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Música e Revolução: Hip-Hop 25 de Abril, Casa da Música, Porto - 24/04/2010 - NBC
Música e Revolução: Hip-Hop 25 de Abril, Casa da Música, Porto - 24/04/2010

NBC & Os Funks + KoolTuga
16/05/2010, 15:58

Dia 24 de Abril de 2010, 23 horas. A escassos 60 minutos da entrada do 25º dia do 4º mês do ano, a Casa da Música abre as portas da sua sala 2 para acolher alguns artistas convidados a avivar - de forma particularmente criativa - a revolução eternizada no mesmo dia e no mesmo mês do ano de 1974. "Música e Revolução: Hip-Hop 25 de Abril". Foi com este slogan que o evento se publicitou publicamente e, de facto, a música e a revolução souberam consubstanciar-se intensamente e oferecer um significado especial a esta noite primaveril de Abril.

O espectáculo estava dividido em duas partes principais (Tiago Pereira e NBC & Os Funks) e uma bem mais curta (Kooltuga). O tiro de partida deu-se à hora marcada, embora fossem poucos aqueles que o tenham escutado. Os que já marcavam presença acomodavam-se religiosamente no chão, qual sala de cinema improvisada (embora sem assentos). A primeira hora pertenceu exclusivamente a  Tiago Pereira. A cargo do realizador e visualista lisboeta esteve uma narrativa em tempo real da Revolução de Abril. Nas 3 telas expostas para o efeito exibiram-se as imagens e os sons que 1974 cravou na história portuguesa. Os gritos, as multidões, as manifestações, as músicas, as reportagens, as emoções, enfim, tudo o que aquela época gerou no país de Salazar. A manipulação em tempo real de todos estes elementos foi o grande atractivo do live-act. Tiago Pereira ousou jogar com  samples sonoros e visuais - recolhidos por si - com mestria e diversão q.b., tendo prendido a atenção da plateia que assistiu a uma experiência realmente única.

Já os ponteiros do relógio galgavam os primeiros minutos do dia seguinte e Os Funks começavam a pisar o palco, um a um, até entrar a voz de comando: Timóteo Santos a.k.a NBC. O público, bem distribuído a nível etário, não chegou a preencher meia sala sequer, o que acabou por ser a grande derrota da iniciativa. Contudo, NBC não se mostrou um MC frustado ou pouco motivado com a escassez de ouvintes. Bem pelo contrário! O mestre de cerimónias de Torres Vedras agarrou-se a cada tema de punho bem firme no microfone, com a voz penetrantemente projectada, revestindo o espaço com toda a pujança que se soltava das suas palavras. Aliás, o lema da sua performance era esse mesmo, "A força das palavras". E que força! A sustenta-la estiveram Os Funks, banda já sobejamente conhecida de NBC, pois desde a saída do seu último álbum de 2008 que partilham os palcos juntos. A juntar-se a eles estava Pina no coro, Marisa Gulli na percussão, DJ Link nos pratos e, mais tarde, Milton Gulli e a sua guitarra.

Com um tema de entrada dedicado à revolução, a actuação de NBC pouco se desviou de "Maturidade". De facto, foram-se desfilando várias faixas do disco, desde a malha "Imagina", até ao aprazível "Homem" (particularmente bem recebida pelo público). Só quem já teve oportunidade de presenciar um concerto de NBC entenderá na íntegra qualquer adjectivo que se possa atribuir à sua energia, entrega, envolvência e paixão a cada segundo do show. As suas expressões valem por cada gota de suor no rosto, cada salto no palco, cada grito expelido, cada passo de dança improvisado, tudo o que o próprio sentirá na pele como ninguém. À passagem da faixa "Dá-me uma mão", NBC chega mesmo a beijar a mão de uma espectadora, que instantes antes se confessara estreante em concertos seus. A primeira chamada a palco do moçambicano Milton Gulli representou um dos momentos mais quentes da noite. Estava na altura de deixar baloiçar o corpo ao som do afro beat e reggae que se reproduzia em “Eu Quero Tudo” (o single mais famoso de um dos grupos que integra – Cacique' 97).

