“Na cultura HipHop representamos a honestidade”
15/04/2012, 20:58
Aproveitando a recente vinda dos Dilated Peoples a Portugal, o H2T esteve a conversa com o trio de LA, depois do seu “heróico” concerto no espaço TMN ao Vivo, em Lisboa. Do nostálgico regresso ao HipHop da década de 90, passando pela visão do grupo sobre o seu actual momento, desvendámos ainda um pouco sobre o novo álbum, “Directors Of Photography”. Passado, presente e futuro. Dilated, em discurso directo.
H2T – Estão pela primeira vez em Portugal e logo com dois concertos, no Porto e em Lisboa. Quais têm sido os pontos altos desta vossa tour Europeia?
Rakaa - Sem dúvida que estar pela primeira vez em Portugal é um dos pontos altos da tour. Estarmos aqui em Lisboa e termos estado a “rockar” no Porto é bom, porque já há algum tempo que queríamos vir actuar a Portugal. Mas no geral, qualquer sítio por onde passemos acaba por ter algo de positivo para nós, porque é sempre uma forma de nos aproximarmos dos fãs, fazer novos contactos e criar amizades.
H2T - …e de todos esses sítios que têm passado, especificamente nesta tour, há algum concerto que queiram destacar?
Rakaa - Por acaso o concerto no Hard Club foi um dos meus favoritos da Tour. Todos os concertos têm tido casa cheia e grande ambiente, mas há uns – como foi o caso do Porto – que têm aquela força extra e isso vem do público e da entrega ao concerto. Em Lisboa, tivemos de ultrapassar alguns problemas técnicos e como não fazemos propriamente música acústica, quando a tecnologia nos falhou, tivemos de dar a volta. Somos profissionais, estamos habituados ao palco e a lidar com adversidades. Quando acontece alguma merda é saber ultrapassar isso, continuar e dar o melhor.
H2T - Falando no público, é muito diferente actuar na Europa em comparação com os concertos nos Estados Unidos e o público norte-americano?
DJ Babu – Depende um bocado de sítio para sítio na Europa e se existe uma grande barreira linguística ou não. Tens países que percebem perfeitamente aquilo que estamos a dizer, outros nem tanto. Mas acho que a beleza da música também é um bocado essa capacidade de quebrar barreiras linguísticas e muitas vezes culturais. Para nós vir a Portugal, com o público de língua portuguesa a compreenderem aquilo que dizemos e a “rockarem” connosco, é uma parte muito importante daquilo que fazemos. Com as viagens que fazemos a países de todos os continentes, sentir que as pessoas estão juntas pelo mesmo motivo, independentemente da nacionalidade e da língua que falam, é algo incrível. O público norte-americano é bastante importante para nós, é a nossa “fan base”, mas são coisas vividas de forma diferente.
H2T - Voltando bem ao início dos Dilated Peoples, como é que começa a vossa história?
Rakaa – Já nos conhecemos há mesmo muito tempo. Antes até de fazermos Rap eu e o Ev eramos writters em LA e foi através do graffiti que nos conhecemos. Parávamos nos mesmos sítios, com o mesmo círculo de pessoas e tínhamos vários amigos em comum, isto no início dos anos 90.
Uma vez o Ev veio falar comigo, na altura ele estava a fazer umas cenas com o QD3, filho do Quincy Jones, que tinha produzido um beat para uma “posse cut”. Como eu e o Ev já tínhamos feito uns open mics e até estávamos com uma ideia de gravar alguma coisa, nem que fosse uma demo, acabámos por entrar nessa faixa. A partir daí as coisas começaram a acontecer naturalmente, tipo bola de neve.
Ao mesmo tempo e como desde sempre tenho estado envolvido com a Rock Steady Crew, na altura houve alguns membros que acabariam por formar uma outra crew, os Beat Junkies. Houve um dia em que um dos DJs dessa crew, o DJ Rhettmatic, me passou uma mixtape chamada “Comprehension” de um gajo, um tal de DJ Babu. Foi a primeira vez que ouvimos falar dele. O tempo foi passando, o nosso trabalho estava a evoluir e em ’98 com o “3rd Degree” e o “Work the Angles” pela ABB conseguimos consolidar o nosso hype junto do underground. O Babu, que na altura estava a trabalhar na Fat Beats, interessou-se pelas cenas que estávamos a fazer e passado pouco tempo acabaria por oficialmente se juntar ao grupo. Em 2000, viríamos a assinar pela Capitol, lançar o “The Platform” e o resto, como eles dizem, é história.
H2T – …e individualmente, conseguem recordar-se de como entraram na cultura HipHop e daquele momento em que pensaram “ok, é isto que eu quero fazer com a minha vida”?
Evidence - A altura em que percebi que queria fazer parte desta cultura foi em finais dos anos 80, em que o que ouvia na rádio ou via na televisão sobre HipHop me deixava fascinado. Ia para a escola falar sobre isso e tinha outros miúdos que também tinham visto e sentiam a cena da mesma forma. O mais incrível foi depois perceber que, aquilo que ouvia na rádio e via na TV ou no cinema, se estava a passar no meu bairro e à minha volta. Quando me apercebi dessa realidade, quis logo fazer parte disso. Foda-se, é basicamente seres grande fã de Star Wars e descobrires que o Chewbacca é teu vizinho! (risos)
Mas aquilo que me fez querer fazer Rap não foi só isso. Foi ter conhecido o produtor QD3 – que era meu vizinho – e a maneira como isso me fez começar a perceber como se produzia Rap. Eu sabia o que era, de ouvir e ver, mas não fazia ideia de como se chegava ao resultado final. Lembro-me de às vezes estar sentado na entrada da minha casa com o meu caderno a fazer uns projectos para pintar e ver umas pessoas a entrar e sair de casa dele. Um dia fiz-me praticamente de convidado e comecei a acompanhar as gravações e o que se ia fazendo por lá. Com o passar do tempo, o meu caderno para desenhar transformou-se no meu caderno de rimas. Era apenas um miúdo a tentar imitar uma cena que achava fixe. Estava a ver Rap a ser feito bem à minha frente e queria fazer parte daquilo, queria ser eu ali. Antes já tinha passado por outras fases, tipo skate e breakdance, basicamente coisas que se foram seguindo, que tinham uma ligação e que viriam resultar no Rap, aquilo que finalmente acabaria por escolher para mim.
H2T - …e em relação a ti Rakaa?
Rakaa – Acho que a primeira vez que peguei no mic devia ter uns 13 ou 14 anos. Tinha um amigo meu o DJ Rob One – R.I.P. - que também estava a dar aqueles primeiros toques como DJ. Ele ia fazer uma mixtape para uma festa de um outro miúdo e pediu-me para ser o host, apesar de não ter ideia do que era suposto fazer. Lembro-me de na altura ele ter dito “é fácil, só precisas de falar, eu solto os beats e tu vais falando”. Essa foi a minha primeira experiência como emcee (risos).
Mas aquilo que depois me fez realmente levar a cena a um outro nível foi ter ouvido o álbum “By All Means Necessary” dos Boogie Down Productions. Eu já era um fã de Rap, por essa altura também já andava envolvido no grafitti, mas esse álbum mexeu comigo de tal forma que me fez realmente querer fazer do Rap a minha vida. Não apenas Rap no sentido geral, mas mesmo aquele tipo de Rap específico, com mensagem. Tipo, os meus primos eram todos gangstas, pessoal da rua LA style, com os lowriders todos modificados, jantes personalizadas, a suspensão hidráulica, a cena toda. No entanto, eles ouviam também Boogie Down Productions e aí pensei: “ok, então se isto é possível, vai ser mesmo por aqui, é isto que eu quero fazer”.
H2T – …como foi contigo Babu?
DJ Babu – Quando era criança o meu pai era da Marinha por isso eu nunca estava no mesmo sítio muito tempo. Mas em 1984, quando fui viver para o sul da Califórnia, na minha rua também acontecia aquilo que o Ev estava a falar. Pessoal que metia um bocado de cartão no chão e começava a dançar, Djs a passar som onde quer que desse, cenas desse estilo. O HipHop estava em todo o lado. Comecei mais pela parte da dança, Popping e Locking e foi só quando tinha uns 16 anos que me interessei pelo DJ’ing, apesar de ter sido só com 17/18 que consegui finalmente comprar algum equipamento. Os meus pais não tinham grandes condições para estar a comprar material de Dj a um puto e o Dj’ing ainda é um “vício” caro. Material base, tipo só mesmo para começar a praticar, ficava à volta de 400 dólares. Por um lado até foi bom, porque fez com que fosse arranjar um trabalho e ganhasse responsabilidades.
