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Entrevistas
H2T - HipHop TugaNo Stress Records (com Boss AC e Gutto) - Março/2003

No Stress Records (com Boss AC e Gutto)

Unidos para o bem e para o mal

Gutto e Boss AC são veteranos no hip-hop nacional. Cada um com a sua história, o seu projecto, mas ambos eternamente associados à primeira fila de MC’s a saltar para o grande público em 94, com a colectânea “Rapública”. Gutto ingressava então os Black Company, com os quais editou posteriormente “Geração Rasca” (95) e “Filhos da Rua” (97). Boss AC, em parceria com Q-Pid, criou o seu tão badalado disco de estreia, “Mandachuva” (98).
  Sucedem-se mil e uma aventuras musicais, com destaque para a elaboração de “TPC- Sessões de Hip-Hop Vol.1” (em 2000) ou, mais recentemente a produção do genérico para o mediático programa Masterplan (em Portugal). E, sem darmos conta, já estamos a falar da NoStress, a empresa de produções na qual Gutto e Boss AC, reúnem todos os esforços. “Private Show” e “Rimar Contra A Maré” são as mais recentes apostas, ou seja, os respectivos álbuns a solo, editados no final de 2002 com os quais se deseja e adivinha a merecida afirmação no mercado nacional. Sem stress.

- Como era antes do “Rapública”?
  Boss AC - Antes do “Rapública” havia um movimento não organizado mas bastante mais saudável do que é hoje, pelo menos falo por mim. Nessa altura, quando nos encontrava-mos no Cais do Sodré a fazer os nossos freestyles e tínhamos as nossas festinhas, estávamos longe de pensar que passados dez ou onze anos as coisas estariam onde estão. Mas já havia um movimento. O único que já tinha lançado nessa altura era o General D, ele era quase o God Father, o padrinho disto tudo.
  Gutto – Havia vários, mas o General D era o que estava mais avançado.

  - O que representou o “Rapública”?
  Gutto – A porta de entrada…
  Boss AC - O “Rapública” é um marco incontornável. Já se disse tanta coisa sobre o “Rapública”, já se falou bem, já se falou mal, mas eu acho que para o bem e para o mal não dá para falar de rap em Portugal sem falar no “Rapública”.
  Gutto – Agora, o que há a dizer é só bem, o que há de mau o tempo apaga.

- Que é feito dos outros elementos que vos acompanhavam? Q-Pid, Makkas, Dj KJB… eles ainda estão no meio musical?
  Boss AC - Cada um seguiu a sua live. Acho que nós somos os mais teimosos, continuamos a acreditar nisto.
  Gutto – Quer dizer, nós temos de fazer aqui a diferença entre música a nível profissional e música em casa, por brincadeira. Neste momento os únicos que estão a fazer da música a sua vida, como profissão, somos nós dois. Os outros estão a viver a sua vida e a fazer coisas diferentes. Podem continuar a fazer os seus projectos em casa mas a nível profissional ainda não têm nenhum projecto.

- Então, neste momento, vocês dedicam-se à música a 100%?
  Boss AC - Novas ordens…
  Gutto – 100% mesmo. Para o bem e para o mal.

- Como surgiu a ideia de se juntarem e criarem a No Stress Records?
  Boss AC - Não surgiu ideia, foi espontâneo. Nós já nos conhecemos há muito tempo. Na altura do “Nadar”, Black Company teve montes de espectáculos e, como tínhamos o mesmo manager, eu fazia as primeiras partes. Entretanto, eu pertencia à associação Sons da Lusofonia, fazia espectáculos como convidado e um dia o Carlos Martins perguntou-me se havia outras pessoas que poderiam eventualmente chamar… chamei o Gutto, fizemos um espectáculo, tivemos um convite para fazer workshops. Depois eu separei-me do Q-Pid, Black Company desmembrou-se também, começámos a estar cada vez mais juntos, os interesses são os mesmos e as coisas aconteceram naturalmente. Não houve um momento tipo: “dia X às X horas as coisas…”, não. Foi espontâneo, foi acontecendo.

