|
- Quem faz o quê na editora?
Martinêz - No comando estou eu, o investimento é meu. A estrutura da editora que existe aqui, que é a Borland, já tinha todo o trabalho que tem a ver com fotografia (da responsabilidade do Leonel) e na parte gráfica fui buscar o Chemega, que já conheço há muitos anos. Se for bom para nós também é bom para eles.
- Mesmo sem editora, vocês (MatoZoo) já apoiavam muitos grupos. Agora a Matarroa é uma forma de assumir com maior responsabilidade e publicamente o que já faziam antes?
Martinêz - Sim, mas é preciso separar as coisas. Enquanto MatoZoo, se precisares de um programa para fazer beats ou para perceber como se faz, continuas a ir ao mesmo sítio que é a casa do Kiko; nós ajudamos sempre que nos for possível. Enquanto Matarroa, se me vieres pedir para editar um disco, não o faço por favor! (risos) Mas a ideia é poder ajudar qualquer grupo com qualidade e, se acharmos suficiente, editamos. A ideia é a mesma, mas com princípios diferentes.
- No norte a Matarroa é a única editora dedicada ao hiphop. Enquanto que em Lisboa existiam várias editoras que agora se agruparam e formaram a Kombate... Qual será o tipo de relacionamento entre as editoras?
Martinêz - Separatismo é a última coisa que há-de haver. Não é por acaso que a primeira edição é de um gajo de Évora e outro do Canadá. Tudo o que eu gosto lá de baixo ficou na Kombate, e só por causa disso é que não tenho ninguém de Lisboa a trabalhar comigo, mas já tenho umas ideias. A relação é normal, conheço-os a todos, são todos meus amigos… Muito boa sorte para eles.
- Em entrevistas anteriormente dadas e por tudo o que se tem dito sobre a Matarroa, afirmaste várias vezes que procuras um som alternativo... Que significa som alternativo dentro do hiphop? Que características encaixam no perfil da editora?
Martinêz - Quando eu vejo a maior parte dos projectos aqui, é tudo muito cliché, muito convencional… As minhas referências musicais dentro do hiphop é a música que se fez há muitos anos atrás na América, e actualmente só me identifico com projectos alternativos vindos de editoras independentes de lá. Acho que cá a qualidade ainda não chega a isso, e o que nós procuramos são projectos que fujam ao normal. A forma como eu estou a ver os projectos não me está a agradar porque parece que se está a seguir uma linha que vem muito lá de fora. Então, nós vamos fazer as coisas de uma forma alternativa.
- Os primeiros lançamentos da editora vão ser Infamous & Vrz e Fidbek. Fala-nos um pouco sobre esses trabalhos.
Martinêz - O VRZ é um gajo que já conheço há muitos anos e que vive num fim-do-mundo que é Évora, onde estás condenado ao desconhecimento, mas é um gajo que tem muita qualidade e que realmente gosta disto e tem conhecimento sobre isto… e a união dele com o Infamous já vem de há muito tempo também. Conheci o Infamous através do Fidbek. Quando surgiu a editora, estava previsto o primeiro lançamento ser do Fidbek, mas como eles tinham o álbum pronto e sem editora, um dia encontramo-nos e a ideia surgiu naturalmente. Quanto ao álbum em si, gosto muito porque é muito pesado, não por ser barulhento, mas sim em termos de conteúdo.
O Fidbek é um bocado diferente porque tem um estilo muito próprio que chama a atenção. Ele escreve duma maneira muito abstracta e é ao mesmo tempo muito melódico. Às vezes parece que está a cantar e ao mesmo tempo está a dizer coisas que não captas à primeira e tens que parar e pensar para perceber. Às vezes parece que não faz sentido e eu gosto muito disso, e foi por isso que o convidamos para a minha banda. Acho que vai ser um álbum que vai entrar muito bem no ouvido das pessoas porque ele consegue não ser muito complicado de ouvir, mas ao mesmo tempo é um álbum com um conteúdo muito interessante.
O álbum do VRZ é todo produzido pelo Infamous e o do Fidbek pelo VRZ, e tem 2 ou 3 faixas do Kiko. O Fidbek e o VRZ encaixam muito bem um no outro, mas realmente têm estilos diferentes.
- Em relação às promoções que vão fazer na festa de lançamento do álbum do Infamous & Vrz que vai estar à venda por apenas 5€, e na net por 10€… isso significa um remar contra a maré. Que comentário fazes ao preço dos cd’s de hiphop nacional?
Martinêz - É a ideia que nós temos de dizer que os preços dos cd’s não têm lógica. Tu não consegues ir a uma loja e comprar cd’s por 10€, e eu não consigo distribuir cd’s por todo o país; tenho de ter alguém que me faça isso. Se conseguirmos vender pelo correio a 10€ mais o porte e se nos lançamentos conseguirmos fazer essas promoções, acho que já estamos a contribuir bastante. Embora possas ir à loja e custar 14 ou 15€, depende de quanto eles querem ganhar… mas se nos comprares a nós, compras a um preço que não compras outros cd’s, a não ser que seja de um gajo que o gravou em casa… A qualidade é igual a qualquer outra editora, desde o grafismo, edição e promoção, e a percentagem que damos ao artista é 2 ou 3 vezes superior do que qualquer outra editora. Basicamente é adaptar o mercado ao consumidor porque não faz sentido encontrarmos um cd a 18€ onde existem muitos intermediários a ganhar dinheiro.
Por Catarina Oliveira e Diogo Pimentel para H2T - www.h2tuga.net |