa sensação quando estou a trabalhar com samples, prefiro tocar uma coisa do que tirar de uma música conhecida porque por falta de técnica nunca me consigo safar. Mas tenho duas produções com samples pesados e outra que é mesmo toda uma linha samplada, o som do Kilu. E também há outra coisa, estou um bocado motivado para fazer com que o disco seja vendido noutros países e quero-me proteger contra os direitos de autor, o risco de pessoas a quem eu eventualmente samplei melodias se poderem vir a manifestar e complicar um bocado as coisas.
- Existe portanto a hipótese de editar este trabalho fora de Portugal?
Kronic - Estamos a fazer as coisas de forma a que isso seja possível, trabalhar legalmente com as músicas a nível dos direitos de autor, dos samplers, etc. É preciso despertar a atenção das pessoas dos outros países, mas é uma coisa muito complicada de fazer.
- Fechado o “Projecto Inoxidável II” qual é a tua opinião sobre o resultado final?
Kronic - Is the bomb baby! Para mim é número um, mas o importante é que as pessoas ouçam o disco e, se calhar, fiquem a sentir alguma coisa que não tinham sentido em relação ao outro. Espero bem que isto aconteça e que eu consiga mexer algumas pessoas com as músicas que estão neste álbum. Mas também acho que a nível de sonoridade sou até capaz de surpreender um bocadito.
Estou satisfeito com o resultado final, acho que todas as pessoas que entraram no disco deram o seu melhor. Porque fazer as produções é uma coisa, mas depois, quando os rappers chegam lá em estúdio e começam a cuspir a cena e tu vês a música pronta a tomar uma identidade, é algo muito fixe. Nunca pensei que muitas músicas tivessem o potencial que acabaram por revelar. Músicas como aquela do Bónus, por exemplo, quando eu vejo que o gajo vai lá e dropa assim uma rima que depois todos ficam a conhecer, dá-me confiança para futuras produções e deu-me confiança para gravar o disco, porque foi uma das primeiras músicas que gravámos. Agradeço mesmo a todas as pessoas que participaram no disco.
- Já tens algum vídeo-clip preparado?
Kronic - Tenho. Escolhemos em conjunto com o pessoal da Raska o tema do Lord G (o Italiano), e já fizemos o vídeo-clip. Isto porque, primeiro acho que o Italiano já tem muitos anos de estrada aqui em Portugal e o pessoal já conhece o estilo das suas rimas, e também outra coisa, vamos apostar no facto de ser uma canção cantada em crioulo cabo-verdiano, porque achamos que é um rap nacional tanto como o português. Queremos apostar nessa linguagem de rap porque está muito presente nos subúrbios e quem está dentro do movimento vê que o rap crioulo é cada vez mais importante. O Italiano é uma das pessoas que está na raíz do rap em crioulo feito cá em Portugal e este som é mesmo para dar esse salto em frente.
- Como este CD vai sair pela Raska Records, que é um projecto já de longa data, que tens com o Chico e o Alex, aproveito para perguntar novidades. O que tem feito a Raska?
Kronic - Estamos todos envolvidos em muita coisa, como muita gente sabe. O Selecta Lexo está na King Size já há muitos anos a fazer o trabaho dele, o Chico também está agora com uma nova loja de discos que é a Supafly no Bairro Alto. O Lexo, além de estar envolvido connosco a por som, também tem outra crew que é a Dubadelic Vibrations Soundsystem com a qual fazem muitos festivais e tal. O Chico também toca muito Drum’n’bass e essas coisas.. portanto, neste momento cada um de nós está a seguir o seu caminho. Cada um faz aquilo que quer, se quer criar uma outra crew ou outra cena com outras pessoas pode fazer, mas o ponto base já sabemos qual é, o nome por detrás da cena é sempre a Raska.
Agora novidades, só a nível de festas, mas se calhar haverá uma mixtape muito brevemente. Estamos a pensar em editar algo, mas só mesmo música, só mesmo como DJ’s.
- Mais projectos que tenhas em mente para breve?
Kronic - Projectos novos temos o segundo álbum de TWA, que vamos estar a pré-produzir muito em breve e deve sair no fim da primavera. Tenho também o álbum do Psy-k, que é um dos rappers do crew Crazy Jungle, da Caparica, onde também faz parte o Dino, o Badgilugano, o Falcão e muitos outros. Vai ser um álbum um bocado diferente do que se costuma fazer, porque é um disco rimado em francês e em português, há faixas completamente rimadas em francês, outras com português.
- Em jeito de mensagem final, vês alguns aspectos a melhorar no Hiphop Português?
Kronic - Melhorar não há nada para melhorar, eu acho que está tudo no bom caminho. Se calhar é preciso elevar as coisas um bocado a nível dos concertos, das performances de cada grupo em cima do palco, em relação aos audiovisuais que passam na televisão, em relação à estrutura e organização. Acho que é um dos pontos onde temos de apostar e temos de nos organizar porque é tipo a quinta vertente do rap, se não estás organizado não fazes um cú. Estamos no bom caminho, é preciso continuar e aqueles que estão de fora têm que se afastar.
- Tens alguma coisa a acrescentar?
Kronic - Sim, vocês, Hip Hop Nation e a Skillz têm que estar aí, acho que compreendem bem a cena, ainda bem que vocês estão aqui para levar isto a um nível mais alto. Especialmente para mostrar às outras pessoas da indústria musical portuguesa que temos aqui o nosso movimento e já temos tudo para continuar, isso é muito importante.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |