«O caminho é trabalhar na penumbra, para quando se apresentar algo o fazer com prestígio»
20/03/2012, 21:44
"Retiessências" é o álbum, ao qual Deau chama de primeiro filho. Um trabalho germinado em parceria com DJ D-One, produtor instrumental de todas as faixas. Após um longo percurso de aperfeiçoamento, participações de destaque e improvisação pura, surge o resultado mais que aguardado. "Retiessências" tem apenas dois meses de rua, mas conserva para a posteridade o duplo sentido declarado em 2008, no tema "Lamento" - «Há quem queira pôr reticências onde eu retenho a essência».
Entrevista Deau (parte II) – “Retiessências”, o álbum, faixa a faixa
H2T – "Deus Existe Apenas Um", é este o significado de Deau?
Deau – Eu comecei a ouvir rap por volta dos sete anos e um pouco mais tarde comecei a dar uns tags, por influência de alguns writers da minha zona (Gaia), o Rato e uma outra pessoa que foi assassinada em Inglaterra, que se chamava Rasta, eles eram pioneiros. Mas eu não tinha muito jeito. Inicialmente escrevia Daniel, depois a minha mãe começou a ver o meu nome à volta de casa e não achou muita piada. Então, como diziam que um tag deveria ser um nome estrambólico, ocorreu-me a palavra Deau, sem ter nenhum sentido especial. E nunca alterei, pelo carinho de ter sido o meu primeiro nome. Posteriormente, numa rima, escrevi por acaso "Deus Existe Apenas Um" e reparei que dava "DEAU". A partir daí, essa frase ficou sempre relacionada com o meu nome. Não é o Deus no sentido católico mas sim aquilo em que tu acreditas. Eu acredito em mim próprio, para mim eu sou o meu deus e cada pessoa deve acreditar e identificar-se com aquilo que faz e mover-se pelo que ambiciona.
H2T – Quem constitui 4400? É uma crew?
Deau – 4400 representa o código postal de Gaia. As pessoas da minha zona identificam-se com o meu rap, que no fundo relata a minha vivência, e foi uma maneira de usar algo que nos identificasse a todos, sem usar o nome Deau. 4400 não é uma "crew", mas é um símbolo que nos une e nos define: 44 significa as asas para voar atrás do teu sonho [n.d.r.: Deau abre as mãos em sentido cruzado, une os polegares e estica os 8 dedos em sentido contrário, dando a figuração de asas] e 00 são os punhos fechados, para lutares por ele [n.d.r.: posiciona novamente as mãos, mas desta vez em forma de luva de boxe]. É isso que significa o 4400, sou eu, são as pessoas que me envolvem, é a minha família e os amigos com que eu paro todos os dias. Eu inicialmente dava mais freestyle e era conhecido por isso em toda a zona de Gaia. Apesar do meu nome não chegar aos meios mais influentes do hip-hop, no núcleo daquela cidade falavam sempre do meu nome como sendo um artista. Não tinha nada editado mas era conhecido nas ruas, e o que eu atingi hoje também foi graças à motivação deles todos e por isso sinto-me no dever de representar a minha terra e representá-los a todos.
H2T – Este álbum "Retiessências" contou com a parceria do DJ D-One, produtor de todas as faixas. Como foi o processo de escolha e criação instrumental?
Deau – A maior parte do meu álbum foi feita com beats que nunca ninguém escolheu para os projectos que ele fez. O D-One deu-me uma remessa de beats, posteriormente ele ia fazendo outros novos e mostrava-me. Eram beats de base simples, como por exemplo o da "Bola de Sabão", que o D-One tinha como inacabado, mas eu ouvi, curti e usei. Mais tarde ele deu uma "lavagem" a cada um, fez um trabalho excelente de produção e masterização, acho que está muito bem conseguido! É um álbum gravado no quarto dele, um microfone a meio do quarto, com a persiana baixa porque de vez em quando passava uma ambulância ou a polícia, fazia muito barulho e tinha que se gravar novamente... não foi gravado num estúdio. O beat vem sempre primeiro, ele dava-me a base instrumental, muitas vezes em loop, eu escrevia a partir daí, comentava os flows, as ideias, e depois foi um trabalho conjunto. A partir da envolvência que a música tinha, o D-One deu-lhe um tratamento posterior.
