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Entrevistas
H2T - HipHop TugaBad Spirit (MC) - Outubro/2003

Bad Spirit

Manifesto sem Influência

Marsul parece ser uma palavra chave e, por estranho que pareça, não passa de um ‘corte e costura’ ao termo Margem Sul, local de residência e fruto de inspiração para este MC.
  Oriundo da Guiné veio para a Europa atrás de um sonho que ficou sempre aquém do pretendido, o futebol. Após uma primeira passagem por Espanha, chegou a Portugal já com uma bagagem musical fortemente baseada no Reggae e Hiphop. Foi apenas uma questão de tempo até rodar alguns palcos juntamente com Kussondolola ou General D, o que o conduziu por caminhos que ditaram o nascimento de um novo grupo de Hiphop, os Influência Negra, isto há cerca de dez anos atrás. Infelizmente, esses mesmos caminhos que os uniram, não lhes trouxeram (até hoje) sorte igual para o álbum.
  Contudo, Bad Spirit, em momento de pausa dos Influência Negra, aproveita para avançar com “Odiado e Mal Amado” e denunciar que o Hiphop não tem ainda a influência merecida. Resta o essencial... o manifesto.

- É impossível não reparar no teu nome de MC, Bad Spirit, consideras-te um espirito mau? Porquê um rótulo tão negativo?
  Bad Spirit - Não de maneira alguma. E acho que não é um rótulo negativo, é o meu nome de guerra. Qualquer pessoa quando escolhe um sobrenome ou uma alcunha tenta sempre ser diferente e foi isso que eu fiz, tentei marcar a diferença.

  - Também este álbum, “Odiado e Mal Amado”, tem um titulo que choca à partida. Até é um titulo um pouco ambíguo, refere-se exactamente a quê?
  Bad Spirit - Tem a ver comigo e com o movimento Hiphop. “Odiado e Mal Amado”, neste caso, está a referir-se ao Hiphop. Quer queiramos quer não o Hiphop é odiado e mal amado à partida, e quem acompanha minimamente o movimento sabe bem disso.

- Podes falar-nos daquela imagem que vem no interior da capa do álbum onde apareces frente ao mundo e se destacam Kofi Annan, Nelson Mandela e Amilcar Cabral. É um resumo visual da mensagem que pretendes transmitir com o teu álbum?
  Bad Spirit - Digamos apenas que são as pessoas que eu admiro no mundo da política e com as quais me identifico minimamente. Eu não sei se estou a seguir o caminho deles ou não, mas tento transmitir o que eles transmitem e foi por isso eu meti lá as fotos deles.

- Ao longo de todo o álbum nota-se a preocupação com o continente africano e uma necessidade de alerta para o grave problema com que este se depara, mas também alimentas a esperança de que “o melhor está para vir”. Como dizes: “Achas que ninguém abre os olhos no meio de tanta ganância”?
  Bad Spirit - Não, acho que ninguém vai querer abrir os olhos, embora estejam a ver tudo o que se passa tentam fechar os olhos na mesma. Mesmo os que estão lá a mandar ou a oposição, ninguém está a querer abrir os olhos, ninguém diz a verdade, ninguém revela o que é África, nem ninguém a defende como deve ser.

- Existem principalmente três músicas (“Situação”, “A >” e “kem me dera...”) onde falas de sofrimento, ganância, essencialmente esses problemas de África, mas referes também as situações crise em Jerusalém ou Caxemira. És muito sensível a estes problemas sociais e políticos do mundo?
  Bad Spirit - Sou muito sensível a qualquer confusão, não tem nada a ver com a sociedade. Porque estas coisas que acontecem no Médio Oriente ou em África, sei lá... em toda a parte, não tem nada a ver com o mundo, o Homem é que as implantou. E eu estou realmente sensível aos problemas que acontecem... com as crianças, as mulheres inocentes a sofrer... estou realmente sensível a isso.

- Tens também um tema curioso, por ser todo cantado em espanhol “Todo Hecho”, fala-nos da existência deste tema. Porquê cantar em Espanhol?
  Bad Spirit - Canto em espanhol porque realmente comecei a fazer rimas quando estive em Espanha, em 90 e tal. E só quando vim definitivamente para Portugal, comecei a fazer rimas em português. Esse tema serve para lembrar, tenho uns amigos que ainda vivem em Espanha, começámos a fazer Hiphop juntos, e talvez seja por homenagem a eles.

- Estás a pensar expandir as vendas do álbum para fora de Portugal?
  Bad Spirit - Com o tempo vamos ver até que ponto é que um gajo consegue fazer isso. Mas vou tentar.

