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- Quando começaste a pintar? O que te levou a fazê-lo? Resume-nos a tua historia.
Caos - Comecei a pintar a cerca de quatro anos e meio. Na altura, o que me levou a fazê-lo talvez tenha sido o fascínio pela cultura, apesar de eu nunca ter sido muito ligado ao HipHop em si. Mas claro que gostava e apreciava, como o skate e esses derivados, de toda uma cultura urbana. E também, por a vertente do Graffiti estar ligado à arte. Depois, na escola onde eu andava (Soares dos Reis) havia uma disputa, quase como existe hoje em dia no Graffiti, só que no caso era uma disputa nas mesas, a fazer desenhinhos. E eu vivia um bocado isso. As mesas, eram tipo as nossas ruas. Mais tarde comecei a experimentar mandar para a parede. A comprar latas do Continente e a experimentar nas obras e essas cenas. E fui acabando por lhe ganhar gosto. Entretanto apareceu a ‘Suburbio’ (loja de streetwear), que foi mais ao menos a altura que comecei a ter a oportunidade de evoluir. Deram-me mesmo a chance de andar para a frente. A partir daí nunca mais parei.
- Mas no inicio, apoiaste-te em pessoal que já estivesse mais dentro do assunto?
Caos - No inicio não, não conhecia ninguém. Foi mesmo por mim. Só estava ligado a esse “pessoal das mesas” que também ia experimentando, como o Noesis, o Ego (que é das pessoas com quem eu pinto mais), o Oder, entre outros. Só que eles próprios também estavam muito apagados em relação ao Graffiti. Foi numa época complicada, onde não se viam muitos trabalhos. Os que haviam por aí, eram do Ace e de algum pessoal que vinha cá em cima, ao Porto.
Portanto, foi um inicio um bocado as escuras. Mas a partir do momento em que peguei a sério nas latas comecei a conhecer pessoal. Precisamente na altura em que apareceu a ‘Suburbio’, comecei a conhecer gente, a estar com elas e a ir pintar com elas.
- Porquê a tag ‘Caos’?
Caos - No inicio comecei por escrever merdas sem relevância, mas nem era Graffiti. Era só a cena de desbundar nas mesas, que se tornou numa cultura tão forte no nosso meio, ao ponto de ir-mos comprar canetas de acetato para desenhar, escrever, mandar bocas uns aos outros, tudo nas mesas. Portanto na altura nem dava muita importância à escolha de um tag. Aquilo consistia, apenas, em fazer umas peçazinhas para picar alguém, depois esse alguém vinha e respondia com outra... por vezes saiam coisas mesmo bonitas.
Entretanto comecei a tagar Caos e habituei-me. Por um lado há sempre aquela referência de ser um nome bastante pesado, já que pode ser visto de um ponto de vista contestatário. E como era uma palavra que eu não desgostava e fácil de ser falada (que nunca pensei que viesse a ser tanto) ficou Caos. Habituei-me de tal maneira, que hoje tenho amigos meus que nem sabem o meu nome.
- Fala-nos da tua evolução como writer.
Caos - O inicio, lá está, foi a historia das mesas. Depois havia outra coisa, que era o eu desenhar imenso... Estava sempre a desenhar nos cadernos, se bem que ainda não tinha noção do que era o Graffiti. Fazia as cenas muito por mim. Tudo vindo da minha imaginação, sem ter uma base, sem ver o trabalho dos writers, sem saber o que se fazia pela Europa e Estados Unidos. Não fazia ideia de nada. De vez em quando via merdas na televisão, via uma revista ou outra, mas não tinha aquela percepção do que era realmente esta arte.
Depois, lembro-me das primeiras férias que tive, já passada a altura de experimentar as latas. Conheci um rapaz no Algarve, de Lisboa que era o Ante e ele começou a dar-me umas dicas, visto que ele já pintava há algum tempo. Quando cheguei cá, comecei a conhecer pessoal, a ver revistas e filmes. E então aí, comecei a aperceber-me e a trabalhar mais a sério. Inicialmente, também passei por uma fase que eu acho muito importante e as pessoas por vezes não compreendem. A fase do bytar. Acho que toda a gente devia passar por isso, porque se aprende muito. Por exemplo, nessa altura, eu copiava 3D’s. Transformava-os para mim, mas acabava por copiar o estilo do outro. Só que acabou por ser uma escola, porque quando me apercebi que não podia ser assim e que já era tempo criar o meu estilo, já tinha aprendido imenso. Já tinha aprendido a fazer 3D’s à custa de imitar. Aliás, eu tenho a certeza que toda a gente imita, não há hipótese. Estás no Porto, quando vês um a fazer uma cena “nova”, começam logo a aparecer cenas parecidas, o pessoal começa todo a experimentar. Mas eu acho isso bem, desde que se tenha noção e se admita que se está a copiar. Eu tinha aulas de desenho, e copiava-mos desenhos de outros autores, para aprender a fazer as sombras e essas coisas. É realmente importante.