H2T – A "Basta Acreditares" também partiu de um instrumental em que ninguém pegou?
Deau – Essa por acaso tem uma história curiosa... a "Basta Acreditares" era uma música para um concurso da Vodafone que o Xakal Da Gun ganhou, mas para lançar era preciso ter myspace, coisa que eu nunca quis. O D-One tinha myspace, mas assim os créditos ficariam todos para ele e o concurso também exigia nacionalidade portuguesa ou europeia, quando ele é brasileiro. Ou seja, acabámos por fazer uma música e não poder participar! Ou eu criava um myspace e sentia que não tinha de o criar de propósito, ou inventávamos uma nacionalidade. Mas acabámos por desistir do concurso e eu preferi que aquela música estivesse no meu álbum, porque é uma música que me diz muito.
Recentemente criei uma página de facebook, só porque foi a melhor maneira de mostrar o EP que antecedeu o álbum. Um EP que, no fundo, são as músicas que deixei de fora, porque não tinha dinheiro para fazer um álbum duplo. Mas a divulgação via Facebook até foi uma boa aposta, porque é uma maneira de contactar com o público mais distante.
H2T – Como têm corrido os concertos de apresentação, qual tem sido o feedback ao álbum?
Deau – O concerto de 27 de Janeiro no Hard Club foi o que mais me marcou. Foi o primeiro, a sala encheu só com a pré-venda de bilhetes e a maior parte era tudo amigos meus e conhecidos. Acho que chorei da primeira à ultima música, apesar do suor enganar um bocado as lágrimas.
Felizmente tenho tocado em várias zonas, em Barcelos, Vila do Conde... tenho tocado mais no norte do que para sul. Quase sempre de 15 em 15 dias, desde que o álbum saiu. Algumas vezes, como esta semana, toquei três vezes por semana e felizmente as coisas têm corrido bem e tenho tido alta recepção.
O meu grupo de amigos também me acompanha sempre, o que é algo mesmo de louvar, é o tal 4400! São atitudes que para mim vão ficar sempre na memória, porque a vida deles também não é muito fácil e fazem esse esforço, lutam e acreditam comigo. São capazes de ir a concertos em dois dias seguidos e alugar autocarros para ir todos juntos, como vão fazer agora novamente dia 23, para ir a Lisboa. Mas o feedback é sempre positivo, porque as pessoas ouvem, gostam do álbum ou procuram-no.
H2T – E que o procurem numa loja, de preferência.
Deau – Infelizmente as pessoas ainda estão muito habituadas ao download, em função de certos artistas começarem a expor o trabalho online. Só que é preciso começar a ganhar noção que, ao contribuir para um álbum, estão a fazer com que o dinheiro sirva para melhorar as condições da música, seja videoclips, seja material de estúdio, há sempre um reinvestimento. E isto não fica tão barato quanto isso! Assim como as editoras também não são instituições de caridade, têm que ganhar o dinheiro deles, faz parte do papel de cada um.
Eu lembro-me quando era miúdo e dava o Beatbox ou davam programas de rádio, eu, mesmo que não estivesse em casa, pedia para ligarem a tv ou a rádio, porque sentia a importância de mostrar a quem tem o poder económico, que há público para isto. Se não houver essa demonstração, se não forem a uma loja comprar e esgotar os cds de hip-hop numa prateleira, quando os artistas são de qualidade, nunca vai haver apoios nem investimentos na cultura.
Uma coisa triste que eu me apercebi ao longo destes anos, é que a maior parte do público, quando começa a fazer rap, começa a ser muito intriguista e a criticar o trabalho dos outros. Olham-se como uma ameaça em vez de pensar nisso como um estímulo! O caminho é trabalhar na penumbra, para quando se apresentar algo o fazer com prestígio, honrar o trabalho dos outros. Acho que é esse o fundamento. Foi isso que eu procurei fazer, honrar as pessoas que me inspiraram, trazendo música com pés e cabeça.
E as próprias pessoas do rap, por vezes criticam muito. Por isso eu não convivo com rappers, convivo com o meu produtor e com algumas pessoas com quem faço participações, porque quando estava mais inserido no núcleo do rap e do hip-hop os temas de conversa era criticar os trabalhos dos outros.
H2T – Mas ouves rap...
Deau – Ouço tudo, ou pelo menos tento estar a par de tudo. Confesso que já não procuro tanto como procurava, em função de ter uma vida mais preenchida. Com o curso, trabalho e fazer música, não me sobra tanto tempo como o que tinha antes para acompanhar tão regularmente. Depois, se calhar também já não tenho a paciência que tinha. Antes ouvia e tentava captar tudo, hoje em dia já sou um bocado mais exigente. Mas, assim como sou exigente com os outros, sou mil vezes mais exigente comigo próprio.
H2T – Em relação à tua capacidade de improviso, é algo inato ou foste desenvolvendo com o tempo?
Deau – Eu quando comecei a fazer rap não tinha produtor, não tinha ninguém, não tinha um sítio para gravar. E depois não gosto de produzir. Nem sequer gosto de ver produzir! Adorava gostar, mas a verdade é que não gosto e sentia que era algo que não tinha de forçar, nem estar a pedir favores a ninguém. Então, tive que trabalhar para conseguir uma rima que seduzisse um produtor. Tive que trabalhar, trabalhar... mas como não gravava, também não escrevia, preferia treinar em improviso. Foi algo que desenvolvi ao longo do tempo, e que ainda hoje me preocupo em desenvolver cada vez mais.
Mas é a minha maneira de estar na vida, eu estou nas aulas, o professor diz uma palavra e na minha cabeça já estou a pensar em palavras que rimem com ela. Se calhar estou a dar esta entrevista e estou a pensar em rimas na minha cabeça. É uma maneira de estar, é uma maneira de combater a solidão, era uma maneira de divertir nas horas em que não fazia nada. Eu posso estar a ouvir um beat, uma melodia, um jazz, soul, techno, house e estou a pensar em rimas e a tentar encaixa-las, é algo que eu acho piada.
H2T – O melhor freestyle...
Deau – Eu lembro-me de uma vez, no sítio onde eu moro, estávamos na rua entre amigos e apareceu um bêbedo que costumava espancar a mulher. A mulher entretanto surgiu e ele decidiu ir para casa, ao mesmo tempo que a tentou obrigar a ir também, mas ela pediu para ficar connosco. Era uma cota de setenta e tal anos. O marido, desde que tinha vindo da guerra colonial, transformou-se completamente. Ou seja, ela permanecia com ele porque guardava aquele amor da adolescência dela. Assim, a mulher começou a contar-nos a vida dela... que tinha crescido numa família rica, era uma mulher de posses, apesar de hoje em dia já não ter nada porque o marido a conduziu à ruína. E a mulher escrevia poemas. Para dizer a verdade, a única coisa que a mulher tinha na vida era a recordação de um amor, numa carteira cheia de poemas dela. Mas poemas muito frios, a falar de espancamentos e violência. E ela não sabia que eu cantava, nem sabia quem eu era. Eu tinha sido o rapaz que lhe tinha emprestado o casaco porque estava frio e não queria que ela fosse para casa porque sabia que o marido lhe ia bater. Às tantas eu disse-lhe que cantava rap e expliquei-lhe o que era, porque ela não conhecia. Disse-lhe que era ritmo e poesia, à semelhança dos poemas que ela fazia, mas de uma forma cantada. E com o enquadramento que ela me deu, cantei-lhe a vida dela em rap. A mulher agarrou-se a mim a chorar. Foi o melhor improviso que dei até hoje, apesar de só o meu grupo de amigos ter ouvido, é isso que me dá prazer no rap e no improviso. Conseguir aquele sorriso, aquele abraço... Apesar dela estar a chorar, tinha um sorriso mesmo lindo. Abraçou-me e disse "este foi o melhor dia da minha vida". Uma mulher de setenta e tal anos dizer-me isso, marcou-me completamente.
H2T – E o formato battle?
Deau – Para ser sincero, concursos não me estimulam porque a maior parte dos concursos onde fui eram votados pelo público, ou seja, são os amigos que votam. E quando existe um júri, se for preciso sabes dar melhor freestyle do que esse júri. Então quem é ele para te julgar?
Prefiro dar freestyle nas ruas, onde ninguém precisa de ser melhor do que ninguém. A primeira vez que subi a um palco tinha 14 anos, entrei num concurso de freestyle, mas não sabia o que era battle. Só percebi o que era battle depois de ver o "8 Mille". Cheguei ao palco e pensei que battle era improvisar, não era estar a tripar com as outras pessoas. Claro, perdi. E ainda bem que perdi, porque foi isso que me fez pensar e pôr os pés bem assentes na terra e perceber que realmente uma pessoa tem que trabalhar para trazer algo melhor. Há pessoas que estão aqui há anos, tens que respeitar, caprichar, trazer algo melhor. Eu procuro levar sempre o freestyle nos meus concertos, porque se calhar é o que me faz estar aqui hoje, é algo que eu pratico todos os dias, é aquilo que me dá mais prazer. Adoro escrever mas adoro também a arte do improviso. É uma coisa que valorizo muito, mesmo que não seja eu. Adoro ver um miúdo num canto a dar beatbox e outro a dar umas rimas, é uma coisa a que eu gosto de pertencer, ouvir... Se for preciso nem rimo, mas gosto de ver aquela fome e aquele meio, aquela "rodinha" para mim é mesmo o hip-hop!
H2T – Consideras-te um activista?
Deau – Acho que cada um pinta o mundo da sua forma e sim, sei que mudei a realidade de algumas pessoas que estão no meu meio. Sei que as minhas palavras têm uma influência e fiquei muito feliz por ter actuado na minha terra e ver miúdos acompanharem-me e dizerem "obrigado por esta palavra e por nunca te teres esquecido de nós". Miúdos cujos pais não os acompanham em casa (porque passam a vida a consumir droga), miúdos que fazem um cartaz a dizer "Estamos contigo Deau. 4400 Bambora!".
Eu cresci num meio em que as pessoas têm pouco, mas há aquelas pessoas que, apesar de viverem numa barraca, tu entras e lês "sê bem vindo" escrito na carpete e têm as paredes limpas e a casa até cheira a rosas, apesar do outro lado da rua cheirar a fossa.
Depois também há outras que se calhar não preservam o pouco que têm e estragam ainda mais. Eu sinto-me triste às vezes por ver amigos meus cantar as minhas letras de trás para a frente e saírem todos os dias para fazer a mesma merda. A minha música é também para lhes tentar mudar a realidade. É como eu digo na minha rima: "eu sei que não vou mudar o mundo, que a realidade é dura, mas se mudar o meu quintal dou outro ar à minha rua".
Apesar de hoje estar a chegar a outro tipo de público, a experiência que eu tenho é naquele meio mais fechado. Mas esta realidade que eu falo repete-se em vários sítios e as pessoas identificam-se da mesma forma, por meios diferentes mas com a mesma expressão. Para mim sempre foi esse o poder do rap: alguém contar a mesma história que outros vivem, e mostrar por certas palavras que "tu não estás sozinho, está aqui alguém que já passou pelo mesmo".
"Retiessências" tem apresentação ao vivo na próxima sexta-feira, dia 23 de Março, no Musicbox Lisboa
Texto:
Sofia Meireles
Fotografia:
Natasha Cabral
H2T - www.h2tuga.net





