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Xeg Egotripping Mixtape
“Egotripping” - Xeg

Viagem ao Ego VS Massagem ao Ego
17/06/2010, 07:56

Ego trip. Traduzindo, literalmente, será algo semelhante a “viagem ao Ego”. Mas, sobretudo, quando a expressão se aplica a letras de rap, é mais com a conotação de “massagem ao Ego”, sendo um exercício lírico onde, também com o objectivo de causar impacto, os rappers pegam na fórmula base “Eu sou bom porque...” e / ou “Tu és mau porque...”, e puxam-na aos extremos do infinito, em busca de linhas surpreendentes, linhas cómicas, linhas corrosivas.
Apesar de não ser regra, este é, juntamente com o “estilo livre”, um dos tipos de escrita mais comuns em mixtapes e participações, com os rappers a guardarem outros estilos de letras, com temas mais profundos, para (os seus) álbuns.

Egotripping”, a primeira mixtape de Xeg, descai para a “massagem”. Mas, não se limita a isso. Também chega a abordar a “viagem”.

O embarque é feito com a introdução de Silva o Sentinela (SoS), numa verdadeira e crua trip ao ego, seguida de “Egotripping”, a faixa em que Xeg entra em cena, forte, a demonstrar como a simplicidade da tal fórmula base pode ganhar complexidade e mérito, quando enriquecida, também, com esquemas rimáticos trabalhados:

«Queres ser cabeça de cartaz mas, no fundo, no HipHop / ‘tás atrasado rapaz, já deu o segundo toque / Queres ir em frente, ser capaz neste mundo, só que / aqui só andas para trás, tipo Moonwalk».

Aliás, quem gosta de analisar esquemas rimáticos que fujam ao mais simples, terá muito por onde pegar em “Egotripping”, uma vez que, estes, são uma constante. E com diversas formas. “Bicicleta do Povo”, num bom desempenho do rapper, tanto a nível técnico como de escrita, traz outra forma, sendo uma daquelas faixas com o carimbo X-E-G bem visível. Trata-se de uma alegoria em que, de vez em quando, lá dá a entender que «este tipo de biciclet’, sem travão nem manete», (às vezes) gentil e (sempre) democraticamente partilhada por todo o povo, roda sem rodas porque tem duas pernas. «Mas tratem-nas com respeito / por tudo o que têm feito, / por nos manterem satisfeitos / e felizes até ao fim».

“O Vosso Boy” diz: «Parto beats como vidros, entrego tudo no jogo / Parto beats, como vidros, trinco pregos, cuspo fogo»; e demonstra-o, por exemplo, em “Aquela Fome”, pegando no instrumental com garra, em mais uma tentativa de saciar a insaciável fome de rap («Estar no top nao é o fim, tu não entendes tal fome /  e o teu rap só ‘Tá lá’ quando atendes o telefone»).

Talvez movido por essa fome, Xeg, nos anos mais recentes, tem mostrado muito estudo de sílabas, palavras e frases, dando, também, maior atenção à métrica. Afinal, «eu já nem faço HipHop, sou um workshop de escrita» (“Conta-me Histórias”). Isto resulta, de uma forma geral, em combinações foneticamente cativantes, não deixando de fora algumas dicas fortes («Para vocês, editoras são demónios, tenham juízo / Vocês, para as editoras, são sinónimos de prejuízo» – “Tchilling”). E, o autor de “Egotripping”, aproveita bem as características específicas de cada instrumental para desenvolver e encaixar o seu jogo de rimas e respectivas entoações. Como, por exemplo, em “O Vosso Boy”: «Há sempre prós e contras / e, quando os prós encontras, só aposto, / tu contas o que é que tens contra os pros. / Dá-lhe só, é na descontra, / tu para nós não contas, quando a sós / te encontras és um tótó que até dás dó»; ou em “Velha Escola”: «’Tunt stum’ / Isso já não bate há 10 anos / Com o teu álbum / só enganaste 10 manos, / Querias fazer um ‘boom’, meu mano, / mas os CD’s não esgotaram, / Fizeste um boomerang, / foram à loja e voltaram».

No que diz respeito a(os muitos) convidados, a faixa 11 não passa despercebida. Quatro pontos (“....”) dão o título à primeira reunião, no mesmo som, de Sam The Kid, Xeg, Regula e Valete: quatro dos nomes mais populares do rap lusófono, aqui, em jeito de dream team.

STK inicia a sessão, com a sua cadência de rimas a deixar o instrumental todo marcado («Boy, rolas só com boiolas, Olh’ó las/civo armado em gay, em gaiolas bates canholas, em boites espanholas circul’ó boato que engol'as bolas do Malato por dollars num bar, sem camisolas») e a puxar das suas credenciais de profissional para mandar linhas picantes: «Tu querias estar na companhia dos grandes / O tempo passa e ainda ‘tás na Companhia das Sandes / Foste burro, eu dei-te a escola e tu não fizeste nenhum / Eu vou p’ó estúdio... Dá aí uma Cola e uma sandes de atum». Picante, também, mas, noutro sentido, é o conteúdo de algumas das rimas de Regula, ou não fosse ele o rapper que utiliza nomes de actrizes porno para dar títulos às suas mixtapes («tou com duas pussys na cama, como no video do ‘Killa / A pensar qual delas vai segurar a câmara de video no Real Deal»). Com flow e métrica irrepreensíveis, como sempre. Igualmente com bom flow, Valete, que, (também) em egotrip, costuma ter várias linhas muito fortes, desta feita, destaca-se mais pela forma, com algumas dicas engraçadas diluídas na elaboração de esquemas rimáticos («Eu vendo t-shirts, eles dizem que eu sou um capitalista / devia vender fios dentais... cambada de transformistas»).

O grupo Show No Love, representado pelos seus três rappers, volta a marcar pontos nas participações em trabalhos alheios: em “Faixa de Gaza”, ao longo de 5 minutos, e num estilo mais livre, a entrega e o flow de El Lokocom ou sem tema, mixtapes ou LP’s, é Show No Love sem pena!») só descolam do instrumental quando Short Size canta o refrão. Holly-Hood, também Show No Love, deixa a sua marca em “Bazem Daqui” («Com tantos anos passados, tu só tens tido fracassos / És mau exemplo, nem o Sherlock Holmes seguia os teus passos»), faixa em que 9Miller entra com força, a demonstrar algum potencial. Tal como Mestrinho, em “Tchilling”, onde é acompanhado por um Tekilla ao seu estilo («Beefs? Eu não cuspo 100 barras, eu bato à porta»). “Eles Dizem” traz uma bem medida performance de PlayerE insistes que não valho um tusto, não é justo, eu propus tréguas / Tu não tens métrica, és um sujo quando eu cuspo réguas»), e Nameless traz “rap de avacalho” para “Outras Dicas” («Um gajo tiba do vodka / Faço rimas e brocas / Dás com a pila nas porcas, / mas com a guita dos cotas»). O lado mais sério de “Egotripping” é protagonizado por Xeg e Ditadores, em “Pensa na Vida” – uma parceria conselheira, em português e crioulo.

Quase a fechar, Xeg junta Lince e Blackmastah, a encaixarem, que nem uma luva, no estilo bem descontraído da penúltima faixa, “HipHop Está no Ar”. Um suave fade out de “Egotripping” que é interrompido pelo “Brinde” final, ainda que mantendo um ritmo mais pausado («Se um dia quiseres fazer carreira, não contes comigo, otário / Trazes sempre só um fã: o teu amigo imaginário»).

Egotripping” não traz uma fórmula secreta para acabar com todos os males do mundo e arredores. “Egotripping” é rap sem espinhas. É demonstração de dicas e skill. E isso também é rap. Aliás, também é bom rap. Seja ele “viagem ao Ego”, “massagem ao Ego” ou... mensagem («Usam o rap só para mensagens?! Eu uso um Nokia.» - “Anda Comigo”).

Texto:
Filipe Nunes
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