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- Qual foi o teu primeiro contacto com o Hip-Hop e como te começaste a interessar por este movimento?
Kosmikilla - Comecei-me a interessar pelo hip-hop, por volta de 95/96, uma beca antes de ter saido o “Rapública”, quando apareceu no meu bairro o Chullage, o Éda... já havia bastantes grupos na margem sul. Eu comecei a ouvir aquele tipo de som, identifiquei-me com ele e comecei a escrever umas cenas.
- Há quanto tempo és MC? Já tiveste algum grupo?
Kosmikilla - Já sou MC quase há dez anos. Já tive um grupo que se chamava “Combination”. Era eu, o Knowledge One, o Kronic e mais um gajo que mora no meu bairro que é o Dui. O grupo acabou em finais de 97 e a partir daí comecei a trabalhar a solo, mas também tenho cenas com a minha crew que são os Red Eyes.
- Pegando nos Red Eyes Gang, explica-nos um pouco o espirito dessa crew. O que são, quem são e o que fazem?
Kosmikilla - Red Eyes é uma crew que reúne pessoal do mesmo bairro. Cada um faz as suas cenas individuais e, de vez em quando, juntamo-nos todos e fazemos as nossas cenas juntos, tentamo-nos ajudar uns aos outros. Resumindo é isso Red Eyes são tipo uma crew de MC’s que são todos do mesmo bairro, fazem cenas individuais e ao mesmo tempo fazemos cenas juntos
- Fala-nos um pouco da mixtape que lançaram este ano, a “RealMente 2003”.
Kosmikilla - Quem fez a “RealMente 2003” foi um puto do meu bairro que é o Don Nuno, que também fez umas produções no meu álbum. O objectivo foi tentar lançar uns putos do meu bairro, mostrar mais do colectivo Red Eyes, o pessoal todo mesmo. Fazer algo mais alargado onde cada um pôs o seu feeling.
- Falando agora do “Polítika de Rua”, tal como dizes na introdução, acenta num discurso onde abordas tudo aquilo que vês e que está mal. É de facto assim? Nenhum dos temas é ficção ou exagero com o propósito de sensibilizar?
Kosmikilla - Eu tento ser o mais claro e directo possível, mas como qualquer MC tento usar as minhas metáforas. Aquilo que eu vejo é aquilo que eu tento retratar no meu álbum: aquilo que eu sinto, que eu já vivi, tento mostrar o meu “eu”. Fazer a cena o mais simples e, ao mesmo templo, o mais completa possível.
- É um álbum que nos trás muitos retratos de uma realidade social mais desfavorecida e, se calhar, propositadamente encoberta. Mas as tuas músicas são uma constante denúncia. Achas que a maioria das pessoas estão muito distantes dessa realidade que nos trazes?
Kosmikilla - A maioria do pessoal está muito longe mesmo, pensam: “yah, esses gajos falam do bairro, Mc’s mandam grande chacha... Os niggas são gangsters!”, Népia. Um gajo que vive lá é que sabe, porque eu tento retratar aquilo que vivo no dia-a-dia, as cenas que eu vi em directo. Mesmo que não tenha visto, eu sei que se passaram com X gajos. Tento retratar as cenas que eu vivo e que os meus niggas vivem. Muita gente pensa que um gajo exagera mas não, quem vive lá sabe que aquilo que digo é verdade.
- Quando escreves, quem é que imaginas que vai ouvir as tuas rimas? Quem gostarias que as ouvisse?
Kosmikilla - Tento passar a minha mensagem para toda a gente, quem tiver apto a ouvir que ouça. Quando escrevo faço-o mesmo para toda a gente, seja branco, preto, cigano, rico, pobre...é para toda a gente. Eu acho que o pessoal do bairro recebe mais a mensagem porque eu retrato um pouco das suas vidas, é a cena que eu vivo, num bairro. Por isso o pessoal do bairro deve captar mais a mensagem, mas não quer dizer que seja exclusivamente para eles.