À uma da manhã deu-se a retirada de NBC e seus pares para uma pausa de 20 minutos. Minutos esses que estavam guardados para Kooltuga. Sim, porque no calendário o dia 25 começava a nascer, o que corresponde a dizer que um novo trabalho do jovem produtor de Aveiro estaria prestes a ver a luz do dia. Neste caso começou por se apresentar num ambiente nocturno que, nesta altura, encontrava-se mais morno, pois alguns espectadores já tinham dado o espectáculo como terminado. A (breve) apresentação de "Fresco" deu-se mesmo ali, na Casa da Música. Talvez pela magnitude do espaço, aliada  à provável inexperiência em actuações ao vivo, Kooltuga revelou-se algo nervoso. Nada que, contudo, o impedisse de tomar de assalto as colunas da sala 2. Parte do novo registo instrumental do jovem prodígio foi então reproduzido. Apesar da curta duração do seu acto, bastou para expor a nú as suas (cada vez mais) reconhecidas qualidades de engendrar batidas com samples unicamente de língua portuguesa. Por momentos, Kooltuga não esteve sozinho em palco, pois contou com a contribuição de um jovem MC que ousou cuspir algumas rimas. Não tendo tempo suficiente para cativar os presentes, a retirada de Kooltuga fez-se, mesmo assim, à pala de uns merecidos aplausos para o aveirense.

Seguida pelo irmão Milton, Marisa Gulli foi a primeira a regressar ao palco, pois tinha preparada uma declamação de um poema de se autoria. Após este momento singular, e com todos os elementos de volta, prestou-se uma sentida homenagem a três artistas falecidos recentemente: Snake, Guru e Raptor. Em honra deles escutaram-se três músicas onde cada um intervém. Voltando ao repertório de "Maturidade", realce para o seu single de avanço, "Segunda Pele", que teve o condor de voltar a extasiar NBC. Isto porque a meio da música DJ Link interpela-a com um dos êxitos de Michael Jackson, o que levou NBC à loucura extrema, tal a surpresa do momento, até para o próprio. O tempo previsto esgotava-se, e já com as despedidas feitas o encore seria previsível, isto porque "Bem Vindo Ao Passado" não poderia ficar de fora do show desta noite - até porque foi expressamente pedido por um elemento do público. Pedido satisfeito - com direito a intervenção especial de uma jovem numa das repetições do refrão - a festa terminava pouco depois. Em plena sintonia com o público, NBC & Os Funks não saíram do palco sem escutarem uma grande ovação.

A iniciativa de interligar a música com a Revolução dos Cravos foi bem conseguida. Fazê-lo recorrendo ao Hip Hop foi uma escolha mais do que acertada, ou não tenha este estilo nascido para a intervenção social e política. Com o documentário por si exibido, Tiago Pereira está de parabéns. O respeito pela cultura e história portuguesa nele espelhado é de salvaguardar, assim como a irreverência da sua live performance, com técnicas perspicazmente conduzidas. NBC sabe como lustrar Os Funks como ninguém. É por demais evidente o brilho da música extraída das mãos de cada elemento da banda. O à vontade e a paixão pela música de Timóteo completam o ramalhete. Como extra, o talento natural de NBC para entertainer torna o espectáculo descontraído e divertido para qualquer plateia. Uma palavra também para Kooltuga, que se mantém inequívoco a revirar o passado da música e cultura portuguesa, incorporando-o nas suas produções. Como não há bela sem senão, a noite esteve algo pobre pelo número de pessoas que acorreram à sala 2 da Casa da Música. De facto, foram poucos os que quiseram recordar a Revolução de 1974 com abordagens e artistas contemporâneos.

Texto:
Druco
Sempei
Fotografia:
João Silva
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