“A Preview” sela o reaparecimento de Tekilla nas lides discográficas. Cinco anos volvidos após “Tekillogia”, o rapper volta a abrir o livro e não parece propenso a fechá-lo tão cedo. Munido de garras bem afiadas, qual super-herói, Tekilla não se fica pelos arranhões. As suas rimas pontiagudas são muitas vezes cuspidas sem olhar a danos.
Firmemente compelido pelo Conductor da primeira batida, Tekilla desde logo atropela a “Hiphopcrisia”, bem como todos os “patetas” a quem esta faixa servirá como carapuça. Logo de seguida, “Veneno e má língua” são chamados à baila, mas ‘Murder Killa’ não está para grandes danças, a não ser que estas se pratiquem num ringue: “Niggas vão sempre levar nos cornos cada vez que oferecerem resistência”.
Telmo Galiano aka Tekilla pinta grande parte da paisagem deste disco com cores frias, e os beats são o reflexo disso: rudes, agressivos e pesados. Contudo, nenhum destes três adjectivos espelha o terceiro instrumental (cortesia e elegância das mãos de DJ Link), onde o MC retira dos “Chibos” toda a inspiração para esta malha.
Tekilla constrói e vive o seu próprio Mundo, onde todo o Hip Hop gira à sua volta e todos os rivais caem inapelavelmente perante si. Quando rima, fá-lo constantemente em bicos de pés e não precisa de aguardar pela proclamação: ele auto-elege-se nº1! Por isso, e sem grandes demoras, o “Triunfo” conta-se ao virar da quarta página (leia-se faixa). No single, que não vislumbra conserto para o rap tuga, Tekilla chega a acasalar a ironia com uma curiosa analogia: “Eu sou espermatozóide, música é o óvulo que está à espera de fecundação”.
As críticas, garante Tekilla, são absorvidas e geridas com tranquilidade. “Não quero saber” brotou desse sentimento de desprezo perante todo e qualquer comentário negativo à sua música. Nesta batida, agitada por Maf (Guardiões do Subsolo), o insosso Agir também pouco ou nada contribui para uma degustação apreciável do único laivo de reggae no álbum. Já na “Obra” de Madkutz, Tekilla torna a calçar as luvas de boxe, moldando as rimas que rapidamente dão o K.O. na curiosidade: “escrever rimas e andar à pêra é a minha nóia”.
Com meio enredo desbravado, e num balanço à meia-dúzia de faixas já percorridas, o alter ego de Tekilla apoderou-se de todas elas. No rap do MC de Peniche é notória a ausência de temáticas relevantes e a abundância de punchlines (algumas delas desgastantes), sobrevivendo do flow. Mas eis que, virando para a segunda metade de “A Preview”, a sétima faixa apresenta “A razão” de ser, na minha opinião, a melhor tira do álbum: beat harmonioso de Seb, rimas esforçadas de Tekilla e refrão viciante de Sam The Kid em plena sintonia.
Num momento crucial do disco, eis que se junta outra personagem ao elenco: TT. Com ele, Tekilla reveste a oitava “Música” de R&B e de juras de amor à música, numa visão mais ampla. E o que seria do rap de Tekilla sem umas “Barras” de ego-trip? Neste álbum, elas abundam, e são novamente servidas na faixa número nove e na seguinte - mas nesta já em forma de “Revolta”. Num instrumental resgatado ao baú da “velha” MadVision, Tekilla exibe um flow diverso e pouco mais, ou melhor, pouco Sam The Kid se ouve (não rima uma única vez).
Nos dois últimos sons do registo, Tekilla eleva o ego da “Mulher” (no geral) e ocupa as “After hours” com mais uma dose de ego-trip e outra de introspecção, sobre um beat estrondoso de Cubano aka Conductor.
Em suma, para quem augurava um Tekilla superior ao que se ouviu no primeiro trabalho, deverá ficar desiludido. As temáticas não foram as mais cativantes, até mesmo pela escassa diversidade. No entanto, e projectando já o futuro próximo do rapper, é de esperar que Tekilla consiga dosear melhor o próximo álbum, de forma a torná-lo menos cansativo.
Por Sempei para H2T - www.h2tuga.net |