11/06/2012, 19:48
Shawlin, MC carioca que foi parte integrante do coletivo Quinto Andar, tem vindo a construir uma carreira a solo, iniciada com o EP “E a Vida Continua” e o disco “Ruas Vazias”, que contou com uma faixa com participação de Sam The Kid. Brevemente estará disponível o seu novo disco, “Orquestra Simbólica”, do qual já disponibilizou online uma preview.
H2T - Ouvi dizer que começaste a rimar aos 11 anos... Como foi isso?
Shawlin - Não comecei a rimar propriamente com 11 anos. Comecei a rabiscar alguma coisa... Eu não tinha necessariamente um compromisso em representar o Hip Hop, não tinha um comprometimento, mas comecei a escrever. Já fazia poesia com 11 anos, já adorava escrever poesia. Mas foi com 12 anos que eu comecei a ser bem mais engajado, a consumir mais rap do que antes. Comecei a seguir por um outro caminho e a minha poesia acabou virando basicamente o Hip Hop.
H2T - Com 16 anos lançaste a faixa “Aliança”. Como surgiu o convite para na altura participares na compilação, “Zoeira HipHop”?
Shawlin - Quando eu fiz uns 14 anos, eu andava muito com o MC Mahal, e com um camarada que se chama Jonas Cardinho (ele até é produtor lá nos Estados Unidos, já trabalhou com os caras do D Block, Talib Kweli, Jean Grae...) e a gente estava sempre junto, ouvindo rap, fazendo freestyle, na casa dele. Só que a gente não sabia uma cena ainda de rap no Rio de Janeiro. E o Mahal falou que ia começar a rolar aqui na Lapa. Foi o início da Zoeira... Um dia antes da primeira festa da Zoeira, teve um evento em Niterói. Foi aí que eu comecei a entrar aqui no rap numa cena maior do que eu e dois amigos. Quando começou a festa da Zoeira, eu era frequentador assíduo, todo o sábado estava lá. A galera era bem assídua. E a produtora da festa, Elza Cohen, fez um contato com a revista Trip (que na época tinha o costume de encartar uns CDs nas edições da revista) para fazer um CD com os artistas que frequentavam a festa. Eu, que já estava na festa, recebi o convite da Elza. Tinha uns 15 anos, e quando saiu o CD tinha uns 16, mas já estava há um tempinho aí.
H2T - Estavas há espera do sucesso dessa faixa?
Shawlin - Eu não esperava a repercussão do CD no geral. Eu acreditava que não ia estar mal perante os outros artistas, mas não sabia que a repercussão daquele CD em si ia representar tanto para a Cultura, para a história do rap no Rio de Janeiro. Adorei o resultado. Realmente uma das músicas que as pessoas mais falavam era a minha, junto com outras, como Marcelo D2, Aori e Marechal na “Melô da Zoeira”. Eu fiquei amarradão, foi um incentivo para eu continuar a ir mais a fundo e tentar chegar onde estou hoje.
H2T - Como surgiram os Quinto Andar?
Shawlin - Nessa mesma Zoeira, depois que teve o sucesso dessa coletânea, “Zoeira Hiphop Carioca”, Marechal entrou em contato perguntando se eu queria entrar para o projeto. Eu estava tentando terminar o “E a Vida Continua” que foi o meu primeiro EP, que lancei na internet. Estava tentando fazer ele oficial. E, na real, eu nem queria, porque o pessoal tinha muito o costume de se reunir e não dar em nada. Ia perder o maior tempão! Até que eu fui ver o quadro, quem era e tudo mais, me animei e entrei para o Quinto Andar. Foi em 2000 para 2001. Para aí um ano depois da coletânea da Zoeira, mais ou menos...
H2T - Achas que a filosofia dos Quinto Andar revolucionou o Hip Hop brasileiro na época?
Shawlin - Acho que com certeza revolucionou, porque antigamente tinham um traço específico para o rap, que era o gangsta, da favela, e tudo o mais. A gente tinha uma outra proposta que puxava mais a técnica, a levada, que eram coisas que os caras não davam muito valor, e tentar fazer um rap um pouquinho mais atualizado porque o contexto do Snoop Doggy Dog, Dr. Dre, NWA, eram coisas que já estavam defasadas há 10/12 anos. A gente estava em 2000 e o rap parecia que era de 1989/90, estava parado. Quinto Andar foi o primeiro que conseguiu levar para um público mais abrangente. Não só pessoas da favela ouviam como pessoas de condomínio ouviam. E realmente teve o seu lugar na história do rap, deu a sua contribuição. Outros virão, que nem Cone Crew que está chegando aí agora fazendo um sucesso absurdo. A Cone Crew era ouvinte do Quinto Andar, então você vê que as coisas evoluem. Às vezes dá um certo passo, para que outras coisas aconteçam, que você nem imaginava na época.