Entretanto comecei a assumir um estilo próprio, depois mais tarde comecei a cansar-me de Caos, agora até utilizo mais Naif. Agora também já faço moldes, stencil’s, outras coisas, e estou mesmo a gostar. Eu acho que, apesar de tudo, toda a gente vai evoluindo. Quem está dentro deste mundo repara que toda a gente vai evoluindo naturalmente, nunca estagna. Vão aparecendo cenas novas, a todo o momento. Outra coisa que anda a acontecer, é que os Writers mais antigos do Porto, tipo eu, o Bif, o Ego, entre outros, já andam a transformar um pouco aquilo que fazem. Ou seja, andamos a partir para outras modalidades do Graffiti, como autocolantes, stencil’s, etc. Porque aos anos que se faz isto de escrever quatro letras e andar ai a espalha-las por todo o lado. É bonito, mas cansa.
- Nos dias de hoje, o que te leva a pintar? O teres necessidade de passar uma mensagem? Ou apenas o prazer de o fazer?
Caos - Digamos que é um bocado das duas. Ao inicio se calhar não tanto, mas a partir de uma fase para cá, comecei a achar a mensagem mesmo importante.
Mas lá está, à partida o nome Caos já tinha uma certa mensagem, que além de ser o meu nome, era uma palavra que simbolizava mesmo isso, o caos. No meio da cidade, a palavra Caos já tem por si uma forte mensagem.
Mas depois deixei de me preocupar em passar a mensagem com o nome, mas em escrever mesmo uma mensagem, mostra-la. Porque acaba por ser como a música: um Graffiti são rimas e acaba por ser também uma maneira de expressão. Às vezes até se pode transformar em algo um bocado abstracto e pessoal. Mas outras vezes não, basta tu quereres e tens ali um bom cartaz, um flyer gigante para as pessoas.
- Fala-nos da evolução do Graffiti em Portugal.
Caos - Começou, sem duvida, mais cedo em Lisboa, muito antes que no Porto. Eu lembro-me de ser miúdo, ir lá baixo, e ver Graffiti, o que me fascinava completamente. Depois começou a aparecer no porto, há cerca de seis anos, enquanto que em Lisboa já deve haver para aí há dezasseis. Portanto, para ai há seis anos, comecei a ver Graffiti no porto e comecei a interessar-me, mas sem nunca pensar que algum dia o iria fazer.
Foi perto dessa altura que apareceu a ‘Suburbio’, época em que houve um “boom” louco. Mais ou menos num espaço de dois anos, apareceram centenas de pessoas a pintar, de repente a cidade passou a estar toda tagada e pintada, surgiram novas crews, etc. E eu fui um dos que apareceu lá no meio. Nesse curto espaço de tempo o Graffiti evoluiu muito aqui no Porto.
Isto também porque a cultura HipHop em geral, deu um salto enorme. Nós cá em cima, provavelmente, temos as melhores bandas HipHop. Se calhar mais e melhor pessoal a fazer Break. Só nos faltava o Graffiti.
- E a nível de aceitação social?
Caos - É assim, as pessoas têm um bocado as ideias trocadas em relação ao Graffiti. Quando estás a fazer um Hall of Fame, 90% acha bonito. 10% das pessoas, acha que é bonito quando estás fazer um Bombing. Mas as pessoas não percebem que isso são duas vertentes do Graffiti. São os dois lados da moeda. Tipo, é bonito fazer Hall of Fames e toda gente gosta, mas o Graffiti não é só Hall of Fames. Antes disso, o Graffiti é andar ai a bombar, a mostrares o teu nome.
Esta diferença, acaba por ser um pouco como o teres um poster colocado a um metro da terra e um a 10 metros. O que está a 10 metros vai ser muito mais vistoso e reconhecido. Mas às vezes é difícil as pessoas aceitarem essa diferença.
- És contra as Tags?