- “Odiado e Mal Amado” é um álbum que tem muitas participações a nível de produção e de voz. É um sinal da união e solidariedade num movimento que é pouco divulgado?
  Bad Spirit - Esses convidados todos foi uma maneira de juntar mais o people e transmitir melhor a cena, porque um gajo sozinho não faz nada. E valeu a pena ter juntado esses MC’s todos, produtores e DJ’s, porque o resultado está aí, acho que ficou um álbum engraçado.

- Neste vasto leque de participantes, é injusto destacar este ou aquele... Mas não nos queres deixar uma palavra sobre eles? Falar talvez sobre “os mais inesperados”, Family por exemplo.
  Bad Spirit - Foram todos fantásticos. Não quero falar assim de ninguém em especial, gostei da participação de todos, do ambiente, da convivência que tivemos em estúdio. Acho que foi um trabalho fixe e Big Up para eles todos.
  Os Family, não aparecem muito em público mas estão sempre a trabalhar. Eu sei porque estou sempre em contacto com eles. Não aparecem nas festas, concertos underground e assim, mas estão sempre a bombar... eles são uns “puro underground shit”.

- Também tens a participação do Nigga War, teu aliado nos Influência Negra e isto leva-me a perguntar pelo grupo. Que é feito dos Influência Negra?
  Bad Spirit -Influência Negra anda aí, em stand by, mas a preparar umas cenas. O Nigga War há dois anos que está a viver em Londres e daí a nossa espera.. Ele disse que vinha no Verão para gravarmos o álbum. Não sei se vem ou não, mas se vier vamos arrancar. Influência Negra não acabou.

- Algo estranho, mas que se tem tornado comum no Hiphop é os MC’s lançarem álbum a solo antes de o fazerem em grupo. Porque é que isto aconteceu no teu caso e porque é que achas que tem sido essa a escolha de muitos MC’s?
  Bad Spirit - Falando no caso específico dos Influência Negra, gravei esse álbum a solo por causa da viagem do Nigga War. Estávamos a pensar lançar o nosso álbum (Influência Negra), mas entretanto apareceu-lhe uma “fezada” para ir trabalhar fora e bazou. Então aproveitei este espaço de tempo para gravar o meu álbum, um projecto que tinha em mente. Um dia tinha que fazer um álbum a solo! Imagina o que era eu ter ficado à espera dele até agora... não tinha álbum gravado! Este é o meu caso, no caso de outros grupos não sei, talvez tenham motivos como este, sei lá.

- Podemos esperar notícias de Influência Negra para breve?
  Bad Spirit - Podem. Só estou mesmo à espera do meu Nigga War. Ele em principio vem até ao fim deste mês. Se assim for vamos entrar em estúdio, começar a gravar a cena. Se não vier estudamos outras hipóteses, ou vou lá a London e gravamos a cena ou... whatever.

- No tema “Baza Niggaz” e no “Props” fazes um género de agradecimento e incentivo às pessoas que ajudam a construir este movimento. O Biggy (GMS) diz algo que acho ser bastante importante: “Não precisas de ser necessariamente DJ, Bboy, Writer ou MC” e dá referências a pessoas que estão sempre por perto. O público não praticante é uma das coisas que faltam para o movimento ser valorizado?
  Bad Spirit - Sim, isso é verdade. Falta porque geralmente quando vais a um concerto de Hiphop, o público são os outros MC’s, os amigos do pessoal que vai actuar ou sei lá, o people do movimento. Não vejo assim uma curiosidade tipo “yah...vamos lá ver um concerto!” Por isso é que continuo a dizer, acho que “Odiado e Mal Amado” está mesmo bem para título, porque muita gente nem sabe nem tenta ir saber o que é o Hiphop e dizem “Não, não vou!”. Por isso, de uma maneira ou outra, somos “Odiados e mal amados”, descriminados logo à partida.

- Desde o projecto, à escrita, gravação e lançamento deste álbum houve um intervalo muito grande? Tiveste dificuldades?
  Bad Spirit - Sim, houve. Escrever, foi naquela, um gajo faz rimas em qualquer momento, entre-aspas claro. Mas o que me cansou mais foi reunir o people todo, porque trabalhei com vários produtores: eu tinha que ir para Chelas ter com o Sam, depois para Queluz ter com o Cap, para Cruz Quebrada ter com o Cruzfader, Didi em Rio de Mouro. Foi assim uma cena muito heavy, tinha que estar a correr de um lado para outro. Quanto às participações, também deu um bocado de trabalho, havia people que estava a estudar, outros a trabalhar, não foi fácil. Em Outubro comecei a gravar em estúdio, em Dezembro já estava tudo gravado, só faltava dar aqueles toques. Também fiquei à espera do Nigga War que estava a chegar e queria que ele desse pelo menos um toque na cena.