H2T - Achas que inspiraram muitos grupos atuais?
Shawlin - Olha, dizem eles que sim. Eu com certeza espero que sim. Eu me sinto muito honrado, não é nem questão de ego, é uma questão de realização pessoal. Quando um artista bom, e que as pessoas têm vindo a valorizar o trabalho dele, me sente como referência, eu fico orgulhoso. De certa forma, as coisas que eu não tive meio que compensaram a longo-prazo.
H2T - Qual foi o motivo para o coletivo se ter separado logo depois do “Piratão”?
Shawlin - Sinceramente vendo assim com a frieza de uma suposta sabedoria, acho que foi o tempo e a vida. Tudo aquilo que não é resolvido, num momento acaba acumulando e não tem como resolver. Óbvio que tem motivos específicos acontecidos que nem vêm ao caso eu contar para ninguém, mas ainda guardo um grande carinho e respeito pelo D Leve, pelo Castro, que continua sendo um dos caras que eu tenho por meu mentor intelectual, pelo Brunão, e tudo o mais. O que causou a ruptura no Quinto Andar foi todo o mundo querer ter palavra ativa, mas ninguém assumir responsabilidades das coisas. Eu acho que faltou maturidade, sabe? Isso é que acabou com Quinto Andar, foi a falta de maturidade para lidar com o que acabou ocorrendo. A gente fez de sacanagem e colou, “tá, e agora?”. A gente fez algo de sacanagem que colou e ninguém sabia, ninguém tinha um plano para dar certo.
H2T - Achas que o projeto Subsolo veio preencher o vazio que ficou dos Quinto Andar?
Shawlin - Isso nunca foi a proposta do Subsolo, não era preencher um vazio deixado pelo Quinto Andar. Subsolo não foi um grupo, eram os integrantes remanescentes do coletivo Quinto Andar que resolveram lançar um álbum. Mas o Quinto Andar tinha acabado, então Quinto Andar não podia ser. Então a gente fez a versão dos que ficaram do coletivo e só isso.
H2T - No álbum “Ruas Vazias” tens um tema com o Sam the Kid. Achas que foi bem aceite pelo público brasileiro?
Shawlin - Até hoje mencionam essa faixa, com frequência...
H2T - Conseguiram entender o Sam the Kid? (Risos)
Shawlin - Conseguiram entender. No Brasil o pessoal tem muito respeito pelo rap de Portugal. Valete e toda essa galera que chega até aqui no Brasil, já de há muito tempo, tinha um nível, que a gente até admirava. Chegava falando “Esses gajos são nível profissional de rap underground, que chega aqui para a gente como rap underground bom e bem sucedido”. Era muito estranha a diferença que tinha, eu não sei se é da cultura europeia, de valorizar a coisa mais artística que comercial, mas o pessoal se amarrou naquela faixa. Esse projeto surgiu para uma mixtape que o Sam the Kid chamou, só que aí eu resolvi sequestrar a música para o meu álbum, porque eu estava tão feliz de ter feito uma música com ele, de ter ficado tão boa, daquele jeito, que eu resolvi sequestrar para o meu álbum. Ela entrou como bônus, mas ainda assim o pessoal conta ela como faixa corrida do álbum mesmo.
H2T - Ia perguntar mesmo, como é que surgiu essa parceria...
Shawlin - Ele convidou inicialmente para uma mixtape dele. Aí ele me mandou essa base. Esses instrumentais chegaram através do Dj Tamenpi do Só Pedrada Músical e até então, quando eu perguntei, ele disse que ia ser do álbum dele. Eu até dei crédito no álbum como se fosse do álbum dele (risos), mas no final de contas não foi. Mas dane-se, eu fiquei amarradão, e esse contato chegou de uma coisa que... a gente ia fazer uma música, mas não sabia para onde ia.
H2T - O contato ficou para mais tarde?
Shawlin - Cara, não ficou, porque depois disso mudou o meu MSN, e eu perdi a minha agenda. Então perdi o contato dele, e ele é um rapper consolidado lá em Portugal. Eu mesmo não teria paciência de conseguir chegar até pegar um contato dele. Mas provavelmente eu falaria com o Tamenpi, para me passar o contato do Sam the Kid. Se não tiver, o do Valete eu sei que ele tem. Mas eu ainda não senti a oportunidade ideal de voltar a fazer a conexão com o rap de Portugal. Com certeza que se a vida deixar, eu vou fazer de novo e com mais. Quero fazer som com Valete (o Valete até já estou há um tempão para fazer um som com ele, é uma coisa que eu já tinha até proposto). Mas vai novamente rolar Brasil/Portugal, se Deus quiser. Shawlin também na fita (risos).
H2T - O que é que achas da ligação entre as duas culturas?
