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- Estás no Hip-Hop há muitos anos, és um MC da dita velha escola, conta-nos como sentias este movimento no início?
NBC - O movimento no início era como uma criança. Vês a criança a crescer aos poucos, no princípio não sabe falar muito bem e à medida que vai passando o tempo vai começando a gatinhar, a andar, a dizer as suas primeiras palavras… O movimento era assim, era muito fraco, as pessoas conheciam-se todas, iam-se fazendo algumas festas… Para a altura já não era nada mau tendo em conta altas divergências a nível de espaço para se poder tocar, ou espaço para se poder fazer festas. Eu fui a festas de hip-hop em sítios quase, sei lá, que quase nem existem. Muito pouco há a dizer relativamente aos anos passados.
O que havia realmente bom, e que hoje não existe, era a união da altura. Nós conheciamo-nos todos, era como se fossemos todos irmãos, apenas vivíamos em sítios diferentes. Quando chegava aquele dia, para uma festa ou outra cena qualquer, estávamos ali, gritávamos, pulávamos em cima uns dos outros. Lembro-me de festas no Johnny Guitar que aquilo era mesmo a celebração do hip-hop, lembro-me perfeitamente de estar lá aquele pessoal todo. Uma noite o Bomberjack passou para aí uma hora só com sons de Wu Tang, só aquelas grandes malhas, e o pessoal todo a curtir... são noites que hoje é quase difícil acontecerem, ou não acontecem mesmo. Eu tenho certas saudades desse tempo relativamente a isso, mas é claro que não trocaria os tempos de hoje pelos antigos. Agora as coisas estão num processo diferente, está melhor.
- O teu início foi à 10 anos mesmo?
NBC- Há dez anos, exactamente. Podemos dizer que a iniciação do grupo foi em 94 porque quando participámos no Oeiras rap 94 já tínhamos formação como Filhos de Um Deus Menor. Mas podemos formalizar as coisas como em 94.
- Muita gente pode desconhecer mas, enquanto Filhos de Um Deus Menor, já tinhas um CD editado em 99. Como descreves esse trabalho ,“A Longa Caminhada”, para essas pessoas que não ouviram e agora também dificilmente o vão poder escutar?
NBC- Eu descrevo “A Longa Caminhada” quase como o seguimento deste álbum “Afro-Disíaco”. É um álbum com ideias positivas, bem dentro do nosso estilo. O nosso estilo também sempre foi muito positivo e, de certa forma, sempre fugiu um bocado àquilo que os outros MC’s fazem, eles falam das coisas de uma forma um pouco mais negativa. Nós tentamos passar a nossa mensagem de uma forma muito mais soft porque, no fundo, o hip-hop também é vermos as coisas boas dentro do mundo negativo, não estarmos sempre a falar que “este fez aquilo, aquele fez isto” mas também virarmos um pouco o dedo para nós próprios e vermos o mal que temos em nós, ou então, esquecer um bocado isso e passar para outra base.
“A Longa Caminhada” foi um pouco a junção de várias músicas para formar uma coisa bonita, uma coisa positiva, bom ambiente. Isto pesar de, na altura, ter sido gravado de uma maneira muito rudimentar, feito em casa e tal. Quem tem esse álbum, tem mesmo uma relíquia, aquilo já não se faz, feito em casa já não existe.
- Lançar um CD de Hip-Hop nessa altura era algo difícil. Como é que contornaram essas dificuldades?
NBC- É teres uma força de vontade muito grande e acreditares que aquilo que estás a fazer é mesmo aquilo que sentes, caso contrário as coisas não acontecem. E também ter algumas pessoas que possam ajudar a que isso aconteça. Nós tínhamos o caso do Samuel, e outros produtores, na altura também já conhecíamos o Bomberjack, e todos eles ajudaram um pouco a que isso acontecesse. Depois comprei um Fostex, um gravador de pistas digital, que até foi o mesmo com que o Samuel gravou o “Entre(tanto)”, e a partir daí foi só juntar aquilo tudo. Gravei tudo em casa, comprei uns CD’s virgens, meti na loja... é aquela cena mesmo “home made”, não há palavra que melhor possa descrever “feito em casa” do que aquele CD. Foi tudo exactamente em casa, com um microfone que nem sequer era um microfone de estúdio, com um Fostex FD4, com uma caixinha da Boss (como o Samuel tinha) e foi assim que se fez, aquilo nem levou mistura nem nada, como ficou gravado é como foi.