- Ao longo de todo o álbum fazes referência à autoridade e tens mesmo uma música em que dizes eles “tentam, mas não nos comandam”. Este confronto Política da autoridade Vs “Polítika de Rua” há-de ser eterno?
Kosmikilla - Enquanto houver injustiças, houver abuso da autoridade, coisas com as quais eu não concorde eu hei-de lutar. Se não for a partir do Rap há-de ser de outra maneira. Mas, acho, que toda a pessoa que vê uma cena que está mal deve tentar lutar para a melhorar. E toda a gente sabe que todos os dias há abuso de autoridade na rua.
Por exemplo a cena que aconteceu ao Shuah na Bela-Vista, ou a cena que aconteceu àquele gajo que foi morto na Buraca; Essas cenas não acontecem só com eles, acontecem diariamente e são camufladas. É isso que eu tento mostrar.
Por exemplo: eles vêm três gajos sentados no bairro a conversar e já é um agrupamento, “já vão fazer um assalto”, quando só estamos a conviver uns com os outros; Muito pessoal vai parar à esquadra e leva porrada por certas cenas que não fez; A bófia chega no bairro e é logo “Vai tudo fora daqui”... É essas cenas contra as quais um gajo tenta lutar, mostrar que nem tudo o que se vê na televisão é verdade. Fazem por dar sempre a razão aos policias, mas eles nem sempre a têm, muitas vezes existe abuso de autoridade.
- É impossível não destacar o tema “Não lhes deixa escolher” com a participação da Geny (Lweji), desde um instrumental que está bastante diferente (produção de M.A.C.) à maneira como a mensagem é transmitida. Conta-nos a história desta música.
Kosmikilla - Nessa música mostro dois trajectos: Ou passas o resto da vida a trabalhar oito horas por dia, a ser explorado, pagar impostos, ser roubado e assim; Ou pertences a esse pessoal que se orienta nos businesses a fazer fezadas. É o que esta música retrata, o sistema não nos deixa escolher. Dá-nos duas hipóteses: ou és um neo-escravo ou então és obrigado a orientar-te por outros meios.
Quanto à participação da Geny neste som, eu já a conheço há um bom tempo e sempre curti muito a voz dela. Mal a conheci disse-lhe “Olha tenho que fazer um som contigo” (ainda antes de ter saído a cena dos Guardiões do Movimento Sagrado). E, tal como tinha prometido, ela entrou no meu álbum.
- A faixa “Amor a sério” foge um pouco ao título, ritmo e mensagem deste CD.
Kosmikilla - A mensagem que eu estou a transmitir nessa música é que, no fundo, todo o homem gostava de ter aquela dama que está sempre lá para te ajudar. Eu retrato aquela dama que gostava de ter. Uma cena simples. A ideia também foi fugir um bocadinho e fazer uma cena mais leve.
- Essa é uma canção de amor ao estilo Kosmikilla?
Kosmikilla - (risos) Acho que sim, é mais ou menos isso. Foi um feeling, um flash, uma cena que escrevi, um sentimento que passei para o papel, gostei da letra e pus no meu álbum.
- Fala-nos de quem ajudou a construir esta música.
Kosmikilla - A dama que entrou na música é do meu bairro, chama-se Isabel. Como queria por uma cena cantada convidei o Mr Zed, que trabalha comigo no estúdio, e também outro gajo do meu bairro, o Simplis, para as vozes; Para não serem sempre os mesmos gajos a fazerem os refrões.
- Fala-nos dos outros MC’s que participam neste álbum.
Kosmikilla - Tirando a Geny... é tudo Red Eyes. Resumindo é isso.
- A nível de produções.. Conta-nos quem participa e porque escolheste esses nomes.
