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- Queres desvendar como nasceu o teu interesse pelo hip-hop? Pelo que sei há aí uma história curiosa ...
D-Mars - Foi quando estava na Croácia. Eu tinha cerca de treze anos e o meu vizinho de baixo ouvia muitas cenas old school, tipo Fat Boys, Salt-N-Pepa, cenas assim, e nós lá tínhamos um aquecimento central que nos permitia falar uns com os outros, através dos radiadores. Aquilo dava para falar através dos canos, assim como também ouvíamos as brigas dos vizinhos, entre marido e mulher e não sei quê, e eu apanhei... comecei a ouvir as batidas das cenas que o meu vizinho ouvia, e foi assim que despertou o meu interesse pelo hip-hop. Então eu ia lá abaixo, ele dava-me uma cassete e eu depois ficava a curtir em casa. A partir dai, eu próprio tentei descobrir outras cenas, comprei as minhas primeiras cassetes piratas num mercado que havia lá. A primeira cena que comprei foi Public Enemy, apanhei logo a cena dura e pura, que me atraiu imediatamente
- Acho que a partir dos Micro, o teu percurso é mais ou menos conhecido. Mas podes contar o teu trajecto ate aí?
D-Mars - Eu sou um sobrevivente da velha escola portuguesa, que é a geração do “Rapública”, tenho a minha banda antiga, os Zona Dread, com os quais vivi toda essa fase. Depois, já com os Micro, vi a cena cair para o underground, e naquela altura, por volta de 96/ 97, fomos nós mais alguns grupos que segurámos a cena. Éramos muito poucos nessa altura, o hip-hop praticamente vivia à base das pessoas do próprio movimento, não havia mais... tirando o programa na radio, o “Repto”, não havia mais nada.
- Tens já um vasto currículo ao serviço do hip-hop, já fizeste variadíssimas coisas. Faltava um álbum a solo... era uma ambição de longa data?
D-Mars - Não, não era uma ambição, foi mesmo uma necessidade. Quando se está num grupo, às vezes é preciso chegar a meio termo, mas no meu caso nunca foi bem assim porque os Micro continuam a ser e sempre serão a cena com a qual eu me identifico mais. Isto foi uma necessidade mais artística de fazer uma cena diferente, provar a mim mesmo que posso fazer este tipo de som, que está presente no álbum, em português e para Portugal. Foi uma necessidade, porque eu não sou só um MC, não sou só um produtor, sou um artista também, tenho a necessidade de me exprimir artisticamente, fazer outro tipo de cenas. Já são tantos anos a fazer isto que, simplesmente, continuar a criar como fazia antigamente sempre o tempo todo já não fazia sentido. Foi uma necessidade, não foi por ambição.
- Logo na primeira música revelas um pouco as tuas origens. És croata e, neste álbum é notória uma grande mistura de culturas. É inevitável?
D-Mars - Sim, o álbum tem por exemplo um som que é o “Isto é perigo” que tem samples de guitarra portuguesa com cenas dos Balcãs (cenas búlgaras), com uma batida ou um ritmo mais africano. O próprio som “Filho da Selva” também tem uma cena assim afro mas que eu interpreto da minha própria maneira. O sample do “Interlúdio” também tem um toque croata. Existe assim um pouco essa mistura.
- “Filho da Selva” é o nome do álbum e também de um tema em conjunto com o Ridículo, queres desvendar um bocado esta expressão ou este titulo?
D-Mars - Selva é principalmente a cidade, é o que todos dizem, que a cidade é uma selva. Neste caso penso que o hip-hop é um filho dessa selva, e então eu também sou um filho dessa selva porque sou um filho do hip-hop aqui em Portugal, junto com os meus irmãos todos, o pessoal todo do movimento. Tem a ver também com os ritmos da cidade, acho que este álbum se identifica com o ritmo urbano, é um álbum mais marcado pela batida do que propriamente pela mensagem das rimas como fazíamos nos Micro.
- Queres aclarar a ideia de perigo quando dizes “Isto é Perigo” e te referes ao hip-hop? Nada de mal entendidos.
