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H2T - HipHop TugaCineteatro D. João V, Damaia (11/10/2002) - Guardiões do Subsolo e B-boy Storm (GER)

Hip-Hop na Damaia

Sexta-feira, nove e meia da noite, já há grande concentração frente ao Cine Teatro D. João V, na Damaia. O propósito pertence ao hip-hop: Guardiões do Subsolo a representar o rap nacional e Storm, um b-boy alemão, considerado por muitos como “o maior” no breakdance. O evento foi gratuito, organizado pelo Goethe Institut, e teve o apoio da Câmara Municipal da Amadora.

Os atrasos do costume fazem a sessão começar um pouco mais tarde. As luzes da sala apagam, o palco escuro, sem qualquer cenário, é iluminado de forma intermitente ao som de sirenes. O eco estende-se sobre uma batida grave, o ambiente é de suspense, ouvem-se frases soltas em tom de aviso: “…Isto não é uma brincadeira, é melhor começares a levar a sério…”, “…O hip-hop vem da rua, está controlado e protegido…” (um interlúdio do CD “Códigos de Rua”). RimaVisa e Lord O Maf surgem em palco e imediatamente dedicam “pra todos vocês” ao público, que acorda e retribui com aquela energia inicial. Os Guardiões do Subsolo entraram bem, sem grandes exuberâncias souberam cativar. Nos intervalos das músicas vão conversando com o público, Lord O Maf faz questão de dar sempre umas dicas sobre o tema que se segue e normalmente obtém respostas e aplausos. “Códigos de Rua” é o nome do álbum, editado em Setembro, ao qual os Guardiões do Subsolo vão repescando temas como “Racismo = Egoísmo”, “Droga nas cidades”, “Amor, sentimento de respeito”, ou “Eu sei que tenho um amigo”. A música é apelativa e a prestação dos dois MCs teve o mérito de conseguir animar uma plateia que não estava próxima como é costume (a sala é grande, disposta em anfiteatro) e se encontrava dispersa pelos inúmeros lugares. No fim, deixam um simples “até à próxima”, contra vontade de muitos que pedem por “mais uma” e de alguém que grita insistentemente “freestyle!”... mas não há mais. As luzes acendem para um intervalo de 20 minutos porque a estrela da noite precisa de preparar o palco.

  Niels “Storm” Robitzky, um dos mais importantes b-boys da Europa, vem apresentar “Solo for Two” – uma sessão de breakdance, exímia ao nível de técnica, cronometragem e criatividade. No palco está agora um grande ecrã onde é projectada uma gravação. Lê-se “You are in harmony with yourself” e surge um b-boy na tela (o próprio Storm) enquanto o seu original sobe ao palco. Estão mesmo ao lado um do outro e começam por dançar em sincronia. Rapidamente passam para uma fase de desafio, o mote é “You fight yourself” , e entram num jogo de imitação “à vez”, onde os movimentos vão crescendo de complexidade. O público, reage sempre que vê algo de mais extraordinário, muitos sorrisos, muitas palmas. Storm tem tudo planeado ao pormenor, no ecrã a gravação nunca pára. A imagem é agora uma auto-estrada, a música acelera, os carros também, no palco o b-boy finge agarrar-se a um deles e vai a alta velocidade, como se estivesse a fazer ski numa pista de alcatrão, a um ritmo alucinante. Outra cena no ecrã: o cimo de um prédio. O b-boy em palco parece mesmo estar na imagem, espreita para baixo e a altitude assusta, de repente deixa-se cair, os andares passam no ecrã até que o b-boy se atira para o chão do palco, ou seja, consegue segurar-se a uma janela. Incrível, continua a fazer breakdance como se estivesse pendurado! O público faz-se ouvir. O b-boy solta-se e estatela-se de costas, supostamente morreu, fica deitado no palco, de braços e pernas estendidas e a sua alma eleva-se no ecrã… mas não, isto não acaba aqui. O telemóvel vai tocar, o b-boy acorda, levanta-se e atende, ao fundo vê-se o seu sósia numa das várias cabines telefónicas, mas conversa é curta porque o b-boy em palco entra num estado eléctrico, como se tivesse levado um choque e a dança torna-se robotizada, é fantástico a maneira como Storm se movimenta. Segue-se algo tecnicamente difícil, aquilo que no breakdance tem o nome de “headspin”; Primeiro o b-boy do ecrã, em várias demonstrações, e depois a repetição em directo, no palco. De cabeça no chão, um prolongado movimento rotativo fazendo efeito com as pernas, cria entusiasmo no público que aplaude de pé este final. Storm é um rei no breakdance, não há dúvidas.

E muito fica por contar, estes são apenas alguns dos momentos retidos na memória. Mas há ainda uma última surpresa reservada no ecrã. Algures num túnel de Metro, Storm aparece a caminhar em direcção à câmara, passando pelo meio das pessoas, descendo, subindo escadas e, sempre que tem espaço, faz algumas acrobacias. Que tem isto de especial? É que as outras pessoas aparecem a andar para trás, isto é, a fita é passada ao contrário e na realidade Storm é que faz todo o percurso de costas, cerca de 5 minutos sem cortes nem percalços. Algo muito bem feito e idealizado. Storm regressa ao palco para as despedidas e para o merecido aplauso geral. O público dá nota 20.

Foi bom, só é pena que não se tenha cumprido o cartaz, onde também se podia ler “b-boys nacionais” supostamente a ser requisitados ao público, mas que ninguém chamou… para desilusão de muitos dos que lá estavam, equipados e preparados. Fica para a próxima.

Por Sofia Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista "Raio X"

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