- O que faz verdadeiramente a No Stress?
  Gutto – A No Stress é produtora, produz. Nós montámos a empresa com várias possíveis vertentes. Potencialmente pode ser editora, pode produzir, pode comercializar música, mas na prática o que nós fazemos é produzir, produção.

- Trabalhos que a No Stress já tenha realizado?
  Boss AC - O TPC, as Gémeas, o “Manda Chuva”, SSP, Mess, agora o “Private Show” de Gutto, o “Rimar Contra A Maré”, e outros trabalhos. Estes são os álbuns inteiros, mas temos feito outras coisas, músicas pontuais, coisas que não foram editadas. Fizemos por exemplo o tema “Lena” para a banda sonora de um filme espanhol também chamado “Lena”, tema esse que agora saiu no meu álbum.

- A NoStress tem um estilo ou uma área de música fixa ou preferida?
  Boss AC - O epicentro é sempre o hip-hop e andamos à volta dele, quer seja para o r&b, para a dance music, para o pop…
  Gutto – Se bem que a No Stress já tenha produzido um álbum de música africana…
  Boss AC - É verdade, fizemos também um álbum de musica africana, mas mesmo assim muito pouco convencional, dá para ver lá a influência do hip-hop. Todo o tipo de música que fizemos tratamos como hip-hop, o “modus operandi” é o mesmo.

- Em termos de produção, o hip-hop requer um tratamento muito específico, muito diferente dos outros géneros de música?
  Gutto – Os entendidos com a linguagem dizem que é uma “estética”, eu não sei o que isso é. Mas tem uma sonoridade própria que é preciso conhecer e é preciso dominar senão não se chega lá. É evidente que uma pessoa que esteja habituada a fazer rock e heavy metal não tem a mesma facilidade em produzir hip-hop. Mecanicamente até é capaz de o fazer, mas não há-de soar a mesma coisa…
  Boss AC - Vai faltar a essência. O que não quer dizer que de hoje para amanhã a gente não faça um álbum de rock. Nós não estamos aqui a traçar nada...
  Gutto – Era o que eu ia dizer. Uma das nossas ideias é fazer projectos que misturem rock com hip-hop, reagge … nós vamos a todas, sempre com base no hip-hop mas vamos a todas.

- Sentiram essas dificuldades nos vossos anteriores álbuns?
  Gutto – Nos primeiros álbuns nós tínhamos sempre participações. Eu por exemplo, com os Black Company, no primeiro álbum, tive dois produtores (o Tó Ricciardi e o André Roquete) que vinham da área de dança mas que tinham mais experiência de estúdio e a nível de produção do que nós. Aí tivemos também um misturador de Inglaterra. No segundo álbum tivemos um de França… e com essas pessoas é que nós, com atenção, fomos ganhando experiência de estúdio. Só a partir do nosso segundo álbum e do primeiro de Boss AC (também já tínhamos o “Rapública”) é que começámos a ter confiança para produzir os nossos trabalhos sozinhos.

- Foi importante o crescimento e o interesse de músicos na área do hip-hop, que agora, tal como vocês, criaram pequenas produtoras/editoras independentes que apoiam novos projectos? Está assegurado o hip-hop português?
  Boss AC - Não sei se foi, vamos ver é se foi…
  Gutto – Porque a coisa está a acontecer agora, o futuro promete.
  Boss AC - Mas é sempre bom, estou completamente de acordo, o futuro é por aí. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé.
  Gutto – A questão é que o músico hoje em dia vive rodeado de parasitas, que eles chamam a indústria, seja editoras, seja managers, seja agentes, é toda a gente a comer daquela pessoa à qual Deus deu talento para fazer música. E o facto dos músicos conseguirem editar e fazer as suas coisas, ter as suas editoras e o seu estúdio em casa, retira um bocado o poder a esses parasitas que estão à volta, e devolve-o outra vez ao músico, para dominar a sua obra, fazer o que quer. Dantes o músico podia criar em casa mas se houvesse uma editora que não gostasse não se ouvia…e agora não, quer goste quer não goste está lançado.
  Boss AC - E é preciso dar prop’s à revolução industrial e digital também. Os tempos agora são outros, hoje em dia tu com um computador consegues ter no teu quarto a brincar meios que há 10 anos atrás só estavam ao dispor de alguns artistas, e com orçamentos mesmo…
  Gutto – A verdade é que agora num computador tens material que tinhas num estúdio cheio de máquinas e máquinas.
  Boss AC - A pagar um balúrdio por uma hora de estúdio…

- Mais artistas que estejam alinhados na No Stress para novos trabalhos?
  Gutto – Nós agora estamos a formar um núcleo de músicos que trabalham sempre connosco, desde guitarristas a teclistas, a vocals… e a No Stress, como não funciona como editora não tem previsão dos trabalhos que vai fazer nos anos a seguir. Mas temos pedidos de produções, e nesse sentido temos previsto o segundo álbum de Mess, SSP, Gutto, o primeiro de Gutto & AC, o terceiro de Boss AC… ainda há muita coisa para fazer.
  Boss AC - E há ainda outros que a gente não pode ainda dizer.

- Objectivos para a No Stress?
  Gutto – Nós não estamos a sonhar muito alto, nem muito longe, estamos a funcionar mais a curto e a médio prazo porque isto da música é uma incógnita. Mas o objectivo neste momento da No Stress é gravar os projectos que tem agora em vista, formar o seu estúdio e começar a editar os próprios discos.
  Boss AC - O objectivo primordial é contas pagas…(risos) … pagar as contas e fazer música que é o que nós gostamos. O resto vem por acréscimo.

- A vossa união na No Stress faz com que nestes dois álbuns existam participações recíprocas. Os álbuns foram feitos um pouco em conjunto?
  Boss AC - Foram, são sempre… agora é inevitável que seja.
  Gutto – Qualquer coisa que a gente faça normalmente é em conjunto. Quando um está menos disposto o outro dá uma força, quando há menos inspiração de um lado o outro ajuda, dá uma ideia. É uma forma de trabalhar que nós já fixamos e agora é difícil deixar… é mesmo natural…
  Boss AC - Não é uma coisa forçada…
  Gutto – Não é uma coisa forçada, as coisas acontecem naturalmente.

- Agora falando do “Private Show”, o primeiro trabalho de Gutto a solo. É um álbum essencialmente r&b. Como surge esta mudança?
  Gutto – Não é uma questão de surgir, é uma questão de crescer, porque ela já estava lá, as influências estavam lá. O r&b, pelo menos na minha opinião, também faz parte da cultura hip-hop, e quem começa a ouvir hip-hop quase de certeza vai começar a viver o r&b também, porque as duas coisas estão ligadas, e hoje em dia cada vez mais. Foi apenas uma questão de direccionar um bocado mais para o r&b e menos para o hip-hop… se bem que a maneira de funcionar e a forma de encarar a tal “estética” é a mesma.

- É o primeiro projecto do género em português. A ideia também foi explorar esta nova área?
  Gutto – Se queres por dessa forma… mas não é uma questão de explorar essa área. Foi uma questão de gosto e de vontade de experimentar coisas novas. E mesmo a nível de produção foi um desafio que nós tivemos, porque não é a mesma coisa produzir hip-hop e produzir r&b, é muito mais complicado e requer muito mais atenção a determinados pormenores a nível de instrumental e a nível de voz e tudo o mais.

- E como têm sido as reacções?
  Gutto – As reacções… isso eu faço sempre a distinção entre a reacção da indústria e a reacção do público. A reacção do público tem sido excelente, não podia ser melhor. Do resto já não falo.
  Boss AC - Digamos que se a reacção do público fosse proporcional às vendas a gente agora estava a andar aí de avião a jacto, pelo ar… (risos)
  Gutto – A nossa preocupação é com o público. O resto não interessa.

- O álbum demorou muito tempo a sair, houve dificuldades?
  Gutto – Demorou muito tempo e houve muitas dificuldades. Exactamente porque não há uma história de r&b, e as pessoas não estão habituadas a ouvir o r&b, e as editoras não estão habituadas a editar aquele estilo de música, e não estão habituadas a ouvir porque não compreendem, não conhecem a linguagem. E há muita dificuldade, isto foi apenas o princípio. Acredito que o próximo álbum de Gutto seja melhor recebido porque as pessoa já vão estar melhor preparadas, mais habituadas a ouvir aquele estilo de música.

- Foi apenas uma experiência ou é para continuar?
  Gutto - É para continuar. Também porque eu agora não vou andar aí a saltar tipo saltimbanco… (risos) o próximo álbum era reagge e depois era heavy metal. Não, fazer r&b foi uma decisão consciente e é para continuar, até porque uma pessoa tem funções quer ao nível da produção, quer na forma de cantar, quer a nível da voz, e o artista quer mostrar essa evolução às pessoas.

- Falando sobre “Rimar Contra A Maré”, é um álbum hip-hop mas tem temas muito variados, em termos de som e conteúdo. Já o “Manda Chuva” era um pouco assim… é esta a tua forma de fazer música? Um estilo “open mind”, muito livre?
  Boss AC - Sim, sou “open mind”, mas permite-me que discorde, eu acho que este álbum é muito mais coerente do que o “Manda Chuva” em termos de estilos. Essa é uma das perguntas que as pessoas me fazem sempre, mas creio que não tem razão de ser, porque o hip-hop no fundo é isto tudo, é o aglomerado, é a reciclagem, o aproveitar de cenas, e se não é mais no caso português é porque 99% dos artistas do hip-hop em Portugal o vivem com barreiras, com preconceitos: “água só pode ser do luso, serra da estrela já não é hip-hop, café só se fosse sical, se for buondi já não…”, estás a perceber? E nós não vivemos as cenas desta maneira, nós temos a nossa maneira de estar, essencialmente gostamos de música, e se gostamos de uma influência seja do que for, vamos metê-la na nossa música sem problemas nenhuns.
O “Rimar Contra A Maré” inevitavelmente é um álbum 100% hip-hop mas não deixa de ter influência de África porque tem samples de Cabo Verde, de Angola, tem outros de música clássica, tem guitarra acústica, quer dizer… é a nossa forma de estar.
  Gutto – Eu acho que as pessoas perderam de vista o verdadeiro significado do que é música. Música é para transmitir emoções, para criar emoções, as pessoas ouvirem e transmitirem emoções. E dentro do hip-hop, o nosso interesse é transmitir as emoções através da música, quer seja com influências de África, das Caraíbas, dos Estados Unidos, seja como for… é música! Desde que soe bem e que transmita as emoções que nos dão prazer a gente está lá.

- É verdade que o “Manda Chuva” esteve para se chamar “Rimar Contra A Maré”?
  Boss AC - É verdade sim.

- Como conheceste o Troy Hightower, um ilustre produtor americano e como surge a sua colaboração nos teus álbuns?
  Boss AC - A colaboração foi através da editora. Na altura, quando assinei com a NorteSul, uma das cláusulas por assim dizer, era que seria feito a sério. E quando digo a sério é com alguém mesmo do hip-hop, porque teres uma pessoa habituada a trabalhar com o rock ou com outro estilo de música nunca vai ser a cena a sério. Na altura até tinha outro nome em vista, um ou dois, pessoal com currículo, com experiência nesta área, mas como ele já tinha trabalhado com os Mind da Gap, na altura, era muito mais fácil o contacto porque já o conheciam e era muito mais simples. Mandaram-lhe a minha demo, ele gostou, e o facto dele ter gostado também fez com que as coisas se apressassem, porque é muito mais simples trabalhar com alguém que entende o que tu fazes e o que tu gostas, e o resto é história… aconteceu. Ficámos amigos, ainda hoje nos correspondemos e ele voltou a fazer duas músicas neste álbum, não tanto pela questão de não ter confiança em nós mas sim por, como é que eu hei-de dizer… para não criar o laço. Agora quase que fazemos “concorrência”. É óbvio que nós estamos em níveis diferentes mas agora já fazemos o que ele faz. Não temos a experiência que ele tem mas já misturamos também…
  Gutto – E creio que neste álbum se vê que a diferença não é grande, aliás, quem ouvir o álbum todo, se não ler, não vai conseguir distinguir.
  Boss AC - Ele próprio disse isso. Eu mandei-lhe o álbum depois de pronto e ele, o que me perguntou foi “então mas, para que é que quiseste que eu misturasse as músicas?” e isso para mim é o maior elogio que pode haver, porque foi a primeira pessoa com quem eu trabalhei… e estamos a falar de uma pessoa que está dentro do hip-hop a sério, qualquer nome que te ocorra ele trabalhou, desde Saian Supa Crew, De La Soul, Redman, a Jenifer Lopez… vão ao site dele e vão ver ali nomes que nunca mais acabam.

- Já agora, sabes se ele conhece e tem alguma opinião do hip-hop que se faz por cá?
  Boss AC - A opinião que ele tem, obviamente há-de ser pelo que conhece de mim e pelo que conhece de Mind da Gap. Conhece também Gutto, porque eu logo depois do álbum estar pronto mandei-lhe e ele ficou bastante surpreso. É sempre bom, é óbvio que nós gostamos que qualquer pessoa nos dê os parabéns, mas quando um Troy diz “isto está bom e tem qualidade” é porque está mesmo bom. E ele gostou, apesar de dizer que não percebe uma palavra, mas está lá a essência, dá para notar.

- Em termos de letras, abordas vários problemas sociais, mas também tens temas onde te expões um pouco mais e falas abertamente de fases mais negativas da tua vida. Sentes-te à vontade com esse exposição?
  Boss AC - Há três ou quatro temas que foram escritos para mim, não foram escritos a pensar num álbum, não foram escritos a pensar nas outras pessoas ouvirem, exactamente por isso, por serem tão pessoais. No fundo estás-te mesmo a expor não é? Mas por outro lado acho que essa pode ser uma força, quando tu reconheces as tuas fraquezas se calhar é por aí que te tornas mais forte. E ainda bem que o fiz porque, uma das razões, penso eu, que o álbum está a ser tão bem aceite é exactamente por isso, porque falo de problemas do dia a dia, que qualquer pessoa tem, não tens que ser do hip-hop para te identificares com o que eu digo, toda a gente passa por problemas nas suas relações, toda a gente passa os problemas do banco a telefonar “as contas como é que é? “.
  Eu não quero deixar, nem quero virar as costas ao pessoal do hip-hop, mas a mim interessa-me também falar às pessoas, sejam do hip-hop sejam lá de onde for.
  Gutto – E acho que é inovador relativamente à corrente do hip-hop que se faz agora que é “eu estou muita bem, tenho grandes carros, tenho grandes casas, aí grandes anéis e grandes relógios” e aqui é exactamente o contrário… (risos) Um gajo não tem nada disso, uma pessoa tem que assumir que não tem nada disso.

- Essa é também uma das funções do MC, transmitir coragem?
  Boss AC - Eu acho que sim, o verdadeiro MC é ser real…
  Gutto – O próprio hip-hop
  Boss AC - é assim, as pessoas podem não gostar, como é obvio, estão no seu direito, mas ninguém nos pode acusar de não sermos sinceros porque mais sincero do que isto não sei… não vejo o que era ser mais sincero do que isto.
  Gutto – Mas acho que a própria força do hip-hop vem da realidade, vem do facto de vir de bairros onde a realidade nos entra pelos olhos e as pessoas sentirem necessidade de dizer aquilo que vivem.

- Fala-nos um pouco do DJ ZDC que te acompanha neste álbum.
  Boss AC - O DJ ZDC é uma pérola, um diamante em bruto que se está a lapidar aos poucos. Acho que o ZDC tem um grande futuro, é um jovem com muito talento. Por coincidência é discípulo do Soon, que era o nosso DJ (nosso, Black Company e Boss AC, no “Manda Chuva” e no “Filhos da Rua”), e apesar do ZDC ter relativamente pouco tempo como Dj, acho que cerca de dois ou três anos, não há a mínima dúvida que tem muito talento, é só uma questão de agora acompanhar.
É bem provável que a NoStress faça algum trabalho… isto é uma coisa para o ar, pode ser que façamos alguma coisa, se calhar um trabalho a solo dele. Nós queremos inovar e queremos fazer coisas diferentes, que tenham por base o hip-hop mas que não tenham de ser coisas “quadradas” e uma das pessoas com as quais provavelmente poderemos vir a trabalhar a solo será o ZDC.

- Voltando ao tema “Lena” que está presente no teu álbum mas, como disseste, foi feito para a banda sonora de um filme espanhol também de nome “Lena”. Como é que surgiu esta oportunidade?
  Boss AC - Aquilo foi uma cena assim muito estranha. Recebi um telefonema, de Espanha, a dizer que queriam que eu fizesse o tema principal do filme. E apanhou-me um bocado de surpresa, eu disse: “então mas, com tanto rap em espanha, tanta coisa…?”. E o realizador, que foi quem me telefonou, saiu-se com esta dica: “Aqui em Espanha há um monte de rappers mas são todos falsos.”. Não sei o que ele quis dizer com aquilo, mas levei como um elogio. Entretanto, fui a Madrid, tive a reunião com eles, acertámos as coisas, convidei o Gutto, escrevemos a música os dois, e no fim aquilo foi muito bem recebido, muito bem recebido mesmo. Nós inclusive, fomos a Espanha cantar e não tínhamos essa noção. Até podia ter sido muito mais bem recebido se tivesse havido o apoio da editora, se tivesse sido mesmo editado lá (porque saiu apenas na banda sonora do filme), se calhar, se tivessemos feito um “pressingzito” acho que aquilo poderia ter resultado, pelo menos pelo feedback que nós tivemos… vieram-nos perguntar se era verdade que a música estava em número um nos Estados Unidos…(risos) não sei onde é que saíram com essa, a verdade é que não negámos, nos Estados Unidos da Amadora…(risos).

- Falem um pouco dos temas que escolheram para vídeo-clip, e qual é a ideia?
  Gutto – Do “Private Show”, o vídeo-clip “Debaixo dos lençóis”, a ideia é não ter nenhuma ideia… (risos)… também por condições de budget, de orçamento. Nós sabíamos que se fossemos fazer um vídeo-clip com história, uma mini-história, ia sair um preço astronómico. Então a nossa preocupação foi mais a imagem, não há ali nenhuma história, é mais uma procura da imagem. Normalmente, se vês um vídeo na MTV sem ter o volume ligado, consegues distinguir que estilo de música é que está a passar, seja de rock, seja r&b, seja hip-hop, e era isso que nós queríamos fazer. Um vídeo-clip que, mesmo sem a pessoa ter o volume ligado, conseguisse perceber que aquilo que está ali a acontecer é um r&b.
  Boss AC - Quanto ao “Baza-Baza” foi a mesma coisa, o orçamento era limitado mas acho que conseguimos. Proporcionalmente ao que tínhamos para gastar acho que o resultado está bastante bom. É um vídeo-clip bem disposto no fundo, não tem lá grande história, somos nós a curtir, parte do vídeo-clip é um ensaio também.
   E agora, na semana passada, fomos gravar o segundo vídeo que é o “Dinero”, já está na fase de produção, vai ser em animação… quer dizer, só nós é que somos reais, tudo o resto é desenhado. Acho que vai ser um vídeo que, se ficar metade do que nós pensamos, vai ficar espectacular.

Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista "Raio X"

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