Caos - Não sou contra. Eu gosto de ver tags, tem o seu lado bonito. Por exemplo, eu gosto de chegar a um beco e ver lá umas tags, acho que fica engraçado. É como se fossem ervas a nascerem do chão. Neste caso da cidade, são as tags a nascerem dos tijolos.
Mas por outro lado, também fico fodido, se ao chegar a casa da minha irmã que é nova, e vir lá uma tag toda recesa a foder a parede toda. No fundo é uma questão de respeito e de capacidade de distinção de locais. Acaba por estar lá uma obra, por trás daquilo.
- Não achas que os writers portugueses insistem em demasia no Bombing?
Caos - Acho, acho que sim. Apesar de que agora pensar que isso está a mudar um bocado. Mas lá está, há tantas pessoas. Umas dedicam-se absolutamente ao Hall of Fame, outras absolutamente ao Bombing. É sempre bom que haja esse pessoal. Mas eu pessoalmente já perdi essa pica de andar ai nos comboios. Já não é aquela coisa, como era dantes. Agora, prefiro muito mais estar uma tarde inteira em frente a um Hall of Fame, a sacar pormenores. Não explorar tanto a parte da adrenalina e da emoção, mas sim a parte mais a plástica.
- Mas achas que esses excessivos Bombs são originados pela falta de talento, ou mesmo por opção?
Caos - Acho que é principalmente por opção. Há aí muita gente que tem muito talento, que desenha bem, que quando faz Fames consegue fazer cenas bonitas, mas que gostam mesmo de fazer Bombings, como é o caso do Dash. Acho que é mais isso do que falta de talento.
Mas também, eu acho que não punha a questão em termos de talento. Porque para fazeres Graffiti, não é preciso teres talento, nem saber desenhar. Basta teres vontade. Claro que ajuda, mas não é o fundamental. É como o dinheiro: não trás felicidade mas ajuda. Consegues ser feliz sem dinheiro. Acaba por ser um bocado isso, consegues fazer Graffiti sem saberes desenhar, nem que faças um molde. Já não é o Graffiti convencional, mas podes na mesma espalhar uma mensagem e andar aí a intervir.
- Notas grandes diferenças na qualidade dos Graffs do porto para Lisboa?
Caos - Neste momento não. Já notei, mas agora não. Não falta muito e passamos a perna ao pessoal de Lisboa. Senti isso no concurso que houve agora em Vila do Conde, foram muito bons os Graffitis de Lisboa e na minha opinião mereciam ganhar. Mas temos que ver que não estava lá muita gente do Porto, que devia estar, porque são mesmo bons. Cá no Porto temos pessoas mesmo boas a fazer Graffitis. Acho que mais um ano ou dois e passamo-lhes a perna. E atenção que eles têm muito mais abertura em relação ao Graffiti. Lá, são muitos mais, conseguem fazer muito mais e então aprender muito mais. Lembro-me de não sermos nada a beira deles, mas hoje já não é assim.
- Qual o Graffiti que te deu mais prazer a fazer e do qual te orgulhas mais? Porque?
Caos - Acho que foi este que fiz esta semana no Instituto Politécnico do Vale do Ave, na Povoa de Lanhoso. Pintei o refeitório deles. A oportunidade surgiu porque eu estava a fazer a decoração para a ‘Unicer’, que trabalha para o Instituto, com as bebidas e isso. Depois o pessoal do Instituto queria uma banda desenhada e o pessoal da Unicer queria publicidade as marcas ‘Vitalis’ e ‘Fructis’. No fundo acabei por juntar as duas coisas. Fiz uma banda desenhada que foi extraída e baseada numa B.D. italiana que se chama ‘Dylan Dog’. Peguei em bocados de varias historias, juntei-os todos e apresentei-os. Aquilo até era a preto e branco, muito estilo muito anos 50 e homem-aranha. Mas eu adaptei-a e passei-a para o meu estilo de desenho.
Gosto especialmente deste trabalho, porque primeiro foi o maior que eu fiz. Depois por ser uma banda desenhada, que é uma coisa que eu sempre quis fazer. Tenho B.D.’s no papel, mas passar para a parede sempre foi um sonho. Deu-me um gosto especial ao estar a fazer aquilo, chegar ao fim e ver uma Banda Desenhada enorme, numa parede, feita a Graffiti. Também foi porreiro porque tive que estudar muito. Por exemplo o desenhar carros, que é algo que detesto fazer.