Shawlin - Se houvesse um intercambio maior entre Brasil e Portugal seria realmente um ganho enorme para a cultura do rap no Brasil porque as produções portuguesas são de um nível muito elevado há muito tempo. Então acho que enriqueceria a própria cultura no rap nacional do Brasil. E já tem muita influência, não “fiques a achar” (risos) que o Brasil não tem o rap de Portugal como uma parte do rap nacional, porque é um rap em português. Então o pessoal que ouve rap underground abraça Portugal como se fosse do rap nacional também.
H2T - O oposto também é válido...
Shawlin - Então! Aí acaba que é a mesma cultura só que separada por um oceano. Têm que rolar mais colaborações, têm que rolar com uma maior frequência e talvez a distância dificulte porque se os artistas portugueses estivessem mais presentes na cena nacional e vice-versa, o público pediria mais, mas como nunca teve, não existe uma demanda. Mas se Deus quiser, a gente vai ter essa oportunidade, não só de eu fazer outro som, como agora que o Brasil está tendo uma estrutura maior para o rap, poder trazer esses artistas para cá. Para mim seria válido. Eu me aproveitaria da situação para gravar com todos eles (risos).
H2T - Adiantaste recentemente a preview do teu próximo álbum. Qual é que está a ser o feedback até agora? Muitos downloads?
Shawlin - Teve bastante download, mas o meu trabalho não é um trabalho que esteja em baixo dos holofotes. Ninguém esquece que eu existo. Mesmo que eu não apareça em lugar nenhum, todo o mundo continua ouvindo minhas músicas, mas a maior parte do público, que não é um público tão engajado com a Cultura em si, presta muita atenção no que está na mídia. Ainda assim eu consegui uns 18000 downloads e o download ficou só 3 semanas no ar. Todo o mundo do rap chegou, mas a galerinha que estava de fora, eu cortei mesmo. Se você não está ligado, você fica de fora.
H2T - É um bónus para quem está atento...
Shawlin - Isso. Quem está atento, quem está fechando junto vai ter privilégio. Quem ficou panguando e acha que “Ah, depois eu baixo”, o depois acabou irmão!
H2T - E porquê o nome “Orquestra Simbólica”?
Shawlin - Na minha ocupação durante o dia, no meu emprego Clark Kent, eu sou engenheiro de áudio e trabalho com restauração do acervo russo de música clássica. Trabalhei inclusive para a Biscoito Fino aqui do Brasil e para a Brilliant Classics, lá da Holanda. E eu estava assim dentro de música clássica. Eu ganhava por produção e ficava enfurnado ouvindo um monte de obra até inédita, de gravações inéditas. Sempre gostei de música clássica, das bases de rap feitas com samples de música clássica, sempre foram muito boas. Então eu falei “Caraca, eu estou no lugar ideal para lançar alguma coisa com orquestra”, mas eu não queria que fosse algo tão literal. Eu não queria pecar pelo óbvio. Você nunca consegue organizar sua vida para tudo estar funcionando bem ao mesmo tempo. E você fica lá de maestro querendo que todas as secções estejam em sincronia e afinadas, sabe qual é? E isso era uma orquestra, a vida em si era uma forma de orquestra. Você tentar organizar um caos ali. Entao eu pensei, “orquestra sinfônica, mas aí a orquestra é simbólica”, e daí veio esse estalo do nome orquestra simbólica. Se fosse orquestra sinfônica, todo o mundo ia esperar que tudo fosse sample de orquestra, e não ia pegar o tema em si, a veia, a espinha dorsal do álbum, que é uma historia que eu estou tentando contar para as pessoas.
H2T - Que tipo de história?
Shawlin - Ahaah! A ideia do álbum, na verdade, é acerca da condição humana. Esses setores da vida de uma pessoa que influenciam na personalidade dela, em o que é que ela devolve para o mundo. O ser humano ele é fruto do meio em que ele vive, mas o meio em que ele vive é fruto dele, então é uma dizima periódica. A gente tem um ciclo vicioso a quebrar, então eu vou fazendo uma narrativa, sobre quais são essas coisas que se apresentam, na vida de uma pessoa que alteram a forma de ela ver o mundo, ou de fazer determinadas escolhas.