Kosmikilla - O álbum tem produtores bem diferentes para não serem sempre os mesmos gajos a produzir. Mas, quem produz é o Sas, que é o meu DJ. Eu também produzi dois temas, um com a ajuda do Sas e com o gajo do meu estúdio que é o Tomas e outro, onde entra o pessoal todo da Arrentela, com a ajuda do Chullage. M.A.C. assinou quatro produções, tenho lá um beat do Clocker que também fazia parte do meu grupo, outro do Smplis, e outro do Sam The Kid porque eu sempre curti os beats dele e queria um tema nessa onda.
Resumindo, tentei dar oportunidade aos muitos bons produtores que conheço na margem sul.
- O primeiro Single vai ser o “Polítika de Rua”. Fala-nos um pouco deste tema e do vídeo-clip.
Kosmikilla - O “Polítika de Rua” foi dos primeiros sons que eu escrevi a solo. É uma cena de revolta, onde tento mostrar que embora a polícia nos bata e o sistema nos tente cair em cima, eles não nos comandam. Fisicamente talvez, mas psicologicamente nunca: podem-nos prender mas prendem o nosso corpo, podem-nos bater mas batem no nosso corpo... A mente está sempre lá, a mente não muda. É isso que eu tento retratar na minha música. A bófia e o sistema podem tentar censurar-nos de várias maneiras, mas um gajo há-de sempre resistir. Tal como eu digo: “Eles tentam, mas não nos comandam!”
O vídeo-clip resume-se a um trajecto que eu faço quase todos os dias no meu bairro: eu a sair de casa, vou ter com uma dama e ela entrança-me o cabelo, depois está assim uma roda e a gente começa a improvisar, vou ter com os meus niggas, beber umas cervejas e conversar, abanco uma beca num muro, e o clip acaba na associação (um sítio onde um gajo pára todos os dias, e ensaiamos) com o Sas a dar nos pratos.
É uma cena muito simples mas completa, um trajecto que faço todos os dias.
- Há quanto tempo vens a preparar este álbum?
Kosmikilla - Este álbum já anda a ser preparado há muito tempo. A música que saiu na compilação “Primeiro Kombate”, o “Desgraça por perto” foi escrita em 98. Desde que acabou o meu grupo, Combination, que eu tenho vindo a escrever. Há cerca de dois anos para cá comecei a juntar as minhas letras, a renová-las, comecei a arranjar os beats e foi assim que eu fiz o meu álbum. É fruto de vários anos de trabalho, não foi uma cena pensada à pressão, foi uma cena muito bem estipulada.
- Como vês o recente aparecimento de editoras especialmente dedicadas ao Hip-Hop? Fala-nos especialmente da Kombate, pela qual vai sair o teu álbum.
Kosmikilla - A Kombate é a junção de várias editoras e a ideia é uns ajudarem os outros. Por exemplo, agora tenho a minha editora e do Chullage que é a Konstrue.Som, pela qual vou editar o meu álbum e quero vendê-lo, imaginemos, na fnac. Levando o meu álbum estou a levar o álbum de todos os artistas da Kombate que já lançaram. A ideia é essa.
A Kombate é uma cena muito positiva porque aposta em grupos que andam aí mais escondidos, e as editoras não se devem só concentrar nos gajos que têm nome, porque há muita gente com valor que está escondida nos bairros. Acho que a cena da Kombate é muito phat mesmo, porque a ideia é tentar ajudar aqueles gajos que nunca são ajudados.
- Na introdução ouve-se uma pequena entrevista onde dizes que “Certas pessoas querem bloquear o acesso a outros grupos”, queres explicar melhor esta afirmação?
Kosmikilla - O que eu quis dizer com isso é que há aí certas editoras que vão fazer certas entrevistas nos jornais a dizer “Nós é que somos os Bosses, nós é que temos o Hip-hop”.
Foda-se, eles há cerca de sete ou oito anos não estavam cá.
O hip-hop não é aquilo que eles mostram, porque o hip-hop é uma cena de bairro e eles vão fazer entrevistas nos jornais a dizer “O hip-hop agora é isto, o hip-hop agora é aquilo”. Não, o hip-hop é uma cena que não é de ninguém, o hip-hop é de toda a gente e certos gajos querem fazer o hip-hop ser uma cena só deles. É por isso que eu digo que há certos grupos a querer bloquear os acessos. Esses grupos sabem muito bem de quem eu estou a falar, não preciso estar a falar nomes, mas quando tiver que falar... falo.
