Ursula despe-se palavra a palavra
08/07/2010, 20:40
Ursula Rucker é uma figura proeminente da spoken word e de slam poetry. É, praticamente, uma artista íntima dos palcos nacionais. Regressou a Portugal mais uma vez, a sétima, para um espectáculo inserido no Festival Silêncio!. Confessa-se fã do nosso país. Mesmo assim, trouxe consigo a timidez de uma mulher habituada a estar em palco rodeada de músicos. Desta vez, só Ursula estava no palco, sem teclas, sem cordas, sem batida. Daí ter revelado que se sentia estranha sem músicos, que se sentia um alien no seu próprio mundo. Mas rematou o discurso inicial, perguntando ao público se estavam preparados para um concerto de poesia pura e dura, sem instrumentais a servir de resguardo. A resposta foi imediatamente afirmativa. E o que se seguiu foi um arremesso brutal de consciência, foram múltiplos disparos de rima, foram um abanão para o que se passa lá fora, foram uma valente bofetada despertadora.
“Supersisters” foi um tema acompanhado pelas palmas da audiência enfeitiçada pelas palavras de Rucker. “She”, mais um tema de forte conteúdo, fala sobre as mulheres, e é quando acontece um dueto imprevisto e surpreendente com o músico J.P. Simões, que acompanhou a spoken word da cantora à guitarra, entre acordes delicados, e poesia visceral. Mais à frente, “Brown Boys” foi dedicado aos homens da sala, porém, trata de famílias afro-americanas que são abandonadas pelos patriarcas, referindo o sistema de complexos, disseminação e escravatura que persiste na sociedade actual. Ursula Rucker, a raínha da slam poetry apela: “Transform, revolt, move, change... Be great.”. Finalmente, é tempo de “What a Woman Must Do” e, antes, assegura que é um poema que declama sempre em todo o lado. Não se importa, não quer saber. Só quer que sintamos o poder daquelas frases, cujo texto termina com “good enough to fuck, not good enough to vote”, referindo-se, obviamente, ao sexo feminino. O Musicbox lotado teve direito a encore com “Love” - “love is aliver today; love hard, love soft, just love.”
Ursula Rucker é uma mulher madura, experiente, activista dos direitos humanos, feminista, revolucionária, contestatária. Apela à tolerância, à igualdade, à paz, à justiça, à inteligência, à verdade, ao amor. O silêncio passou por lá, brevemente. Ouviu-se o bater do pé de Ursula sincronizado com o ritmo cardíaco, ouviu-se o respirar compassado entre as palavras. Sentiu-se o respeito e a rendição, tanto do público, como de Ursula Rucker.
Texto:
Vanessa Cardoso
Fotografia:
Cátia Barbosa
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