D-Mars - É perigo sempre que está uma batida dentro da área e eu estou com pica. É uma metáfora, não é mais nada, é apenas uma metáfora. É tipo, como dizem os americanos: “Danger”!
- Quanto a participações, queres-nos falar dos teus convidados neste álbum?
D-Mars - Há duas participações importantes, a da Carla e a do Francisco Rebelo. A Carla é a miúda que deu um pouco da alma ao disco em três temas: o single que é o “Sente o Calor”, o tema “Entre o Amor e o Ódio” e o tema “Para toda a minha gente”. O Francisco Rebelo, que é o baixista dos Cool Hipnoise e dos Space Boys, também deu uma certa alma ao disco mas na parte instrumental. Co-produzimos um tema que é o “Esta Noite”, ele tocou o baixo no teclado, tocou o baixo no “Isto é Perigo”. É uma pessoa que é profissional da música mas que consegue interpretar muito bem o tipo de linguagem do hip-hop, consegue adequar o seu baixo àquilo. E resultou muito bem, pelo menos é o que eu acho.
- E o Ridículo, o Fuse, o Aprendiz, o Melo D...
D-Mars - O Fuse… naquele tema achei que ia ficar lindo e então dei-lhe um toque. O Aprendiz foi a mesma cena, foi por causa da voz dele. O Ridículo estava no estúdio quando eu estava a gravar aquilo e então eu disse-lhe “já agora, dá-lhe aí” e o gajo também caiu bem em cima da música. O Melo… nós já não fazíamos nada com o Melo desde 94, porque nessa altura eu fazia tudo com o Melo, tenho aí umas cassetes de vídeo que são horas e horas nós a “freestylar” em frente da câmara. E também quis fazer com o Melo uma cena que nunca ninguém fez, que foi, em vez de o chamar para cantar (coisa que já está completamente usada), resolvi desafiá-lo para dar um tom mais Ragga, porque eu sei que ele sempre teve essa outra face. E foi lindo, escrevemos as letras logo ali no estúdio... com este pessoal eu tenho esse tipo de ligação, eles conseguem perceber logo o que eu quero. E as pessoas que convidei para este álbum foram mesmo aquelas que eu sabia que iam perceber o que eu queria para ficar bom.
- Quanto às produções deste álbum, são todas tuas?
D-Mars - São todas minhas tirando o “Mete a Batida” que é do Iman Iran.
- Fala-nos um pouco do primeiro single, o “Sente o Calor”.
D-Mars - O título já diz tudo. E é uma boa junção entre a minha maneira de rimar e a maneira do Melo fazer o Ragga e depois tem a Carla no refrão e a cena ficou quase perfeita, a sintonia entre nós os três: eu com uma voz mais tipo ruff, estilo “estou-me a cagar”, o Melo já a trazer aquela cena mais melódica e a Carla ainda mais melódica. É um tema que metes a bombar e já estás a abanar a carola.
- Certamente, hoje tens ao teu dispor meios que há alguns anos atrás não imaginavas. O teu interesse pela produção levou-te a explorar novas técnicas neste álbum?
D-Mars - Sim, completamente. Este álbum tem muitos temas tocados, eu mudei muito neste álbum. Vem acompanhado por um outro de bónus que é tipo uma prenda, do género “compras um e levas dois” e esse álbum extra é imediatamente anterior a este. Notas logo a grande diferença de produção, o CD bónus é à base de samples, porque eu continuo a usar samples...isto é hip-hop. Neste álbum eu uso sintetizadores e cenas assim.
Mas não é os meios, porque os meios não são assim muito diferentes, é mais o que fazes com os meios tentas levar a cena para outro lado, não vive muito à base de samples, isto é, vive à base de samples mas cortados e tocados à minha maneira. Essa é a grande diferença e há instrumentais lá bem diferentes uns dos outros mas fui eu que os fiz todos.
- Depois de escutar o teu CD (principalmente a nível instrumental) e voltando a focar a mistura de culturas, surge uma curiosidade: onde vais pesquisar aqueles sons? A tua “biblioteca” musical deve ser muito variada.
D-Mars - É, a minha biblioteca musical é variada porque faço por isso, é uma obsessão minha comprar vinil. Acho que todos os produtores de hip-hop deviam ter essa cena e acho que gajos tipo o Sam de certeza que têm isso porque senão não podes fazer beats. Na produção do hip-hop com samples existe também um bocado a cena da sorte, tu podes encontrar aquele sampler, porque tens a sorte, porque foste procurar essa sorte e encontras aquele sampler perfeito e seja lá o que fizeres com ele, resulta. Muitas vezes acontece isso e quanto mais tiveres por onde escolher, quanto mais a cena for variada, melhor. Neste CD tenho um tema que é o “Veterano” que tem uma cena de saxofone do Luís Morais que é um saxofonista Cabo-Verdiano, tenho cenas de funk mas que estão disfarçadas, tenho todo o tipo de música.
- Para finalizar sobre o CD, consegues transformar estas 14 faixas numa frase que o descreva?
D-Mars - É o novo som da Microlândia, é a Microlândia 2003
- E para quem ainda não ouviu, descreve-o em poucas palavras.
D-Mars - Acho que é um álbum que vocês não vão estar à espera de ouvir, porque quem conhece o que eu fiz antes de certeza que não está à espera de ouvir isto.
- Como, para além de MC, Produtor, elemento dos Micro e da Loop Recordings, és um bom conhecedor do hip-hop que se faz por todo Portugal. Qual a análise que fazes à actual saúde deste nosso movimento?
D-Mars - Penso que está um bocado parado demais. Acho que já para aí há meio ano que não acontece muita cena, apenas saem uns álbuns e tal... Foi importante os De La Soul terem vindo cá, foi importante o hip-hop no Coliseu e isso tudo, mas depois não teve efeito nenhum, e eu estava à espera de ver isso acontecer de novo nestes festivais de verão. Isso espanta-me um pouco porque acho que o pessoal deu a prova no Coliseu.
- Os Public Enemy vieram ao Vilar de Mouros...
D-Mars - Está bem, mas eu não me interessam estrangeiros, interessa-me o nosso pessoal, e acho que o nosso pessoal já deu provas suficientes em como merece. Naquela noite no Coliseu, eu estava lá e vi, estavam lá também os Mundo Complexo por exemplo, e acho que demos prova de que somos profissionais a esse ponto. Acho que falta em Portugal um bom circuito ao vivo, profissional, porque só assim é que a música pode vender mais. O mercado não se está a expandir, continua a mesma merda, continuamos a vender aqueles discos já há alguns anos, são sempre os mesmos números, portanto, alguma coisa não está a funcionar. E eu acho que é isso, acho que é a cena ao vivo.
- És da opinião que o hip-hop em Portugal sofre um pouco de falta de união? Quer em guerras norte sul, quer em guerrilhas locais ou mesmo pessoais. Num dos teus temas falas mesmo em “invejas”.
D-Mars - Sim, mas as invejas não têm a ver com o hip-hop, tem a ver com qualquer pessoa que segue o seu sonho e trabalha por ele, que é o que eu faço todos os dias. Mais cedo ou mais tarde vais encontrar alguém que tenha inveja. Depois, a maneira de lidares com a situação, já é contigo.
Acho que também não é preciso haver união dentro do hip-hop, porque é que é necessário existir união? Acho que tem que existir acima de tudo é respeito. É eu respeitar a tua cena, que tu fazes diferente da minha, mas que eu respeito. Somos todos humanos, eu não tenho que me dar bem com toda a gente, ninguém me pode obrigar a dar-me bem com toda a gente, agora, eu posso respeitar toda a gente, mas só faço isso se for também respeitado. Há uma cena engraçada no hip-hop: toda a gente pensa que o hip-hop que faz é o verdadeiro. Se analisares bem é verdade, todos têm pelo menos uma rima a dizer que o hip-hop que fazem é que é o verdadeiro... só que o pessoal não compreende que o hip-hop vive muito da auto-afirmação e é preciso não confundir as cenas. A auto-afirmação também é uma maneira de o MC se exprimir, é apenas isso, por eu dizer que sou o melhor MC do mundo não quer dizer que o seja realmente, mas tenho a necessidade de te dizer isso só para te chocar. E às vezes o pessoal não compreende que não é apenas o que está na rima que interessa.
