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Inicialmente marcado para a Praça da Casa da Música, o concerto acabou por se deslocar para a Sala Suggia. Não se conseguiu obter qualquer esclarecimento para a súbita mudança de planos. Talvez o frio que se fazia sentir contribuísse para a transferência. Mas as surpresas não se ficaram por aqui. Ainda a audiência estava a aplaudir os músicos pela sua entrada em palco e o mestre-de-cerimónias e violinista Miki, responsável pela coordenação e arranjos, anunciava duas más notícias. Falou que Sam The Kid não estaria presente. Ono idem. Porém, parece que não fomos os únicos a pensar que isso seria uma manobra de diversão para que, mais tarde, Sam aparecesse de surpresa e levasse ao rubro as muitas pessoas que certamente alimentavam a curiosidade de ver o seu talento posto ali em prática. Só mais para o fim do concerto é que nos consciencializámos que o senhor do “quarto mágico” não estava mesmo na Casa da Música! Nem ele nem Ono. Miki fora honesto logo no anúncio inicial que fizera. Posteriormente, soube-se ainda que a Casa da Música anunciara na sua página na net, horas antes do concerto, que Sam The Kid não iria estar presente por se encontrar hospitalizado.

Este espectáculo era uma boa prova de fogo para testar se as cabeças do Hip Hop estavam dispostas a aderir à música sinfónica. Realmente quem tem por hábito escutar somente rap por certo que terá sentido um pouco o impacto de ouvir ao vivo uma orquestra, que estava sendo acompanhada também por uma banda. A Orquestra Nacional do Porto dirigida pelo maestro Alexander Shelley proporcionou uma verdadeira limpeza à alma de todos os ouvintes. A purificação processava-se pela subtileza de sons que inicialmente foram sendo tocados, num verdadeiro oceano pacífico de notas musicais. Os músicos estiveram irrepreensíveis. O seu desempenho foi de deixar a boca aberta.
Quem pensava, como nós, que se iria assistir a um puro interseccionamento entre a música clássica e o Hip Hop durante todo o espectáculo enganou-se rotundamente. A Orquestra Nacional do Porto foi fazendo o seu espectáculo à parte e espaçadamente entravam as vozes de serviço. Miki foi entoando temas seus sempre muito bem acompanhado pelo precioso auxílio vocal de Dino, Marta Ren (que nem constava da programação!) e uma beldade que encantou tudo e todos pelos seus atributos vocais chamada Larissa Sirah. New Max seguiu-se a Miki e foi bastante aclamado, pese embora ter tido uma escassa participação neste concerto. Ele que não sendo propriamente um rapper talvez tenha atraído a atenção de Miki para participar no Hip Hop Sinfónico fundamentalmente pelas suas maravilhosas produções musicais. Competia a NBC, de traje cerimonial, arrebatar de seguida o público portuense, que sempre lhe dispensa um fervoroso apoio.
E Natural Black Colour foi simplesmente soberbo! A entrega do costume, o poder de sempre e uma grande alma na interpretação das canções. A orquestra deu-lhe o tom e ele fez uma viagem até ao “Afro-Disíaco”, recordando “Pela Arte”. Maravilhoso. Os momentos em que o público mais vibrou foi quando NBC estava em palco. Deve referir-se que talvez a Orquestra Nacional do Porto tenha tido mais tempo de antena tocando sozinha do que acompanhando os rappers. Miki também teve bastante tempo para dar a conhecer o seu trabalho e saudou-se a parceria que fez com NBC, em que cada um rimou sobre o seu país.
O concerto foi grande, durou cerca de duas horas e meia, descontando-se um pequeno intervalo. No reatamento destaque para um arranjo que a orquestra fez para o tema “Ready or Not” dos The Fugees. Miki e a tal talentosíssima e belíssima alemã Larissa Sirah, que deliciou a sala, prestaram-se na substituição das vozes do grupo norte-americano e receberam uma enorme saudação no fim da actuação pela magnífica interpretação. Mais à frente, começa-se a ouvir brotar dos múltiplos instrumentos orquestrais uma sonoridade muito familiar. Facilmente conectada a Sam The Kid pois era o arranjo do seu instrumental “A Partir de Agora”! Seria ali que ele entraria de rompante em palco para levar ao rubro a Casa da Música? Infelizmente não! Foi a NBC que coube a responsabilidade de projectar as rimas. Fantástica a performance da Orquestra Nacional do Porto, da banda e de NBC. Ali estava a junção de tudo. Pena não ter havido mais destaques como este, em que verdadeiramente a orquestra se disponibilizou para tocar uma criação engendrada por um produtor de Hip Hop luso. NBC parabenizou Sam The Kid, no final da canção. Pouco tempo depois, deu-se o final do espectáculo. Os artistas foram fortemente saudados, entraram e saíram várias vezes do palco e a plateia aplaudiu-os com entusiasmo e veemência.

O Hip Hop Sinfónico foi óptimo pelo momento histórico que se viveu, em que houve a fusão entre a música clássica e o Hip Hop. Provavelmente o concerto ficou um pouco àquem das expectativas para quem imaginou que seria feito à semelhança de “Late Orchestration” de Kanye West. Fundamentalmente, assistiu-se no dia 17 de Julho de 2009, na Casa da Música, a um espectáculo que reuniu artistas de duas áreas musicais diferentes e que, de uma forma revezada, mostraram os seus rasgos de genialidade. Ora só a orquestra, ora os rappers e cantores com o apoio da banda e da orquestra. A iniciativa foi boa pelo aproximar de dois mundos musicais que muita gente pensaria antagónicos mas que afinal podem perfeita e magistralmente coabitar no mesmo espaço. Certamente que serviu para alargar mentalidades e educar consciências a muita gente. Sem querermos parecer injustos com qualquer artista que pisou aquele palco, devemos fazer a ressalva de que provavelmente aquela entusiasmante noite de Hip Hop Sinfónico poderia ser ainda mais memorável, ainda mais extraordinária, se se pudesse ter contado com a presença, anunciada em cartaz, do prodigioso... Sam The Kid! Parabéns a todos os que contribuíram para o estabelecimento de mais um marco histórico para o Hip Hop português e para todos os que decidiram testemunhar esse feito também para a música nacional.
Por Sempei e Druco para H2T - www.h2tuga.net |