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No ringue para vencer
Numa altura em que o hip-hop português se encontra em plena ascensão, num campo repleto de movimentações estratégicas, cada passo bem conseguido é crucial e influente para o futuro desta cultura. Neste contexto, a criação de uma editora com as características da Kombate, não pode ser ignorada; Quanto mais não seja pela quantidade e diversidade de artistas que a sustentam e representam, a saber: Chullage, Cruzfader, Valete, Bomberjack, Darkface e Gilbert Sacadura.
Todos eles associados a pequenas editoras que, após o nascimento da Kombate, se vão poder dedicar apenas aos aspectos de produção, sendo agora as produtoras: Lisafonia, Encruzilhada, Horizontal, Foot Movin, Dream Flow e Construe Som.
O lema é “Hip Hop em boas mãos”, para que o movimento cresça fiel às suas raízes e sem quaisquer imposições à liberdade criativa dos artistas. Valete, em representação deste projecto, aceitou explicar-nos melhor as regras deste kombate. |
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- A vossa união na Kombate Records pode ser vista como uma “jogada de defesa”? Uma maneira de proteger o hip-hop?
Valete - É isso mesmo, a dica é anteciparmo-nos a todos os potenciais oportunistas, todos aqueles que não têm nada a ver com o movimento, que não percebem o que é esta essência, o espirito do hip-hop e querem agarrar nisto visando apenas o lucro e quantidades de dinheiro. Nós estamos aqui pelo amor, interessa-nos divulgar isto ao máximo, tentar mostrar ao público o que é o verdadeiro hip-hop e publicitar as cenas da melhor forma.
- Sendo resultante da fusão de pequenas editoras e vários artistas, não vai ser difícil gerir as diferentes ideias e manter o consenso?
Valete - Nem nos interessa que a Kombate seja um espaço consensual, tenha só uma cara, uma ideologia. É bom que as pessoas percebam que o hip-hop é um movimento heterogéneo, há muitas coisas diferentes: Bellini faz um estilo de rap, Chullage faz outro, Guardiões do Movimento Sagrado estão a fazer outro completamente diferente…são pessoas, estilos, grupos diferentes e cada um se exprime na música à sua maneira.
- Face ao recente surgimento de editoras como a Loop, a Matarroa ou a Kombate... que, quer se queira quer não, são concorrentes, a tendência será para rivalizarem ou para se unirem em prol do hip-hop?
Valete - Há sempre união. A Kombate, é uma associação de editoras, por isso o espírito é logo de união, depois, tens artistas da Loop a rimar no meu álbum, a rimar em álbuns de artistas da Kombate e vice-versa, gajos da Matarroa vão rimar com gajos da Kombate… A rivalidade não existe.
- O primeiro lançamento é uma compilação. Queres descrevê-la um pouco?
Valete - A compilação “1º Kombate” reúne quase todos os artistas da Kombate, creio que à excepção de Lweji (que é da Dream Flow) e Bambino, de resto está lá tudo. A maior parte dos temas são temas já conhecidos, faziam parte dos anteriores álbuns dos artistas, outros são singles que já estamos a antecipar o lançamento.
- Vão também reeditar “Educação Visual” e “1ª Jornada”. Porquê estes dois álbuns e não outros?
Valete - Porque foram álbuns que esgotaram rapidamente, numa altura em que a Kombate estava a ser formada. Então, em vez de terem o mesmo processo de distribuição, decidiu-se fazer a reedição já enquadrada na organização da Kombate, uma cena mais poderosa.
- Esses CD’s vão ser exactamente iguais aos anteriores?
Valete - O do Bellini (“1ª Jornada”) acho que vai ser exactamente igual, mas esse vai sair lá mais para o meio do verão. O “Educação Visual” é que vai ter umas faixas inéditas de vídeo, uma capa nova, que era mesmo preciso, e uma masterização mais cuidada.
- E qual vai ser o primeiro grande lançamento?
Valete - Em termos de nome o próximo lançamento vai ser o do Chullage (“Rapensar”), que é um artista que já tem um álbum que foi muito bem acolhido por toda a gente. Isto em termos de nome, porque este ano contamos ter muitos lançamentos: o NBC, o Bad Spirit, o Kacetado, o Tekilla, vamos ter uma compilação de poesia urbana, muita cena…
- A Kombate é uma editora limitada ao hip-hop ou põem a hipótese de explorar outras áreas?
Valete - Pomos a hipótese de explorar outras áreas, obviamente. Por exemplo, havia um artista na Kombate (por acaso já saiu), o Melo D e o álbum dele vinha com uma onda muito groove, muito funk, que são as cenas que o gajo curte, sempre com fusões de hip-hop naturalmente. Estamos abertos a tudo, a tudo mesmo.
- E quais pensam vir a ser as vossas maiores dificuldades?
Valete - Promoção. Agora estou a dar-te esta entrevista porque és colaborador da Raio X e estás ligado ao movimento hip-hop, mas isso não acontece em nenhum outro meio de comunicação social, em nenhum órgão de informação. Eles estão distantes do hip-hop, odeiam o hip-hop, custa-lhes fazer uma review de um álbum de hip-hop, e quando fazem parece que estão a ser obrigados, nem falam das letras dos rappers, ficam só a falar dos beats. O hip-hop só vai explodir na comunicação social daqui a 20 anos, quando estes jovens que cresceram com o hip-hop ocuparem esses lugares.
- Pretendem receber maquetes?
Valete - Sim, sim. Já temos recebido algumas, mas queremos muitas mais! A dica é mesmo apostar em todo o people que tem talento, editar, mostrar ao público. Para não acontecer o que já aconteceu antes desta explosão do hip-hop, muitos talentos ficaram aí escondidos, não puderam lançar álbuns e agora já desistiram do hip-hop. Para isso não acontecer mais, o ideal é dar o espaço a toda a gente.
- Queres acrescentar algo mais?
Valete - Sim, há dicas.Primeiro é para todo o people do movimento hip-hop perceber que esta é a via - a independência. O people que curte hip-hop (não precisam de ser rappers, basta serem apaixonados por esta cultura) tem de começar a pegar no negócio hip-hop, fazer revistas, programas de rádio, sites, organizar concertos, tudo! Mas tem de ser people do hip-hop a fazer isto, não podem ser gajos capitalistas. Niggas querem fazer o seu álbum, organizem-se, façam uma união, façam uma editora, álbuns de edição de autor.
Não dêem nada a essas multinacionais, a dica é mesmo essa.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net |