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- Para muitos o nome Guardiões do Movimento Sagrado é algo novo, mas na verdade vocês já se dedicam ao hip-hop há vários anos, não é?
Biggy - Eu comecei a curtir hip-hop quando saiu o “Rapública”, em 94. Cerca de 2 anos depois juntei um grupo, os “Afroblood”, mas o projecto não deu certo, durou apenas 3 anos. Passado alguns meses falei com o Dark, nós curtia-mos basicamente as mesmas coisas, fomos juntando ideias, projectos, e surgiram os Guardiões.
Darkface - Eu já curtia hip-hop americano, na altura era só aquela cena de Dr. Dre, Ice Cub, Ice-T, Public Enemy e aquela companhia toda. Em Portugal o hip-hop praticamente não existia. Acho que começou a haver mais interesse quando o Gabriel o Pensador lançou o primeiro álbum. E penso que na mesma semana que ele veio cá a Portugal, saiu a primeira colectânea portuguesa, o “Rapública”, e isso deu-nos mais pica, já que foi assim a primeira cena séria em Portugal. A partir daí foi seguir em frente… e por coincidência encontrei o Biggy, coincidência não, acho que foi o destino, formámos os Guardiões e seguimos.
- O DJ Link juntou-se aos guardiões apenas este ano, não foi? Já agora, resume-nos também o teu trajecto no hip-hop.
DJ Link - Sim, foi este ano. Eu até à dois anos atrás era DJ de techno, mas já curtia hip-hop. Depois basicamente foi só uma evolução até passar completamente para o hip-hop. Comecei a ir a concertos, a comprar discos de hip-hop e depois foi ficar fechado em casa e treinar bastante.
- A maioria das músicas deste primeiro CD já existiam ou fizeram-nas a partir do momento em que souberam da possibilidade de o lançar?
Darkface - Já existiam grande parte delas. Isto era já um projecto avançado porque, ao princípio, nunca pensámos em trabalhar com editora. Era para ser um lançamento independente mas, no meio da cena, já quase na parte final, houve um contacto com a Edel e eles mostraram-se dispostos a pegar no trabalho. Aí fizemos mais uma ou duas músicas novas. Mas o trabalho já estava todo ele elaborado antes de contar à Edel.
- Tiveram muitas dificuldades para elaborar este álbum? Foi complicado trabalhar em estúdio?
Biggy - Tivemos muitas dificuldades. Experiências de estúdio não tínhamos mesmo nada, entrámos em estúdio sozinhos. Mas contámos com o apoio do DJ Cruzfader, um dos primeiros com quem falámos e que aceitou logo ajudar, deu-nos beats e tudo o mais. É claro que o DJ Link, depois de ter entrado para o grupo, também esteve lá a cem por cento. E tivemos o apoio do Flip-Z que é um grande técnico de som e deu-nos muitas dicas para irmos evoluindo.
Mas houve muitas dificuldades, até mesmo no tempo que demorou, porque eu estive um bom tempo na tropa, o Dark teve um acidente e partiu uma perna…
- O trabalho de produção está repartido por 4 nomes, o DJ Cruzfader, Sam The Kid e DJ Link, havendo ainda um remix por Plaster (que é o Flip-Z), porquê a escolha destes nomes?
Darkface - A escolha não é por nada, aconteceu. Logo do princípio, uma das pessoas que nos deu grande apoio foi o Cruzfader, e era para ser ele a produzir o álbum todo. Só que depois ele sugeriu que era melhor variarmos um pouco os produtores, para o álbum ser mais versátil, não ter só um estilo. Então falámos com o Sam, um dos nomes da produção em Portugal, e ele logo disponibilizou um pouco do seu tempo, produziu 2 músicas no álbum. O Link, depois de entrarmos em contacto com ele, começou a produzir grandes cenas, e claro, tivemos que usar 2 ou 3 grandes beats do DJ Link, que depois começou a fazer parte da banda. O Flip-Z, além de fazer o remix, gravou o álbum todo, ele pode ser chamado o “super técnico de som”.
- Ao longo das faixas reúnem a participação de bastantes MC’s. Como surgem estas colaborações? Já tinham em mente os nomes a convidar, ou foram acrescentando à medida que o trabalho ia evoluindo?
Biggy - Já tínhamos em mente. O pessoal que entrou no álbum era pessoal que já conhecíamos de algum tempo, das festas, da rua, e são pessoas que nós curtimos em termos de flow e de mensagem. Falámos com essas pessoas e elas aceitaram. Algumas delas agora estão a fazer projectos próprios com participações nossas também, como P.M. ou Bad Spirit.
- Curiosamente têm muitas participações femininas. Foi uma espécie de “aposta” vossa?
Biggy - Também. Há muita gente aí que não aposta no movimento feminino e é mesmo contra o movimento feminino, mas nós não, nós achamos que há lugar para todos.
- Falem-nos um pouco sobre a capa do CD.
Darkface - Como no hip-hop existem as 4 vertentes, representadas pelo DJ, B-Boy, Writer e MC, então… já que o graffiti faz parte do movimento, deu-nos logo na ideia, porque não pôr um Graffiti na capa? Foi uma forma de expressar uma das vertentes no álbum. Tivemos o apoio do Colman que fez o gráfico todo, mesmo de propósito para o álbum. O Colman… já o conhecia há uns anos atrás, há um longo tempo. Nós encontrámo-nos aí uns meses antes de finalizar o trabalho, falámos sobre isso, ele propôs-se logo a fazer a cena e olha, está feito. O graffiti está exactamente no Vale das Amoreiras, numa das paredes do Centro Comercial Fontainhas na Baixa da Banheira.
- O álbum superou as vossas expectativas ou agora vêem que algo poderia ter ficado melhor?
Darkface - Quer dizer, se estivéssemos mais tempo a trabalhar no álbum ficaria melhor, porque quanto mais se trabalha num álbum, melhor fica. Nunca pensámos que as coisas fossem ser tão bem recebidas e até agora pode-se dizer que superou as expectativas, sem dúvida. Mas se tivessemos mais um tempinho e mais dinheiro para trabalhar acho que a cena ficaria um pouco melhor.
- Como tem sido a reacção do público?
Darkface - Foi óptima, até naquela situação no Porto. Ficámos surpreendidos porque nunca pensámos que íamos ser bem recebidos no Porto e que houvesse pessoas realmente interessadas em ouvir GMS. Muitos tinham comprado o CD e foram propositadamente para ouvir a música. O Porto foi óptimo.
Biggy - GMS é um grupo que apenas teve uma participação numa mixtape ("Espaço Dual", do DJ Psicopata) e o pessoal praticamente não nos conhecia. Nós estamos contentes com os concertos que temos feito depois do álbum, as reacções têm sido boas.
- Quais são as vossas previsões para 2003 no que diz respeito ao hip-hop nacional?
Darkface - Vamos ter mais evolução no hip-hop, vão sair mais cenas novas, cada vez com mais qualidade, acho que desta vez explode o hip-hop em Portugal.
DJ Link - Vai evoluir bastante, mas ainda não vai ser como queremos, ainda não vamos conseguir viver apenas com as guitas do hip-hop. Tem de começar a haver mais desenvolvimento também na parte do Djiing, pois ainda há muito pouca, está limitado. Tem que haver mais apoio aos novos talentos, criar cenas mesmo só para DJ’s. Tirando isso, acho que a parte de MC está bem trabalhada, há bons MC’s… é uma questão de tempo.
Biggy - A cena está a evoluir, está cada vez melhor, e em 2003 esperamos que haja também mais produtores, que é o que falta. Há aí bons produtores, mas são ainda poucos. E também mais damas no movimento. E que a mensagem continue, sempre positiva, sempre real.
- E para os Guardiões? Planos?
Darkface - Para 2003 temos em vista, se tudo correr bem em princípio de junho, lançar um colectânea que estamos a elaborar sobre a SIDA. Vai incluir vários MC’s, várias bandas, e será uma colectânea em que os lucros reverterão para uma instituição de luta contra a sida. É uma forma de mostrarmos que o hip-hop também é sério. No início do ano começam as gravações se tudo correr bem e, em principio, dia 1 de Junho estará aí o lançamento do projecto.
Estamos também a trabalhar no álbum do Bad Spirit, das Lweji, de Fundação, e na mixtape do DJ Link.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista "Raio X" |