Eu começo o EP, essa introdução que eu fiz com a música “O Mago”, que é “deixa invadir a sua mente um pouquinho, para derrubar as barreiras que limitam a sua visão”. Aí eu começo explicando a dualidade, vou tentar mostrar o lado do mal e o lado do bem, de uma forma que não seja um discurso sobre o mal e um discurso sobre o bem. Eu mostro de forma prática o que você vive e o que é que é cada um desses, se apresentando em determinadas ocasiões. “Criando Monstros” é o ego. Você é muito sacaneado, porque ninguém vai lutar pelo seu mesmo, então você vai fazer o que você tiver à sua mão, e dane-se se você esta fazendo algo que é errado ou que é certo, porque todo o mundo só está vendo o seu. A “Criando Monstros” fala “sofri por falta de dinheiro e por excesso de amor por querer viver por inteiro não quero esperar favores de neguinho”, então tem que correr atrás. Aí você vai passando para “A Área”, que é sobre aonde você vive, as pessoas com as quais você se relaciona no seu quotidiano, os exemplos de outras pessoas que você tem no seu dia a dia. Passei depois para a “Coração”, que é você vendo tudo isso que acontece tentando se agarrar à parte boa que tem em você e tentar alimentar essa pessoa boa e não deixar a pessoa ruim tomar conta e passar a determinar o que você é. Aí sigo para “Sonhos de Grandeza”, que é você tentando se sentir o melhor com você mesmo através de festas, de droga e de tudo aquilo que se trata de prazer. E por aí vai, uma coisa vai esbarrando e puxando outro tema. Se você ficar atento aonde eu vou conduzindo, você vai entender por que é que aquela música entrou naquele lugar porque era o momento decisivo. E aí tem a “Reza Forte”, depois você começa a pensar no seu futuro que é a “Sonhos de Futuro - Na Saga”, que é você desejando o melhor para você. Que é que você quer para o seu futuro? Primeiramente você quer chegar ate à sua velhice, depois você quer que quando esteja na sua velhice, tenha uma família, pessoas à sua volta- Que você não tenha que se preocupar em ser um profissional estabelecido, você já se estabeleceu. Não precisa mais pagar aluguel, comprou a sua casa, por exemplo. E no final é a “Pausa para a Luxúria”, as coisas que independente de em que momento você tiver, você vai sentir a necessidade delas. Por exemplo, sexo. Óbvio que isso acaba um dia (agora o viagra veio para mudar isso). Mas, por exemplo, o sexo é algo que você faz, não tem uma razão para você querer fazer, para você sentir a necessidade e para aquele prazer ser tão importante para você, você só faz. Tanto que a intro da música fala isso, desse sentimento, desse calor humano que a gente busca através do sexo. Eu acredito que eu consegui pintar um quadro do que vem por aí, com exemplos, e tentei também não entregar todo o ouro, já sair entregando o ouro... Mas acredito que ainda assim eu vou apresentar um álbum que é muito mais do que isso que o pessoal ouviu. E se eu for falar o que é que eu acho que é o futuro desse álbum, acho que vai ser que nem o “Ruas Vazias”. O “Ruas Vazias” demorou um ano e meio até nego trincar mesmo, sabe?
H2T - Na preview deu para adiantar uma colaboração com o Black Alien. Vais ter mais convidados?
Shawlin - Vai ter mais convidados, mas não necessariamente do rap. É assim, eu fiquei muito tempo sem botar música minha. Eu trabalhei no Quinto Andar e depois no Subsolo, então eu gostaria de fazer uma parte mais minha nesse álbum. No começo eu tinha a ideia para fazer 3 milhões de participações, mas eu esbarrei num problema que era as pessoas entenderem o conceito exatamente, não botar um participação para botar uma participação.
H2T - Se não seria uma compilação...
Shawlin - É, porque o álbum tem esse sentido, sabe? Então a do Black Alien foi ótima porque ele conseguiu corroborar e trazer informações novas para aquilo que eu estava fazendo. Mas de participação vai ter mais em refrão do que em verso mesmo, entendeu? Vai ser um álbum cheio mas vai ter muito Shawlin, até devo enjoar da minha voz.
H2T - Então e quando poderemos esperar o álbum? Sempre será em Junho?
Shawlin - Final de Junho. Só tem uma música que estou finalizando, as outras já estão inclusive masterizadas. Vou lançar o álbum primeiro para download. Inicialmente vou lançar no YouTube, depois eu vou disponibilizar o download.
H2T - É bom estar toda a gente atenta...
Shawlin - Com certeza. É bom nego estar atento que também não vai ser para sempre. Eu não vou tirar o link de download dos outros do ar, mas oficial não vai ter. E quem tiver consciência, por um tempo vai-se fazer difícil, não vai passar. Grava isso, hein? (risos).
H2T - Últimas palavras...
Shawlin - Quero mandar alô para a rapaziada de Portugal. O rap da rapaziada é 100%! Quero dar a saber aí que a galera aqui do Brasil curte, apoia o rap de vocês e que estamos ligados que a rapaziada aí também escuta o nosso som. Está tudo em casa! Tomara que a gente consiga criar uma aproximação futuramente!
Shawlin – Coração (album: Orquestra Simbólica)
Texto:
Daniela Ribeiro
Fotografia:
Leonardo Nascimento
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