Foi uma espera de quase dois anos, desde o segundo álbum "Tira Teimas", o sucessor de "1ª Jornada", até ao regresso às lides discográficas por parte do "flow show extraordinaire" Regula, que apresenta o seu mais recente trabalho com o selo de qualidade Horizontal Records, a Mixtape Kara Davis. Com distribuição a cargo da SóHipHop, neste projecto mixado pelo veterano DJ Kronic, 'Gula conta com uma selecção bastante variada ao nível das participações.
Desde rappers da velha escola e com créditos mais do que firmados como Sam The Kid e Xeg, até new schoolers, como os elementos da crew Show no Love, Holly-Hood, Short Size e Loko, além de outros nomes como Zuka, Dimeu, Mascarenhas, Russo e Magnum 44, prontos para criar buzz e aproveitar o airplay concedido pelo anfitrião deste festival de skills, rimas e flow.
Para os que estão intrigados com o titulo da mixtape, experimentem “googlizar” as palavras “Kara Davis”. Se tiverem mais de 18 anos, entrem, dêem uma vista de olhos, e se a vossa consciência vos permitir, e/ou não tiverem child block, tirem as vossas próprias ilações. Depois de enriquecerem culturalmente e tecerem considerações sobre o mundo maravilhoso da Internet, bem como da sanidade mental de Regula, é altura indicada para pressionar play e entrar no “flow show” que Kara Davis nos proporciona.
Se estão à espera de temáticas de teor crítico político-social, letras pseudo intelectuais, com referências culturais e vocabulário cuidado e erudito, não vão encontrar nada disso em Kara Davis. Aqui o estilo é só um: Ego trip, até porque tal como manda a tradição, é de uma mixtape que falamos, e faz todo o sentido que assim seja. Depois de feita a introdução ao som do club banger I'll Whip Ya Head Boy de 50 Cent, e terem ficado mais preparados para o que podem encontrar ao longo da Mixtape, segue-se a faixa com o brasileiro Zuka, um dos rookies com mais buzz do momento, que rima sobre um instrumental dos lendários Mobb Deep.
Ao ouvirmos a parte de Regula, pensamos no que o torna num rapper tão especial, uma verdadeira espécie em vias de extinção no panorama nacional. E isso é o facto de este conseguir aplicar no seu vocabulário maioritariamente “slangish”, um cuidado quase obsessivo no trato das palavras. Em qualquer uma das suas aparições na Mixtape, nota-se a forma bastante meticulosa com que trabalha as rimas (na sua maioria cruzadas), com estilo e elegância, ao sabor de uma métrica irrepreensível, o que proporciona uma sonoridade que flui com naturalidade e fica no ouvido. E isto é algo que não se verifica só agora, mesmo ao longo dos seus anteriores álbuns e de inúmeras participações em outras mixtapes, é crível afirmar que Regula é um rapper com um flow universal. O Beat, mesmo sem ter sido feito a pensar nele, adapta-se ao rapper, e não o contrário.
Ao longo de Kara Davis, Regula vai saindo e entrando de cena de forma alternada. Assim, e ao som de Shadowboxin' de GZA, em Liquid Swords de 1995, Xeg e Magnum 44 pegam no mic e delegando responsabilidades mais para o lado do vetereno, fica-se com a ideia que um clássico destes podia ter sido melhor aproveitado.
Regressa Regula e Short Size, que revela grande potencial principalmente ao nível do flow, uma das agradáveis surpresas da mixtape. Sucedendo à faixa de Mascarenhas e Loko, a preencherem decibéis, segue-se outra das surpresas, e cada vez mais uma confirmação no panorama dos new schoolers nacionais, com a participação do rapper Holly-Hood sobre o beat I get money. Um flow e métrica impressionantes, que fariam corar de vergonha o autor da faixa usada como base instrumental, 50 cent.
Mas o ponto alto de Kara Davis surge com o regresso de uma das melhores duplas no mic que o Rap nacional já viu. Sam The Kid e Regula, em grande domínio no instrumental Wake Up de Missy Elliot, numa faixa onde não há palavras suficientes para explicar o feeling que transparece cada vez que acontece a coligação Chelas - Catujal.
Daí para a frente, Russo e Dimeu têm uma prestação bastante regular, sendo que seria difícil de igualar o momento supracitado. Inclusivamente, a faixa de Russo, só ganha mesmo pelo grande instrumental escolhido, o clássico Music for life do DJ Hi-Tek.
Kara Davis, no seu cômputo geral, é a cara de Regula. Um desfile de liberdade, punchlines, Ego tripin' e mad flows. Com mais de 1000 cópias vendidas em menos de um mês, e salientando o facto de toda a promoção da mixtape ter acontecido à margem do circuito usual da comunicação social musical, Regula já assegurou que está para muito breve uma reedição do projecto, com novas participações e algumas surpresas.
Por Ivo Alves para H2T - www.h2tuga.net |