- Passados dez anos, muita coisa mudou no Hip-Hop nacional, e apesar da evolução ser notória encontras algum aspecto negativo ou desconstrutivo? No teu entender quais foram as maiores perdas ou ganhos?
NBC- O aspecto negativo que eu encontro no hip-hop é o mesmo que eu encontro na sociedade, ou num grupo de amigos, ou em todo o lado. São aquelas pessoas que por vezes empinam um bocado o nariz, pensam que são melhores e separam-se. Eu não quero estar a referir nomes para não ferir susceptibilidades mas é assim que eu encaro as coisas. Isto continua a ser a mesma conversa porque, se as pessoas se unissem, as coisas cresciam de maneira diferente, para melhor. Mas as pessoas teimam em criar separatismos, criar as suas cenas à parte e as coisas evoluem mas muito menos. Tu vês pelos outros países, vês por exemplo uma França onde o hip-hop está uma bomba.
E também temos o problema da própria sociedade. Eu não gosto muito de estar a utilizar a cena da sociedade porque se torna sempre na mesma conversa, mas no fundo é verdade. Porque não se pode admitir, por exemplo (ainda aqui há dias ouvi isto) que considerem como melhor letra nacional uma banda que canta em inglês! Enquanto isso continuar a acontecer, é difícil evoluirmos como músicos, como escritores, como poetas. Basicamente são estes os pontos negativos que eu vejo mas que, de certa forma, não têm directamente a ver connosco, é mais com as cenas que vão acontecendo.
- Agora, regressas com “Afro-Disíaco”, o Blackmastah também se prepara para editar “Krónicas de um Mestre”... Porquê a opção por álbuns a solo ao invés de um segundo álbum dos Filhos de Um Deus Menor?
NBC- Era uma necessidade que eu tinha, mesmo desde a altura em que fiz “A Longa Caminhada”, havia a necessidade de criar um estilo próprio. Não quer dizer que divergisse com o do meu irmão, apenas é uma vertente diferente. Por exemplo, quando ouvires o álbum dele, o “Krónicas de um Mestre”, concerteza não vais encontrar nenhuma música cantada, mas no meu álbum eu tenho músicas cantadas porque é a minha vertente, é aquilo que eu gosto de fazer, nunca hei-de deixar de fazer. São as minhas raízes, tem a ver comigo, tem a ver com a minha identidade e tem também a ver com aquilo que eu fiz anteriormente a nível musical. Eu sempre cantei, e isso nas minhas músicas vai-se demonstrar sempre, porque eu sou assim. E não tenho problemas nenhuns em fazê-lo. Não penso “estou a fazer isto e depois as pessoas vão achar..”, não me interessa isso para nada, eu estou a fazer música dentro do meu conceito e não fujo dele.
- Têm em perspectivas fazer um 2º álbum?
NBC- Sim, sim, concerteza. Já estamos a trabalhar nisso, não assim com muito afinco porque o Blackmastah agora está a trabalhar no álbum dele a solo, mas depois concerteza que Filhos de Um Deus Menor vai sair.
- No teu CD é notória a vontade de cantar e deixar a musica “rasar” uma onda mais Soul e R&B. O que não é novidade nenhuma para quem, por exemplo, conhecia a colaboração em “Especial” do Bellini ou mesmo “Chelas” do Sam The Kid. Esta é mesmo uma das tuas características? É uma paixão?
NBC- Sem dúvida, cantar é uma paixão. Na minha cabeça eu tenho duas cenas: por um lado é, quando ouço um beat, tentar criar uma melodia que consiga superar a batida, e por outro lado é estar constantemente à procura de novas palavras, de novas formas de escrita, há sempre esta busca constante. Neste álbum tu encontras sonoridades que nunca ouviste antes, é a busca, a criação de novas sonoridades em Portugal, fazer isto acontecer cá. Por exemplo a música “Especial”, no álbum do Bellini, eu tenho a certeza absoluta que se fosse feito nos Estados Unidos ou em França, ou na Alemanha, ia ser hit, dos melhores sons feitos no ano. Cá em Portugal é aquilo que vês, não passou de mais um som, quer dizer, foi um grande som mas podia ter sido uma coisa mais forte.
- Fala-nos um pouco dos MC’s que convidaste para este álbum (Bellini, Xeg, Noscar, Blackmastah).
NBC- Os MC’s foram escolhidos um bocado tendo em conta o beat que já existia. Eu oiço o beat e perante esse beat eu sei quem é que vou convidar. No beat para o Xeg por exemplo, só ele é que podia entrar ali, não estou a ver mais nenhum MC, aquele beat tem mesmo as características dele.
Para além de serem MC’s e colegas de trabalho, são pessoas minhas amigas, eu estou com eles normalmente, foi uma cena normal, é como estar aqui contigo e dizer assim “entra aí no meu álbum, faz aí umas rimas”. Foi uma coisa normal, não é “Epá, agora vou convidar o Xeg, vai ser uma grande dificuldade”, não, o Xeg está comigo normalmente e convido-o para entrar no meu álbum.
O Blackmastah é normal, é meu irmão.
O Noscar é um puto que eu curto já há muito tempo, é meu amigo. Entretanto também aconteceu que eu ouvi um beat que era para ser para ele, mas acabou por ficar para mim. Então eu perguntei se ele queria entrar no som e fizemos uma cena dedicada à “Nova Escola Vs Velha Escola”.
- E quanto a produções?
NBC- Sam, sem dúvida o Sam! Optei pelo Sam pela cena da musicalidade. Dentro dos produtores que existem em Portugal só ele consegue criar um sonoridade que eu gosto. Não é bem que eu gosto, porque eu gosto de todos: gosto de Bomberjack, gosto de Kronic… também têm grandes batidas; só que, para poder cantar, se calhar os beats do Kronic são mais ruf, é aquela cena mais da rima, enquanto que os beats do Sam são mais melodia, dão para criar uma melodia mais bonita. E eu estou com ele todos os fins de semana, estou sempre com ele, oiço os beats dele…
O Bomberjack é a mesma cena, também tem uma sonoridade um pouco diferente. Por exemplo, a última música tem a produção dele. Eu quando ouvi aquele sampler curti logo, servia mesmo para o que eu queria fazer. A última música tinha de ser assim uma cena tipo estares a entrar numa cena de pause. Vais ouvindo o álbum até à última música e não chegar ao fim cansado, vais ouvindo calmamente e chegas ao fim, pronto: “ouvi o álbum todo”.
- Sam The Kid que, curiosamente também produziu “A Longa Caminhada” quase por completo. Não é nenhuma novidade ver esta cooperação.
NBC- Não, não é novidade nenhuma, é como eu te digo, estas coisas já começam a transcender para o nível da amizade, muito mais do que produtor e MC. Nós somos amigos já há muitos anos e eu dou todo o mérito ao trabalho que ele faz, ele é muito bom naquilo que faz e as coisas acontecem naturalmente.
- A certa altura (em “Inteligência/arte”) dizes: “Cantar só por cantar nunca foi o meu objectivo, dez anos no activo para o ano já sai o Livro”. Isto é verdade, vais editar um livro?
NBC- Não, o livro é aquilo que eu faço em todos os álbuns, cada álbum é um livro. Não vou editar livro nenhum, claro.
- Podia ser…
NBC- Podia ser, mas para já não. O meu objectivo é fazer um álbum que as pessoas possam guardar como se fosse um livro, como se fosse uma recordação daquele tempo. Com “Afro-Disíaco” eu pretendo que, desde a capa a toda a concepção, daqui a dez anos pegues nele e digas assim “naquela altura saiu este álbum e eu curti”.
- A capa acaba por ser um retrato de família…
NBC- Na capa somos nós os quatro, eu e os meus irmãos. Tinha de ser assim, tinha de ser uma cena que me tivesse marcado em determinada altura e pudesse demonstrar, através da imagem e da audição, aquilo que eu sou. Se eu não consigo falar contigo todos os dias, posso demonstrar isso através do meu trabalho, da minha música.