Vão às revistas e parece que mostram sempre os mesmos gajos, falam: “Isto é que é hip-hop, o outro é que é o principal”. O hip-hop não é isso porque com certeza há gajos que nunca deram um concerto mas são grandes MC’s, não tiveram foi a oportunidade deles. Não é por um gajo editar um álbum ou dois e estar na editora X que é o melhor MC. A contrariar essa ideia, no meu álbum aposto muito em pessoal desconhecido para mostrar que o hip-hop não são os gajos. Para fazer um bom álbum de hip-hop não é preciso por nomes conhecidos apenas para render, mas sim o pessoal que se deve ajudar, porque curtes a atitude, as letras... a dica do hip-hop é essa.
Por exemplo: O Chullage tem a editora dele que é a Konstrue.Som, não é por eu ser artista dele que ele vai fazer uma entrevista e dizer: “Nã... O nigga é o Kosmikilla!! Ele é que é o nigga, meu; os outros são todos merda!”. Não, cada editora deve promover a sua cena, mas não deve tentar bloquear os outros. Há coisas que não devem ser ditas, ninguém é melhor que ninguém, porque cada um tem o seu estilo, cada um faz o seu trabalho. A dica é esta.
- Como seria para ti o evento ideal dentro do Hip-Hop a realizar-se em Portugal?
Kosmikilla - O evento o ideal era fazer uma grande boda, mas convidar todo o tipo de MC’s, sejam do gueto, do norte, do sul... olhar para o pessoal por aquilo que ele vale e não pelo nome ou por ser “sócio do outro”. Hoje em dia quando há um grande evento, convidam sempre os mesmos gajos e os niggas deles.
Eu, se agora fizesse um grande evento, podia convidar um ou dois dos meus niggas, mas ia convidá-los por aquilo que eles valem e por terem nível para isso. Mas podia ouvir as cenas de um gajo que não conheço e, desde que curtisse o trabalho e sentisse a mensagem dele, eu convidava o nigga. Em todos os grandes eventos as pessoas deviam ser convidadas por aquilo que são e valem.
- Achas isso viável neste momento?
Kosmikilla - Eu acho isso viável porque se forem sempre os mesmos gajos a fazer os concertos isto vai-se tornar um monopólio muito fechado e daqui a uns anos isso nunca mais se vai quebrar. Cinco, seis, sete, oito gajos vão-se orientar e o resto está tudo na merda.
Todos os gajos que são bons e lutarem por isso têm que ser ouvidos, lançar as cenas deles.
Porque, em Portugal existem vários estilos diferentes. Cada um faz a sua cena, uns são melhor do que os outros, mas cada um respeita o trabalho do outro. Porque, por exemplo, quem lança um álbum é que sabe o que sofreu para juntar o dinheiro para o lançar, ou quanto tempo perdeu a escrever, ou os dias que perdeu a produzir. Todos devem ter oportunidade para mostrar aquilo que valem.
- O que podemos esperar do Kosmikilla nos próximos tempos? Já tens projectos pós-álbum.
Kosmikilla - Não tenho nada estipulado.
- Alguma denúncia relativa ao movimento nacional que queiras deixar especialmente aos nossos leitores?
Kosmikilla - Cada um que faça a sua cena e não tentem bloquear os acessos aos outros grupos. Deixem os niggas subirem, evoluírem e mostrarem o seu trabalho.
Portugal não é muito grande e ao mesmo tempo não é pequeno, porque existem MC’s de norte a sul e cada um tem o seu estilo, por isso, não tentem só mostrar que “ O hip-hop faz-se é aqui...” . Não, o hip-hop faz-se em todo o sitio e o público é que vai mostrar o que cada MC vale. A minha dica é essa.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |