|
- Para começar, vamos falar do passado. Relembrem-nos a época em que tiveram os primeiros contactos com a cultura HipHop. O início…
Fuse - Posso-te falar um pouco da história que já toda gente sabe. Antes de Dealema havia dois grupos diferentes: Eu e o Expião eramos os Fullashit; depois havia o Mundo, o Maze, o DJ Guze e outros amigos deles que eram os Factor X. Isso foi por volta de 94/95…
Quanto ao meu início, comecei a fazer as cenas sozinho... Apesar de haver pouco material naquela altura, consegui ir fazendo umas gravações. O Expião, que na altura também tinha uma banda de Hardcore, ouviu e passou-se. Começou a surgir a ideia de fazermos alguma coisa juntos… Formamos um grupo, fizemos umas maquetes, que na altura até passavam no “Rapto”, o programa da antena 3.
Entretanto o Expião, que já conhecia o Mundo do liceu de Gaia, disse-me: “Há lá uns rapazes que eu conheço, os Factor X, que também têm um grupo e o carago, uma cena fixe…”, e pronto. Imagina o que é naquela altura saberes que existe mais alguém na tua cidade que curte HipHop e tem um grupo, ficas logo… era uma cena rara! Conhecemo-nos, fizemos umas brincadeiras juntos, fomos gravando umas cenas, tanto em minha casa, como em casa do mundo... Quando demos por ela, acho que nem chegamos ao intuito de: “Olha vamos formar um grupo?…” não. Quando demos por ela já queríamos mesmo seguir juntos. Foi escolher o nome e começar a fazer cenas.
- Numa perspectiva geral, o que mudou no HipHop português?
Fuse - O que à partida mudou e está aos olhos e ouvidos de toda a gente é que agora há muitos mais grupos, muito mais pessoas a ouvirem e a fazerem HipHop. O que não quer dizer que seja 100% bom. Como em todas as áreas, não é só no HipHop nem na música, quanto mais pessoas há numa certa actividade, maior é a competição. E é o que se passa agora. Hoje em dia, há mais meios e mais apostas. Acho que a cultura HipHop começa a ser vista com outros olhos. A parte que está mais de fora - meios de comunicação e isso tudo - apesar de ainda nos verem como “aqueles putos, aqueles gunas do HipHop” e não como músicos, começa a levar isto um bocado mais a sério
Globalmente, se calhar o que mudou mais, foi a quantidade de pessoas a ouvir e a fazer HipHop.
- Mas analisando as fases que o HipHop atravessou até aos dias de hoje, este tem vindo sempre a melhorar?
Fuse - Não… Já há cenas que mudaram para pior. Por exemplo, antigamente havia mais contacto humano, em tudo. Tu querias música? Ou tinhas que te deslocar a um sítio para comprar discos ou acontecia estares com os teus amigos, eles dizerem-te: “Olha tenho grande álbum…” e emprestarem-te para ouvires em casa… Havia contacto humano! Agora para fazeres HipHop, para ouvires HipHop e tudo mais, nem precisas de sair de casa. Tens net, sacas álbuns; tens computador, fazes musica; tens gravador de cds, gravas o teu álbum em casa… Já é tudo mais automático. Assim à partida, é a única coisa que eu acho que tenha realmente piorado.
E depois há também a tal competição, que às vezes leva a cenas de boatos e deitarem-se abaixo uns aos outros.
- Entretanto os Dealema cresceram e neste novo álbum, o Mundo dá a dica “… recordo a imagem da face, de todo o que nos ajudou…” que nos remete para os primórdios. Sabemos que no vosso início, como grupo, tiveram o precioso apoio do Ace (Mind da Gap). Quem mais vos ajudou a “nascer/crescer”? Em que aspectos e até que ponto?
Fuse - Tanto o Ace como os Mind da Gap… Mas falando do Ace, ele sempre morou ao pé da rua do Mundo. Já se conheciam na altura dos Factor X... E como eles já estavam nisto há mais tempo, inevitavelmente, começou a haver aquele contacto entre nós. Mas o que houve foi aquele apoio de amigos e não cena de: “Vou ser vosso padrinho, vou-vos fazer instrumentais, vou-vos fazer isto, vou-vos por no caminho certo…”, não! Existiu apenas aquela cooperação de amigos.
Sem duvida que foi muito importante, porque aprendemos muita coisa. Eu, o Maze e o Mundo chegamos a actuar muitas vezes ao vivo com os Mind da Gap… Aprendemos muito em palco. A cena de termos participado nos álbuns deles, também nos ajudou muito, como experiência de estúdio, etc.… Tudo isso foi importante.
- Actualmente têm a preocupação em “ajudar” os mais “novos”?
Expião - Nós não nos preocupamos nem deixamos de nos preocupar… Nós Dealema como instituição, apoiamos toda a gente da luta: seja do HipHop, do Hardcore… da música, basicamente. Portanto, toda a gente que venha ter connosco, sem merdas, sem filmes nem com segundas intenções, leva tudo o que quiser. Nós apoiamos tudo e mais alguma coisa…
- Falem-nos da vossa evolução musical (influências, mudanças, etc).
Fuse - No princípio, as nossas influências musicais eram do material que arranjávamos. E na altura o material que se arranjava era americano, como é lógico. A diferença para hoje é que, se calhar, estamos mais ligados a nós próprios. Não recebemos tantas influencias de fora… Já estamos fechados no nosso circulo. Vamos aprendendo connosco, com a nossa música e os nossos amigos.
- Tentem-nos dizer uma característica particular, que defina musicalmente cada um de vocês...
Expião - O Maze… Energia positiva, elevação mental, força pa um gajo continuar.
O Fuse… é um gajo que nos deu pica, criatividade… O outro lado da interpretação do nosso estilo de fazer música, que é a originalidade. Ele é muito original naquilo que faz.
Do Mundo… podemos dizer que é aquele gajo que está sempre fechado em casa, a fazer instrumentais, a trabalhar para nós e a trabalhar para o nosso movimento, organizando festas e eventos… É o homem automático.
O Guze… sempre teve lá com os scratch, com tudo aquilo que nós precisamos fora das letras e da vocalização.
E eu sou o revolucionário.
- No projecto Dealema, as produções são quase na totalidade do Mundo. O Guze fica, apenas, encarregue dos efeitos de scratch. Porque é que isto sucede? Não há interesse por parte do Dj. na área da produção?
Expião - Não há interesse por parte dele… Fica tudo para o Mundo.
- Uma constante das vossas músicas é o conteúdo construtivo e interventivo. Acham que através da música conseguem de alguma forma influenciar ou ter impacto na vida das pessoas?
Expião - Nós temos muito orgulho e ficamos muito satisfeitos, porque são as pessoas que vêm ter connosco e nos dizem que a nossa música contribuiu de uma forma positiva para a vida delas… Que as fez sentir um bocado melhores pessoas nas alturas que se sentem em baixo. O feedback tem sido basicamente o que acabei de dizer.
Acho mesmo que conseguimos contribuir para alguma coisa mudar dentro de algumas pessoas. Não na sociedade, porque na sociedade tu não vais mudar nada, não tens lutadores para mudar alguma coisa neste capitalismo… Portanto tens que te mudar a ti próprio. Deixo-te aqui uma importante frase: Se não consegues mudar o mundo, muda-te a ti próprio.
- Além deste carácter construtivo e interventivo, também é notória uma grande atitude revolucionária. Não têm medo que a vossa mensagem, por mais sentido positivo que acarrete, seja mal interpretada por alguma parte do público? Lembro, por exemplo, a actuação na Fnac de Sta. Catarina.
Fuse - Esse é um exemplo isolado… Temos que ter em conta que aquilo foi em plena baixa do porto. O pessoal que armou o estrilho cá fora é pessoal que já circula naquela zona… É lógico que se vão lá passar e sabem que vai haver um concerto de HipHop, infiltram-se e tentam roubar uns telemóveis e uns bonés. Mas isso é uma cena que nos ultrapassa.
Quanto à nossa mensagem, estou convencido que não influencia negativamente… Pelo tal feedback que temos recebido das pessoas, acho que grande parte delas capta muito bem a mensagem; sabem em que sentido é que nós falamos; em que sentido é que realmente tocamos na vida deles.
Quem tem dessas atitudes isoladas é pessoal que não percebe a nossa cena.
Expião -É basicamente isso. É nisso que nos vamos focar: Nas pessoas que nos estão a ouvir e nos entendem, nas que captam bem a mensagem.
Agora, nós não vamos impedir que as pessoas se sintam revoltadas e que venham fazer merdas para os concertos, porque não é a nossa música que causa isso. É, se calhar, o estares enfiado em casa a veres violência na televisão... Se calhar ia mais por aí. E como a vida de uma pessoa que vive num bairro social é difícil, essa pessoa vai exteriorizar essa merda, talvez num concerto que tenha uma música mais violenta, que nem tem nada haver com as letras nem com aquilo que nós interpretamos.
- É verdade que há uns tempos atrás, esteve para ser realizado um projecto da Coalizão, com Dealema, Mind da Gap e La Familia? Se sim... Porque é que não saiu?
Maze - Eu acho que essa vontade já existe há muito tempo e vai continuar a existir. Fazer música com os Mind da Gap e os La Família e lançar uma cena de Coalizão, acho que vai ser obrigatório. Mas nunca esteve nada programado, é apenas um esboço que já existe desde há muito tempo.
- Vamos agora falar deste tão desejado álbum, que só surgiu sete anos após o primeiro EP. Porquê tanto tempo?
Fuse - Acho que se deve a uma série de atropelamentos. Porque nós sempre fomos fazendo música ao longo dos anos, gravando as nossas cenas, tendo as nossas ideias, escolhendo instrumentais, escolhendo temas... Mas se calhar faltou aquele impulso para fazermos um trabalho a sério. Mesmo assim nunca estivemos parados. Nós sempre fomos muito espontâneos e naturais.
O álbum só saiu agora, porque só tinha que sair agora… A oportunidade só nos surgiu agora: o termos um estúdio, o convite da editora para fazermos um acordo… Como só agora é que tivemos as condições que achamos que deveríamos ter após estes anos todos, só fazia sentido lançarmos agora.
- Surpreendendo muita gente, vocês incluíram, em bastantes temas, a voz feminina. Na vossa perspectiva, o que trás de novo à vossa musica? Era algo que sentiam que estava a falhar, no HipHop português?
Fuse - Eu acho que, essencialmente, veio trazer mais brilho. Foi a concretização de algo que já esperávamos. Muitas vezes nos surgiam situações em que tínhamos as músicas, com os instrumentais escolhidos e tal e parávamos: “Ei olha, ficava bem aqui uma voz feminina, ou ficava bem aqui um gajo a cantar Ragga, ou Fado”...
Maze - A ideia de usar uma voz feminina, já vem de longa data. Mas só agora é que surgiu a oportunidade. Acaba por completar o que ele disse ao bocado, surgiram todas as condições para o álbum surgir, até essa. Algo que veio complementar e balançar a nossa musica…
Fuse - São mesmos os instrumentais que pedem… Posso fazer uma produção que até me pede pa ir lá um gajo tocar violino, ou bandolim… (risos).
- E quanto às outras participações? Como surgiram? Houve algum tipo de selecção?
Expião - Convidamos os Mind da Gap porquê são nossos conterrâneos, acompanharam-nos sempre… não há mais nada a dizer. Convidamos a Marta porque adoramos a voz dela. A Raquel foi convidada porque é uma grande amiga nossa e porque também tem uma grande voz. Convidamos o Sam The Kid, porque achamos que ia enriquecer o nosso disco como produtor. E convidamos o Serial porque, sem dúvida, é dos melhores de Portugal.
- Um dos temas de maior impacto é do da Polícia, na faixa “Bofiafobia”. Falem-nos um pouco sobre este assunto delicado.
Expião - Esse assunto é um assunto que nós vivemos diariamente… Que faz parte da nossa rotina diária. Basicamente, o que falamos nessa música é da sociedade policial em que vivemos. Criticamos, mas não entramos na onda de “que se foda a bófia”, que por acaso temos a atitude de “que se foda a bófia” (risos)… Mas não entramos nessa onda na interpretação dessa música. É apenas um relato sobre a parte corrupta da Polícia. O que não significa – esta é a mais importante e que tem dado polémica – que estamos a criticar a Polícia em geral. Criticamos a parte corrupta da Polícia, como instituição… Mais nada.
Como se costuma dizer, só a quem servir o barrete é que se lho enfia. É isso.
- Qual o porquê da existência de uma faixa secreta?
Fuse - Isso foi uma coisa que surgiu. Ainda havia outra música no álbum, só que como não cabia no CD, cortamo-la. O que aconteceu com essa música foi algo que surgiu mesmo à última da hora. Como agora havia essa opção recente, de em vez de por uma faixa bónus no fim, por uma faixa fantasma antes, aproveitamos… mesmo só pela piada. Para se fazer uma cena diferente.
- Quais foram as musicas e concertos mais marcantes no vosso percurso?
Fuse - Músicas, “DLM SA” e a “Dealema” do “Expresso do Submundo”. São as que realmente representam o nosso dogma.
Concertos, Ritz Club no ano de 99, em Lisboa.
- E para concluir?
Fuse - Podemos deixar o conselho a toda a gente que ler isto, para se manterem reais; serem sempre independentes, no bom sentido; e que não se deixem atingir pelas coisas más, que nos afectam como seres humanos... Que é a inveja, os boatos e tudo isso.
No fundo é aconselhar a toda a gente que sejam puros e principalmente, em relação a esta cultura, que não deixem morrer o sentimento que já vem das antiguidades.
Por Pedro Bernardino para H2T - www.h2tuga.net |