- A música “Nova Escola Vs Velha Escola” que repartes com o Noscar, demonstra uma boa ligação entre os mais veteranos no movimento e os que apenas estão a surgir agora. Achas que na realidade estas duas “Escolas” estão de facto unidas ou realçam alguma distância?
NBC- Eu não vejo a distância nesse aspecto, eu vejo mais a distância no sentido em que existem referências diferentes. Concerteza um MC agora pode até ouvir Public Enemy, ou NWA, ou Mob Deep, mas já vai ouvir com um ouvido diferente do meu. É nesse aspecto. É estares no princípio a ver a cena acontecer e teres uma visão completamente diferente. Imagina que tens um filho e que, um dia, lhe vais mostrar o que viste: “olha, filho, isto aconteceu em determinada altura”. Ele vai ver e diz: “ya, realmente foi”. Mas não vai cair aquela lágrima que cai em ti, porque tu estiveste lá.
É basicamente isso, quer dizer, eles até podem curtir mas já sentem a cena um bocadinho mais (não digo fria mas) diferente.
- Pelo que te tens apercebido, como têm sido as reacções ao CD?
NBC- Não estou a par ainda. Fui ali em baixo, à KingSize, e está-se a vender, mas assim a reacção do público quero ver é em palco, quando tiver em cima do palco. Fiz alguns concertos antes do álbum sair, agora quero ver depois do álbum sair como é que as pessoas vão estar lá, como é que elas vão comparticipar comigo, porque eu trabalho muito em interactividade com o público. Na ZDB foi uma cena de interacção com o público mas essa interacção só pode ser maior quando as pessoas começarem a saber as letras e conhecer as músicas, essa interacção torna-se muito mais forte.
- Agora falando mais no geral. Qual a tua opinião sobre o actual cerco dos media em redor do hip-hop português? Será passageiro? O Hip-Hop está ou não na moda?
NBC- Está, o hip-hop está na moda, sem dúvida. Está completamente na moda, até mesmo para quem está no hip-hop, há muitos que estão lá por moda. Continua a ser sempre a mesma coisa, mas isso é como tudo na vida, as coisas vão e vêm. Agora, é a tal cena, daqui a mais uns anos vais ver quem está e quem não está.
Nós continuamos a estar cá, de uma forma ou de outra, talvez não como MC para sempre, porque isto tem um prazo, o tempo passa. Mas quero estar sempre dentro da cena hip-hop e tentar ajudar, sei lá, tentar ajudar os outros MC’s de alguma forma, nem que seja em palestras, ou em qualquer outra actividade. Moda para mim não é de certeza absoluta porque eu vivo isto de corpo e alma, sempre vivi, isto para mim é a minha segunda pele. Engloba muita coisa, isto é música, é educação (para mim, do meu ponto de vista), é uma forma de estar na vida, é reeducar as pessoas, é party time.. é tudo! O hip-hop tem tantas vertentes, tantas coisas boas, é só pegares naquilo que tu queres. É tipo uma livraria, vais e escolhes: “Que livro queres ler hoje?”. Tal! No hip-hop é a mesma coisa, precisas de “ler” algo mais party, ouves, queres ouvir uma cena mais conscience, ouves, queres ouvir Nelly, ouves...
- Para terminar, a habitual pergunta praxe. Há alguma mensagem final que queiras deixar?
NBC- Não quero deixar nenhuma mensagem final, quero deixar uma mensagem inicial que é: comecem hoje, vamos fazer como se hoje fosse o primeiro dia do mundo. Comecem hoje a repensar naquilo que já fizeram antes: “o que é que eu já fiz até hoje? Será que foi positivo? Será que realmente eu fiz bem? A nível musical, a nível pessoal, a nível do que quer que seja…” e vamos recomeçar, para que daqui para a frente as coisas possam acontecer.
No meu aspecto, a nível pessoal, já fiz uma retrospectiva do que fiz nestes dez anos e agora que fiz este álbum quero continuar a fazer mais álbuns e interagir com as pessoas. Chegar ao público, mostrar o meu trabalho, mostrar aquilo que eu sou de uma forma positiva porque é isso que eu sou.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net |