Por outro lado também gosto muito de um Graffiti que fiz com a mensagem “...muitos com pouco, poucos com muito..”. Deu-me mesmo muito gosto faze-lo.
Há, realmente, uma diferença muito grande. Sinto uma sensação completamente diferente quando estou a fazer um Graffiti que me estão a pagar, ou quando estou a fazer um de vontade própria. O que faço por vontade própria, faço-o com muito mais vontade. Quando me estão a pagar, é mais um bocado aquela obrigação... Claro que também adoro. Mas sei lá. Se as latas e a parede forem minhas, apesar de não receber ao fim, se calhar faço-o com muito mais vontade.

- Quanto a esse Graff que do “...muitos com pouco, poucos com muito...”. O que te levou a transmitir essa mensagem?
Caos - Este Graffiti apareceu na tal altura em que eu gostava de passar mensagens. Mensagens até com um cariz mais social. E por acaso esse Graff até tem uma historia muito engraçada. Nesse dia, estava eu a fazê-lo e param uns amigos meus que me dizem: “Olha, a América está a ser atacada!”... Era o 11 de Setembro. Eram por volta das 3.00h da tarde e aquilo deve ter sido lá para as 2.30h. Portanto eu estava ali a pintar sem saber de nada. Depois quis ir logo para casa ver e acabei por terminar o Graffiti no dia a seguir. A mensagem no fundo até acaba por ter a haver com o que aconteceu nesse dia. Acaba por focar essas diferenças em que vivemos. A ganância, a vontade de ter dinheiro, o que gera essas situações.
- E como nasceu aquele Graffiti do “Porto Capital Europeia da Cultura”? Foi iniciativa própria, ou pediram-te?
Caos - Esse acaba por ser outro Graff com uma historia engraçada. Aquilo foi assim: Tenho uma amigo meu que é o Cash, dali da Boavista, que costumo pintar com ele. Ele, na altura, tinha que fazer um trabalho para a escola, sobre o “Porto Capital Europeia da Cultura”. Tinha a parede, tinha as latas, tinha tudo e pediu-me ajuda. Mas acabei por fazer eu o Graff todo. No fundo foi para ele. Provavelmente, senão fosse por isso, nunca teria surgido esse trabalho.

- Já pintaste no estrangeiro?
Caos - Não, acho que não.
- Mas estás a par do que se passa lá fora? Notas muitas diferenças?
Caos - A nível da Europa já é muito à frente. Espanha, França, Alemanha, alguma coisa na Itália e na Grã-Bretanha. A Europa central está muito evoluída. Para mim é o avantgard do Graffiti. É o pós-graffiti. Mais que os Estados Unidos, hoje em dia o Graffiti é dominado na Europa.
- Havia algum evento que gostasses de ver realizado em Portugal, na área do Graffiti?
Caos - Se calhar gostava que houvessem mais demonstrações e workshops de Graffiti. Que se abrisse mais um bocado às pessoas e não fosse uma coisa tão submundo, tão underground. Acho que para evoluir, falta-nos disso principalmente cá no Porto. Porque os gajos quando vêm cá, vão a Lisboa. E nem toda gente tem possibilidade de ir a Lisboa, dois dias, para ver os gajos pintar.
É necessário um evento grande cá em cima. Vir cá um ou dois “cães” grandes do Graffiti para mostrar como se faz, falar e discutir. Haver, por exemplo, conferências. Porque também é difícil haver evolução sem essa ajuda. Porque em Portugal quem faz Graffiti, não faz só Graffiti. Tem que fazer outras coisas na vida, não se pode dedicar inteiramente a isso. Eu gostava de ter muito mais tempo para andar aí a pedir paredes e a ter tempo para as pintar, mas não tenho. Trabalho, faço Graffiti, estudo design, muita coisa. É isso que nos falta para dar o salto. Tem que valer a pena uma pessoa dedicar-se ao Graffiti. Por exemplo, tu vais a Espanha e o pessoal vive do Graffiti. E nós cá não temos essa possibilidade, ainda. Tipo, eu posso ir fazendo os meus trabalhos e ir ganhando dinheiro, mas não me dá para viver disso e deixar tudo o resto. Mas esse pessoal não. Ou porque faz pranchas para skates, ou porque faz roupas ou trabalham para marcas de streetwear, ou porque faz só decoração simplesmente. A cultura urbana existente nesses países já é auto-suficiente para eles sobreviverem. Já existe um mercado de trabalho, dentro do Graffiti.
- Qual a tua ligação com as outras vertentes da Cultura HipHop?
Caos - Eu gosto do HipHop, gosto da musica, gosto do breakdance, etc. Gosto de tudo que está ligado à cultura urbana. Mas nunca tive assim uma ligação com o HipHop, de maneira a vivê-lo intensamente. Como por exemplo com a musica. Só que sempre fui um puto de rua, sempre andei na rua, sempre gostei da rua.
Acho que o HipHop é muito bonito, diz muito. É uma cultura de alguém que se quer expressar e mostrar alguma coisa.
Eu gosto muito de Punk, sempre gostei. Se calhar até mais que o HipHop e acho que este acaba por ser um Punk adaptado, e isto pela mensagem que transmite.
Quanto às vertentes do HipHop em particular, acho a dança uma das danças mais bonitas e difíceis. Qualquer pessoa dança salsa, ou outra coisa, mas Breakdance não é para qualquer um.
No fundo acaba por ser isto. Existe um grau de dificuldade elevado nesta cultura, que a torna especial. Porque não é qualquer pessoa que faz rimas, não é qualquer pessoa que improvisa, não é qualquer pessoa que dança Breakdance, não é qualquer pessoa que faz bom Graffiti, e por aí fora.
Eu associo também muito o skate ao HipHop. Há pessoas que não, principalmente cá em Portugal. Mas se fores aos Estados Unidos, é como se fosse mais um elemento. Gosto muito de skate. Aliás, eu cheguei a andar de skate e sei que também não é para qualquer pessoa. Acho o HipHop uma cultura mesmo difícil. E quem está verdadeiramente nessa cultua, seja qual for a vertente, é porque é bom. As pessoas que estão ligadas a isto é porque são mesmo pessoas grandes. É de dar valor. É uma cultura com uma personalidade e com um caracter muito forte.
- Tens algum assunto que gostasses de focar, que não tenha sido abordado?
Caos - Gostava de falar das novas vertentes que estão a aparecer em relação ao Graffiti. Os moldes, os autocolantes, os poster-bombs. Acho que devíamos apostar mais nisso. O nosso país tá um bocado atrasado em relação a isso. Comparando com o que se passa pela Europa e Estados Unidos. O Graffiti precisa de se adaptar aos dias de hoje. Deixar de ser tão plástico. O Graffiti sempre foi publicidade, o andares por aí a autopromoveres-te. Mas agora está na altura de passar para publicidade em si mesmo. Para o autocolante em massa, para o cartaz em massa, para o stencil em massa. E aproveitar esses meios: se calhar é ainda mais fácil de reivindicar. É mais forte. Se queres mandar alguém à merda ou se queres dizer obrigado a alguém.
Já começa gente a experimentar, acho que devia-mos mesmo investir nisso. Pôr mais cartazes na rua, feitos por alguém e não por uma empresa. Porque é assim: nós andamos com marcas dos outros gajos que ganham milhões, andamos com Nike’s nos pés de gajos que se estão a cagar para nós. Porque é que eu hei-de andar aí a dizer Nike a toda a gente, e não hei-de andar por aí a dizer que eu sou o Caos? Também é preciso autopublicitar-me, também sou alguém, também tenho alguma coisa para mostrar. Se sou um cartaz ambulante para os outros, também o quero ser por mim.
- Para acabar, mensagem final?
Caos - Quero que as pessoas não fiquem sentadas em casa, a ver televisão. E que não se acreditem em tudo que vêem e ouvem.
Aproveitem aquilo que sabem fazer, para quando estão contentes ou descontentes, o mostrarem. Há sempre meios para fazer isso. E no caso do HipHop, muito mais. Há varias vertentes e maneiras, fortes, de demonstrar o que pensamos. Aproveitem, utilizem e mostrem. Não só para os amigos, mas também para os outros. Porque o pessoal que está dentro do HipHop já sabe o que é que eu tenho para dizer. Mas quem tem que me ouvir não é só quem está dentro, mas também quem está fora.
Não é tentar mudar, porque mudar nunca vamos conseguir mudar nada. Vivemos na merda e vamos sempre viver na merda, não há hipótese. Mas tentar com que a merda cheire melhor um bocadinho. Dizer as pessoas que é possível fazer com que a merda cheire melhor.
Por Pedro Bernardino para H2T - www.h2tuga.net
Fotos gentilmente cedidas por HipHopWeb - www.hiphop.web.pt |