A partir dos primeiros pratos e mesa, foi começar a treinar e fazer todo o tipo de Dj’ing. Comecei por passar som em festas, mas não era bem isso que queria fazer e acabava sempre por gostar mais de estar no quarto a treinar. Isso iria levar a interessar-me mais pelo lado técnico do Dj’ing, o scratch, o beat juggling, o que depois me levou às battles. Com o passar do tempo acabei por mudar-me para Los Angeles onde acabaria por conhecer o Ev e o Rak. Foi só depois de termos formado o grupo que viria a encarar isto como uma carreira profissional. Mesmo assim e no início, quando ainda ia só produzindo umas coisas, fazendo uns scratchs, e íamos dando uns concertos mais pequenos, estava ao mesmo tempo a trabalhar numa loja de discos. Só mais tarde e com a evolução do grupo é que vi realmente que podia fazer disto a minha vida.
H2T - Olhando precisamente para a vossa evolução enquanto grupo, qual o papel que têm hoje em dia com a vossa música? O que acham que representam para a Cultura HipHop?
Rakaa – Na cultura HipHop representamos a honestidade. Somos um grupo honesto. Se isso acabar por estar relacionado com o que acontece hoje em dia em termos de tendências e da indústria musical melhor, se não estiver não está. Fazemos o que queremos, dizemos o que queremos. O nosso ponto forte enquanto grupo é precisamente sermos honestos. Primeiro com nós próprios, porque só gravamos ou estamos juntos como Dilated quando faz sentido para todos. Depois, com a nossa música e consequentemente com quem nos ouve. Somos o mesmo grupo quer estejamos a dar um concerto num pequeno club para cem pessoas ou num festival para milhares.
H2T - …pegando nisso que disseste, e apesar de já não lançarem nada há quase seis anos, continuam a ter casas cheias por todo o mundo. Qual é o segredo para esse tipo de sucesso?
Rakaa – Acho que há vários pequenos segredos… em primeiro lugar sabemos dar um concerto. Há pessoal que sabe fazer álbuns mas não sabe dar concertos. Outra coisa é o facto de nos mantermos ocupados a trabalhar o nome Dilated, apesar de não lançarmos um disco novo. Ao longo desses seis anos têm havido DVD’s, projectos a solo, colaborações com outros artistas, músicas nossas em filmes e videojogos. Além das tours que fazemos, tanto como Dilated, como a solo, com as actuações do Babu enquanto DJ ou agora a Cats & Dogs tour do Ev. Por isso, nós fazemos com que o nome Dilated Peoples continue presente na cabeça e playlist dos fãs. Depois o que temos de fazer é, quando actuamos, garantir que mantemos a mesma qualidade com que temos habituado o público, seja com músicas novas ou não.
H2T - … acham que foi em grande parte por causa dos vossos projectos a solo que não lançaram nada durante estes anos?
Rakaa - Foi um dos motivos, mas não foi o principal. Isto tudo faz parte de um plano, o lançamento dos álbuns a solo, estava previsto e planeado. Conhecemo-nos como artistas a solo e isso faz parte da nossa identidade, respeitamo-nos nesse sentido. Quando surgiu o momento e a vontade de cada um de nós se lançar a solo, fosse com o “Crown of Thorns”, o “Layover” EP, o “The Weatherman” LP, o “Cats & Dogs”, ou as “Duck Season”, não só é algo que vemos como normal como apoiamos e sentimos muito orgulho do sucesso de cada um.
H2T – O que vos levou a fazer a mudança do universo das Majors para agora estarem com uma editora Independente?
Evidence – Assinámos em 2000 com a Capitol e depois do último lançamento em 2006 temos estado como Dilated Peoples fora do circuito das Majors. E são sem dúvida formas diferentes de trabalhar. Numa Major tens dinheiro, eles fazem um investimento grande e querem ver resultados. Tudo é em grande escala, principalmente no Marketing e promoção junto do público. Quando estás com uma independente é um tipo diferente de energia que tens de usar, mais estratégica e menos abrangente. Tens de perceber realmente onde estão os teus fãs…
Rakaa – No início, uma das coisas que nos deu maior força e confiança no nosso trabalho, e que nos fez dizer "não" sem problemas a algumas abordagens de editoras que outras pessoas dariam tudo para assinar foi o facto de, mesmo antes de termos assinado por uma Major, já estarmos a esgotar concertos e a por a nossa música nas ruas. Quando as editoras estavam a tentar que assinássemos com elas e nos pediam para lhes enviarmos umas demos, nós dizíamos para irem à loja de discos procurar os nossos singles. Quando nos queriam marcar showcases à borla só para lhes mostrarmos o nosso trabalho, nós dizíamos que íamos tentar colocar em lista, por causa da série de concertos que já tínhamos esgotados para esse mês. Portanto, nós desde cedo começámos a construir as bases daquilo que viriam a ser os Dilated Peoples e, quando o acordo com uma Major surgiu, cumprimos a nossa parte de forma profissional. Foi importante porque nos ajudou a evoluir, a ter cada vez mais confiança no nosso trabalho e contactos. Mas depois de ter acabado o contrato com a Capitol e não termos renovado, é com naturalidade que temos estado no universo das Independentes, que é onde nos sabemos movimentar.