- Como viste o aparecimento da editora Kombate no movimento? Veio abrir algumas portas?
  Bad Spirit - Abrir as portas não digo, veio foi ajudar mais o people ou dar mais ânimo ao pessoal para trabalhar. Porque as portas não somos nós que temos que as abrir. Nos tentamos bater às portas e se calhar a Kombate veio-nos ajudar a chegar a portas nas quais não batíamos antes. Agora vamos ver é se as portas abrem, mas todos juntos é mais fácil.

- Vais haver vídeo-clip? Fala-nos um pouco sobre o tema eleito.
  Bad Spirit - Vai haver Clip. Tenho dois temas em mente, mas vou avançar com aquele que o people todo está a pedir para fazer. É o “Kara Podre Remix”, um tema que tentei fazer mais para juntar o people, fazermos tipo festa, entre nós, a nossa cena, em família. Chamei os Family, o Wadada, o Mugsy, pessoal que acho que tem a ver com o som. A produção original é do Didi, pedi-lhe para meter um baixo assim tipo reggae, para fazer uma cena diferente, porque eu também tenho umas facetas reggae. Mais tarde vou fazer um álbum de reggae... (risos)

- E como surge essa tua faceta reggae que também espreita neste álbum..
  Bad Spirit - Eu sempre curti reggae e Hiphop. Mesmo no inicio, quando comecei a curtir Hiphop com o meu people, nunca dispensava reggae, e sempre que havia concertos de reggae ou Hiphop, eu estava lá. Entretanto, quando voltei para Portugal, conheci o Janelo dos Kussondulola, nós morávamos no mesmo bairro e inclusivamente no mesmo cúbico e eu ia com a banda dele (os Kussondulola) para todo o lado. Na altura, por volta de 92, havia caixas de ritmo ky10 e não havia material para fazer uma banda de Hiphop, haviam os grupos que entraram no “Rapública” e poucos mais. Eu também andava aí só que não tinha grupo. Então, juntei-me aos Kussondulola, acompanhava-os a concertos, entrava numa party e dava as minhas dicas, até que um dia decidiram formar uma banda de sound system, os Fankambareggae, e com essa banda girámos a tuga toda. Hoje ainda continuo a fazer umas cenas com os Kussondulola. E, como disse, estou a pensar um dia fazer um álbum só de reggae, dance-hall...

- Já que frisámos um pouco do teu passado, faço-te uma pergunta que até deveria vir no inicio. Como nasceram os Influência Negra?
  Bad Spirit - Isso foi quando eu andava com o General D a dar alguns concertos ao vivo, e andava farto de juntar-me assim a people com o qual só ia fazer umas participações, queria formar uma banda minha. Falei com o Double V, “Double, quero juntar-me a alguém, não conheces assim ninguém aqui do movimento que esteja interessado?” e ele disse “olha, há um people na Amadora, vê lá se falas com eles...” e deu-me o contacto do MCA, liguei-lhe, combinámos, fui à Amadora, conheci também o Vitony e, juntos, formámos os Influência Negra. Mais tarde, o MCA desistiu e fui falar com o Nigga War, conhecia-o lá da minha zona, e ele entrou no grupo. A partir daí nunca mais parámos, fomos dando concertos por aí fora até que em 97 apareceu uma oportunidade, aceitámos participar no “Sons de todas as cores”, uma colectânea onde entrou também o Sam, Xutos e Pontapés, Sérgio Godinho, montes de bandas. E isso trouxe-nos uma “fezada”, que não é “fezada” porque ia-nos fazer desaparecer. Apareceu uma editora a querer que nós fossemos gravar um álbum, assinássemos um contrato... só que pretendiam uma cena tipo boys band, que cantássemos por cima de instrumentais que nem sabíamos quem é que produziu e não sei que mais. E nós não aceitámos claro, e continuamos aí até hoje... ainda estamos aí.

- Do passado ao presente, e em jeito de mensagem final, qual é a tua opinião sobre a actualidade do Hiphop Nacional?
  Bad Spirit - Está fat, está fat, a cena está fixe, está a andar bem. É bom que continue assim no mesmo caminho, que o people não se venda, porque o importante é isso e isso depende de nós e de mais ninguém. A nossa manutenção depende de nós, se começamos a falhar não nos vamos manter. Temos é que continuar reais, a bombar, fazer a cena como deve ser. Porque, quando começa a entrar paca, o people começa à toa a andar atrás dela e estão-se a cagar para a cena, o meu medo é esse. É preciso que haja paca para manter a cena, mas também não vamos correr atrás dela. Se vamos atrás da paca temos que ir com a nossa cena ao lado, para não a deixar para trás e bazar só com a paca. Isso é perigoso, agora há muitos abutres mas tudo depende de nós.

Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation

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