Para quem está de fora somos todos iguais, fazemos todos parte da mesmo família, mas não dá para trabalharmos todos juntos porque somos muitos diferentes uns dos outros, o que é uma cena positiva. Só em Lisboa existem tantos grupos diferentes, tantos MC’s diferentes, que torna o movimento mais rico. No Porto não diria que acontece a mesma cena. Mas, se calhar, se ligares o Porto e Lisboa a variedade é ainda maior, e se fores comparar com países tipo Alemanha vês que isso não acontece, não acontece essa “salada” toda.
- Projectos? Deves ter mais de mil...
D-Mars - Tenho muitos projectos. Este álbum foi uma espécie de adeus àquela forma de fazer hip-hop que eu tinha antes. Não artisticamente, não quer dizer que agora só vou fazer cenas mais bounce, mas a maneira mais freestyle de fazer as cenas. Agora penso em canções, não penso em músicas de rap com uma rima e tal, são canções. E neste álbum tu vês que as músicas têm todas uma estrutura de canção, têm oito linhas de rimas, quatro linhas de refrão, oito linhas de rima, quatro linhas de refrão... claro que existem variações, aquele break, ou uma outra cena.
Se calhar num beat igual ao que fiz o ano passado para o álbum dos Micro, por exemplo, hoje iria acrescentar mais alguma cena, trabalhá-lo um pouco melhor, vou pensar mais no flow. Uma cena que nunca fiz antes e que fiz neste álbum foi escrever depois de ter os beats, porque antigamente escrevíamos e só depois tínhamos os beats. Agora, este álbum foi todo escrito para o beat. Todos os projectos que vou ter no futuro têm mais a ver com isso. Estou a pensar em fazer um álbum de instrumentais, produzir aí umas cenas do Aprendiz que acho ter muita cena para dar, umas cenas de Micro um bocado “top secret” e mais uns projectos aí para o pessoal ouvir cenas de ragga e dance hall.
- O hip-hop vai fazer sempre parte da tua vida? Como te imaginas daqui a uns dez ou quinze anos?
D-Mars - Entre tudo o que faço agora, o que me vejo a fazer daqui a uns anos é ser técnico de estúdio especializado em hip-hop, porque é o que estou a gostar mais de fazer e a apanhar mais o jeito. Também tive a sorte de ter ao meu dispor um estúdio de hip-hop e já adquiri uns truques meus. Acho que neste álbum o som está fixe, está quase aquilo que eu queria, mas para isso teríamos de ter um estúdio mesmo profissional. Mas cada vez mais estamos a aumentar o potencial do estúdio, a melhorar as cenas e vejo-me a fazer isso, a produzir. Não só a produzir batidas mas como produtor de álbuns, que é um outro produtor, não só de hip-hop. Se calhar dou aquela rima de meio minuto num tema de r&b, mas vejo-me mais envolvido na parte técnica.
- Falta a habitual pergunta-praxe. Queres deixar alguma mensagem aos leitores?
D-Mars - Se realmente querem apoiar o hip-hop, não copiem CDs e espalhem essa palavra, porque cada CD que alguém copia é a morte do artista. Isto é um meio muito pequeno e se fizerem cópias, daqui a uns anos não vai haver CDs para ninguém, não vai haver nada para ninguém, o pessoal tem de perceber isso. É que depois nem para copiar vão ter.
Acho que não adianta falares bem da cena “que o movimento é bom, etc” porque, no final, o que interessa é que me proves, “prova-me, compra o CD, compra o bilhete para a festa, para o DJ ganhar dinheiro e haver festas”. Ou a parte económica também cresce ou então esquece. E nós sabemos todos muito bem que há pessoal que tem esse dinheiro para comprar o CD. Têm dinheiro para o charro, então que comprem o CD, é melhor do que fumar.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation |