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- Recuando no tempo, poderiam desvendar um pouco o que vos atraiu para o Hip-Hop, a maneira como se conheceram e surgiram os Mind Da Gap?
Presto - Em 92/93, quando nos conhecemos eram poucas as pessoas que gostavam de Hip-Hop na cidade do Porto, acabou por ser isso que nos uniu, o gosto pelo Hip-Hop. Conheci o Ace no estádio das Antas num concerto dos Marxman, um grupo de rap escocês se não me engano, pouco tempo depois o Serial estava interessado em conhecer pessoas que gostassem de Hip-Hop e entrou em contacto comigo. O Ace e eu tínhamos uma espécie de projecto que nunca chegou a arrancar, o Serial tinha 2 pratos e vinil, então decidimos juntar tudo, fizemos uns concertos experimentais que correram bastante bem e que serviram como angariação de fundos para material. Com o (material) que já tínhamos comprado e mais algum emprestado surgiu a primeira maquete dos Mind da Gap que enviamos para o programa de rádio do José Mariño e teve bastante aceitação, a partir daqui o resto é história...
- Voltando ao presente… está aí o novo álbum “Suspeitos do Costume”, o vosso quarto trabalho, que se destaca logo à partida por uma sonoridade bastante diferente. Como surge esta mudança?
Presto - Esta é uma questão que nos é posta regularmente sempre que lançamos um álbum novo.
Se há uma mudança, ela surge da mesma forma de todas as outras que marcam as diferenças entre os álbuns dos Mind da Gap. O que há é uma evolução constante no nosso trabalho, tem que haver senão ainda soávamos como o EP em 95. Neste álbum não criamos nada de diferente, antes pelo contrário, procuramos fazer o que sempre fizemos na nossa música: inovar sem perder o carisma, a personalidade e a identidade Mind da Gap, é este o ponto de partida para todas as mudanças.
- Neste trabalho abordam variados temas mas de uma forma comum e já habitual, isto é, tal como dizem na introdução do álbum a vossa missão é alertar consciências, “elevar a multidão, incentivar a insubmissão”. Consideras que esse é o papel principal do MC?
Presto - Consideramos que esse é um dos nossos papéis como MC´s dos Mind da Gap. Cada MC deve procurar encontrar o seu papel a desempenhar, nós já tivemos mais longe de encontrar o nosso, já temos um estilo reconhecido, o que não nos impede de o reinventar e reinterpretar em cada álbum que fazemos.
Achamos que as pessoas não devem impor barreiras a elas próprias, não tem que haver um modelo a seguir para o MC, apenas depende de cada um.
- Outra ideia que se destaca nas vossas letras é a importância de desmascarar a aparência e valorizar a essência. Achas que a maior projecção agora dada ao Hip-Hop nacional faz com que este princípio se comece a perder dentro do movimento?
Presto - O que é o movimento? São as pessoas que o formam e as acções que tomam. Estas pessoas definem o movimento, cabe a elas (a nós todos) mostrar da melhor forma que sabem, o como o Hip-Hop pode ser algo positivo, mais interessante e com mais conteúdo que as palhaçadas e bacoradas que vemos e lemos todos os dias na Mtv e em alguns jornais. Não sei se esse principio se está a perder dentro do movimento ou na vida social em geral acho é que não podemos deixar que nos “vendam” a perda da essência da mesma forma que nos “vendem” a glorificação da aparência.
- Sentimentos como indignação e raiva estão também patentes nas vossas mensagens, expressos de uma forma bem crua e directa. Utilizam a música como resposta a críticas e atitudes que consideram ofensivas?
Presto - Utilizamos a música como descompressão e como forma de expressão de tudo que nos passa pela cabeça, umas vezes são coisa boas outras vezes são coisas más. As pessoas podem ver-nos (ou melhor ouvir-nos) como uma barragem que de dois em dois anos larga uma corrente de palavras e sentimentos em cima delas.
- “...Dedicamos-te este poema (Invicta) és a personificação extrema da amizade, humildade, lealdade; Juro fidelidade para toda a eternidade...” (Suspeitos do Costume - Invicta)
A vossa relação com a cidade do Porto é assim tão forte como traduzem em “Invicta”?
Presto - Sem dúvida, devemos muito do que somos há cidade do Porto, como grupo e como pessoas. O Porto é muito especial para nós, é um ingrediente essencial na nossa música, se tivéssemos nascido noutro sítio qualquer podem ter a certeza que soaríamos totalmente diferentes.
- No tema “Kem São?” surgem vários MC’s convidados, todos eles de grupos de Hip-Hop do Norte ainda em ascensão (Dealema, Circuito Secreto, Triângulo Dourado e LCR). Queres destacar um pouco estas participações?
Presto - São todos MC’s com talento e que merecem ser ouvidos. É uma oportunidade para brilharem, ao mesmo tempo que é um grande orgulho rimar com eles, mostra-los a públicos que concerteza não teriam oportunidade para os escutar tão cedo. É já tradição haver participações nos álbuns de Mind da Gap de músicos cujo trabalho e talento admiramos, sendo “Suspeitos do Costume” não poderíamos deixar que este fugisse à regra.
- “Coalizão” é uma expressão que vocês têm vindo a utilizar desde 97, aquando do “Sem Cerimónias”, representa a vossa união a outros grupos e, desde então, tem vindo a ser ampliada. Podes resumir e sua origem e evolução?
Presto - A coalizão surgiu com a primeira participação dos Dealema nos discos dos Mind da Gap, em 97 no “Sem Cerimónias” como referiste. Ela representa a nossa união a grupos com os quais vamos fazendo música em conjunto mais ou menos regularmente e com os quais sentimos alguma afinidade musical e pessoal. Em 99 a Coalizão tornou-se Ibérica com os La Familia, de Vigo no “A Verdade” e agora no “Suspeitos do Costume” voltamos a contar com participações de elementos dos dois grupos tendo nós próprios várias participações em vários trabalhos e projectos dos Dealema e La Familia.
- Inseridos no panorama do Hip-Hop Nacional, onde a maioria dos grupos edita trabalhos de forma independente, sentem que (por ironia) são vocês os marginalizados pelo facto de estarem associados a uma editora?
Presto - Sentimos muito orgulho por termos influenciado o Hip-Hop nacional e por termos contribuído na sua evolução. De certa forma somos privilegiados por termos uma editora e management a trabalhar connosco, mas também sabemos que fizemos por isso e que andamos a abrir caminho para muita gente quando praticamente ninguém levava o Hip-Hop a sério em Portugal. Não nos sentimos marginalizados por isso, não temos culpa que as editoras, essas sim continuem a marginalizar as bandas de Hip-Hop - dá-nos uma enorme satisfação ver que as bandas não se deixam ficar “impávidas e serenas” com esta situação já que acabam por ser elas próprias a editar os seus discos.
- “...Todos os dias ponho os fones pró emprego a pé; Tenho que fazer o que tenho que fazer para manter; Sendo MC, o P ainda não consegue sobreviver; O microfone não basta, não brinda, a vinda da pasta...” (Suspeitos do Costume - Estilvs Clássicvs)
Ainda não é possível sobreviver à custa do Hip-Hop em Portugal?
Presto - Pela nossa experiência como músicos ainda é muito difícil, mas já deve haver quem consiga – muitas das vezes pessoas que nem estão directamente relacionadas com o “movimento”.
- Houve algo que tenha ficado por dizer, queres deixar uma mensagem final?
Presto - Acho que não, preferimos deixar as nossas mensagens na música, portanto o melhor a fazer é mesmo escutá-la. Desfrutem e obrigado.
Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista "Raio X" |