H2T - …portanto o vosso próximo álbum já vai sair na nova editora Independente, não vão estar à procura de outra entretanto…
Evidence – Veremos, quer dizer, não sei… espero que sim…
Rakaa – Eu não vou estar de certeza!
H2T – Então?!
Rakaa – Neste momento o que estamos aqui a falar é sobre a nossa tour e os concertos esgotados…
H2T – ...mas achas que neste momento não há se quer necessidade dos Dilated Peoples estarem associados a uma editora?
Evidence – Claro que há…
Rakaa – Não, eu acho que não. Não acho que seja necessário, acho é que é importante - como foi antes, caso contrário não estaríamos aqui - estarmos associados às pessoas certas. Ser preciso e fazer sentido são coisas diferentes. Se me perguntares se neste momento preciso de uma editora, não, não preciso.
H2T – Qual é a tua opinião sobre este assunto Babu?
DJ Babu - Eu acho que cada projecto tem o seu timing e a sua forma de fazer as coisas. Se calhar nesta fase não precisamos de um intermediário, podemos perfeitamente meter a nossa música no iTunes e tratar das tours, não precisamos propriamente de uma editora para fazer isso. Acho que isso também é algo que veremos em conjunto e a seu tempo, o que será melhor. Falando por mim, a solo já trabalhei com editoras Independentes – Stones Throw, Nature Sound, ABB – e têm coisas boas e coisas más, como em tudo. Pessoalmente, e pela minha forma de trabalhar, também por ser DJ, prefiro ter um pouco de mais liberdade no meu trabalho. Vês menos dinheiro e muito mais trabalho “extra música” a cair sobre ti, mas a parte da liberdade criativa que vem por estares com uma Independente acaba por compensar. Falar sobre assinar com uma Major, neste ponto das nossas carreiras… só se eles tiverem prontos a nos oferecer o Mundo, caso contrário… não me parece.
H2T – Seja numa Major, Independente ou sem editora, uma verdade é que parece que a espera chegou ao fim e que está um novo álbum a caminho. O que é que podem relevar sobre o novo projecto?
Rakaa – Por enquanto nada, depois contamos-te (risos).
Evidence – Ainda não temos nada gravado…
H2T – Têm pelo menos o nome escolhido, porquê “Directors of Photography”?
Evidence - Segue a linha do que temos feito. O nosso Rap é gráfico, transmite imagens fortes. O nosso logo é um olho, o que chama para o sentido da visão. O álbum anterior, “20/20”, estava também relacionado com a visão, sendo que nesse a capa era a lente de uma máquina fotográfica. Depois DP (Dilated Peoples) funciona como DP - Directors of Photography.
H2T – Ok, portanto depois desta tour vão começar a trabalhar no álbum?
Evidence – Só se vieres a LA… (risos)
H2T – Pode ser! Viagem para dois! A Cátia também vem para tirar fotos!
H2T (Cátia Barbosa) – Eu estou livre!
Rakaa – Boa resposta, bilhetes para os dois (risos). Veremos como vai ser, talvez no final deste ano teremos o álbum, mas não vamos estar agora a adiantar muito mais, hoje em dia com os blogs e sites e o Twitter nunca se sabe.
H2T – Mas nós somos apenas um pequeno site sobre HipHop em Portugal, não tenham problemas…
Rakaa – Ahhh! Mas pelo que ouvi dizer este é o principal site de HipHop em Portugal! (risos)
Evidence – Estás a dizer que é pequeno, mas hoje em dia o Google é uma ferramenta poderosa. Sobre o álbum, sem pressas. Ele vai sair quando tiver de sair, com a mesma qualidade de sempre.
H2T – Vamos aguardar então… E trabalhos a solo? Alguma coisa que possam revelar… estás a fechar o próximo volume das Duck Season não é?
DJ Babu – Sim, está quase, 3/4 praticamente…
Rakaa – … daqui a dois anos está pronto (risos).
Evidence – Todos os samples de músicas do Michael Jackson! (risos)
Texto:
Ivo Alves
Fotografia:
Cátia Barbosa
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