
Por João Brites
16/11/2011, 15:21
Pela segunda vez consecutiva uma comitiva portuguesa foi participar no encontro WeFree Day, em San Patrignamo (Itália). O encontro realiza-se uma vez por ano na comunidade WeeFree (www.wefree.it), um centro de acolhimento para jovens com problemas de toxicodependência, e procura utilizar a música, dança e a arte como instrumentos educativos e integrativos. O grupo Transformers, representado por Fábio Pimentel (bboy Xikano, 12 Makakos), André Garcia (bboy Speedy, In Motion), Catarina Costa (Cat), David Caldeira (MC Erre) e João Brites (bboy Safary, In Motion), são os nossos protagonistas da 4ª edição do WeFree Day. Juntos deixaram relatos desta aventura, num diário de 7 dias.
Dia 16 de Outubro de 2011
18:06
No avião, de regresso a Portugal
Hoje ao acordar antecipei-me ao despertador, ajudado pelas poucas horas de sono e muitas horas de música e de dança, os sons dos break-beats e do beatbox do dia anterior ainda soavam na minha cabeça e as mensagens escritas a marcador preto ainda se viam bem nos meus braços.
Levantei-me, quase caí do beliche, e fui-me vestir a ver se ia a tempo de me despedir dos grupos que partiam hoje de manhã. Olhei para a minha mala, tinha ainda umas 5 t-shirts lavadas por usar. Não vesti nenhuma delas.
Em vez disso, fui buscar aos pés da cama a t-shirt dos Unity Charity que o Scott Jackson, o beat-boxer, me tinha dado na noite anterior, e vesti-a na esperança de que talvez ao levar comigo vestido um símbolo desta grande semana a despedida se tornasse mais fácil. Por este andar ainda vou mas é dormir com ela!
Pensei em acordar o Speedy e o Xikano, mas depois desta semana intensa, intenso era o cansaço e intensamente merecido o descanso. Também não foi preciso, passado algum tempo já estávamos todos no salão do pequeno-almoço, a comer, a conversar e a tirar as últimas fotografias antes dos momentos de despedida de cada um dos grupos.
Um a um, foram voltando para sua terra, o primeiro grupo para o Bronx em Nova Iorque, o segundo para Toronto, no Canadá, outros para a Colômbia, Berlim, Roma… e, mesmo assim, nenhum deles deixou verdadeiramente nem Rimini, nem San Patrignano, nem nós próprios. À medida que a distância entre nós se alargava mais e mais, mais forte se fazia sentir aquilo que cada uma das pessoas deixou em nós: as histórias de coragem de quem nasceu em Kampala, no Uganda, e perdeu os pais muito cedo, a visão de bboys da Colômbia que viram o mar pela primeira vez em Itália, a frescura e animação do grupo do Rio de Janeiro, o esforço e dedicação do grupo de Roma a participar no We Free com apenas um ano de aulas…
Porém, à hora de almoço ainda restavam 3 grupos por partir: o BPU (Breakdance Project Uganda), a Companhia de Dança Urbana (Rio de Janeiro, Brasil) e o Transformers! Assim, para a malta não ficar sem almoçar fomos mais uma vez para San Patrignano para comer a nossa última refeição (durante este ano) naquela grande e acolhedora sala de jantar. Tivemos sorte. Ao Domingo a comida é sempre melhor, mas desta vez o horário era mais apertado: às 14h tínhamos de ir embora para chegar a Bolonha a tempo de apanhar este avião para Portugal.
Estas últimas horas foram mesmo bem passadas nas habituais conversas, partilhas de histórias e de experiências, naquela nostalgia que se sente depois de uma semana que pareceu que passou demasiado rápido… Ao final do almoço já estávamos tal e qual a massa italiana que nos tinham servido: “rijos por fora, mas moles por dentro” – não tivéssemos nós abraçado tanta gente e cada pessoa tantas vezes.
É então que nos calha a nós o momento de nos despedirmos daqueles que ficam em Itália por mais uns dias. Despedimo-nos da equipa de San Patrignano e vamos até à carrinha que esperava por nós na parte de fora do local do almoço escoltados pela malta do Breakdance Project Uganda: a Key, o Abramz, o Felix e o Big Deal.
E lá fomos dando os últimos abraços várias vezes até ao abraço último. Entrámos na carrinha que nos ia levar por estrada até ao aeroporto de Bolonha e arrancámos. Olhando para trás, à medida que íamos passando os campos verdes e vinhas lá do sítio, San Patrignano ficava sucessivamente mais pequeno e a saudade sucessivamente maior.
E é nesse caminho que, com a cara encostada ao vidro, com olhos a fixar o infinito e ao som de uma rádio comercial de Bolonha revivo na minha cabeça a semana que vivi com o Transformers aqui em Itália, desde o momento em que chegámos com aquela explicação sobre San Patrignano da Patrizia Russi ao culminar da festa durante o We Free Hero.
Lembro-me de me terem dito que San Patrignano não obriga ninguém a ficar lá, mas que há sempre qualquer coisa dentro de ti que te obriga a lá ficar. Uma das pessoas que conhecemos acabou por ir para San Patrignano não por si própria, mas porque estava grávida e queria dar uma vida melhor à sua filha.
Lembro-me do tour que fizemos no primeiro dia em que visitámos a comunidade e vimos muitas pessoas a trabalhar em diversas actividades, desde tratamento de cavalos, a terapia canina, vinha, bricolage, restauração, design gráfico… É impressionante como é que San Patrignano produz coisas que vão desde os peluches da Christian Dior, e que são vendidos a 600 € a peça, como têm dos restaurantes mais finos de Itália, sendo uma das únicas estruturas do género que é totalmente auto-sustentável.
Lembro-me da pessoa de San Patrignano que ficou connosco durante toda a semana, que aos 10 anos já era correio de droga na Máfia napolitana e andava com uma pistola debaixo dos boxers, e que deu a volta à vida dele. Trabalha hoje nos campos de San Patrignano com o seu grande tractor e fez o trabalho de nos acompanhar de uma forma exemplar: foi uma pessoa sempre pontual, organizada, sempre disposta a ajudar-nos e com um coração e dedicação enormes, apesar de ele falar apenas Italiano e nenhum de nós dominar a língua.
Nunca pensei que a distância entre ser criminoso e ser uma pessoa exemplar fosse tão curta… não consigo evitar perguntar-me como é que alguém como ele era tão diferente apenas há um par de anos atrás… Enfim, talvez não seja só o grande Fernando Pessoa que tem muitas pessoas dentro de si, talvez em cada um de nós viva uma multiplicidade de pessoas, metade das quais nem conhecemos sequer.
Lembro-me de dançar em todos os sítios ao longo do tour com os outros grupos, de sempre que o dia terminava nós irmos para o salão da Pousada onde tínhamos ficado para transformarmos o espaço e dançarmos todos das 21h às 4h da manhã, non-stop, a ensinarmo-nos mutuamente novas moves e novos estilos de dança. Só num dia lembro-me de ter aprendido passos de New Style, Samba e House.
Lembro-me do We Free Hero, dos espectáculos de todos os grupos e do nosso próprio espectáculo e que tinha influências desde o som da guitarra de Carlos Paredes ao rap do Sam The Kid e o MC R, dança contemporânea, b-boying e graffiti.
Lembro-me da festa de despedida, da boa disposição generalizada, da confiança e ajuda mútua, de nós todos a gritar “Who are we? We Free” aos saltos. Lembro-me do último vídeo surpresa que passaram com um resumo de todos os momentos da semana e que nos deixou nostálgicos para o resto da noite.
Lembro-me de pedir a toda a gente para deixar uma mensagem no meu caderno que eu pudesse levar para Portugal, de escrever mensagens para todos os outros e da malta a escrever coisas a marcador preto no meu braço.
Lembro-me e não me consigo esquecer.
Já passou uma noite e essas marcas do marcador preto já mal se notam no meu braço. Esforço-me para ver os contornos da tinta. Desisto. Rio-me para mim mesmo. Para quê lutar por ver uma marca que me lembre do sítio onde estive esta semana, quando dentro de mim tenho uma marca muito mais profunda que é resistente ao tempo, à água e ao sabão?
Agora é tempo é de parar de escrever e irmos deixar marcas na vida dos outros.
Texto:
João Brites (www.projectotransformers.org)
H2T - www.h2tuga.net





