Depois de "Música que Não é Arte", a mixtape que atirou Évora para as aparelhagens hiphopianas, "Música de Palavra" vem chamar a atenção para terras algarvias. E bem colocado, por sinal. O mentor do projecto, DJ GI Joe, está de parabéns.
"Música de Palavra" é uma mixtape cheia de altos e baixos, onde instrumentais conhecidos de todos nós se misturam com o potencial artístico dos mcs. No geral, a mixtape dá a sensação de não se ter arriscado muito a fazer coisas novas, antes procurando preencher os critérios habituais de conteúdo, rimas e flow. O ouvinte regular de Hiphop lamenta um pouco não ter havido a variedade e a novidade na escolha dos instrumentais que houve em "Música de Palavra", revendo assim instrumentais estrangeiros que já constavam de outros projectos como as mixtapes do Dj Cruzfader ou do Dj Bomberjack, entre outros. Mesmo em termos de rimas, regra geral (obviamente com excepções), os mcs mantiveram-se pelas fórmulas e padrões.
A grande ovação vai para o design da capa. No trilho aberto pela Matarroa e pela inovação nos invólucros dos cds de Chemega, esta mixtape oferece-nos um bom motivo para comprar o original, para além da óbvia vontade de apoiar projectos novos.
A Intro e a Outro (com o sugestivo título "Battle myself") estão bastante musicais e agradáveis de ouvir. Os samples vocais interagem bem com o beat de base, e acabam por deixar o desejo por mais. A participação através dos pratos do Dj GI Joe ao longo de toda a mixtape, com o seu scratch, acaba por satisfazer um pouco esse desejo.
Não sendo possível fazer uma crítica exaustiva a todos os mcs individualmente, no geral a mixtape está de um bom nível e justifica o investimento. Maligno tem um bom repertório de rimas, e será interessante ver o flow evoluir para acompanhar o conteúdo. Se deixarmos de lado o tema bastante recorrente escolhido por Biex & Ruca, podemos verificar que ambos têm um bom flow e até dominam a arte de rimar. Já de Agir & Pioneiro não se pode dizer o mesmo, e apesar de terem um refrão interessante, o instrumental não favorece muito.
A faixa de J.V. é inegavelmente um dos pontos altos do álbum: a abrir com scratch de GI Joe, J.V. está artilhado de boa dicção, bom flow, uma escrita que soube adaptar ao instrumental (bem escolhido) e que rima com um tom dinâmico, que o afasta da monotonia das palavras debitadas sem emoção. Este
será um mc a acompanhar o percurso no futuro. Praso, em "Putos", tem um flow agradável de ouvir, mas o instrumental foi mal escolhido, pois abafa o brilho do flow com a lentidão da batida. O seu outro som, "Primeira Cena" está menos agressivo do que poderia estar e as punchlines podiam estar melhores, mas o instrumental combina com o flow bastante mais que o primeiro.
Spell é outro mc que é impossível não chamar atenção. Spell é dos poucos que
não tem medo de fazer coisas novas, mandar dicas e punch lines que realmente
surpreendem e apesar do flow não entrar no ouvido à primeira (ou precisar ainda de ser um pouco afinado, pois por vezes parece meio "pára-arranca"), a dicção é interessante e o conteúdo também. "Linhas de Soco" e "Memory Card",
da sua autoria, brilham por isso. Embora "Memory Card" pudesse estar melhor em termos de coerência – às vezes parece que as rimas perdem a linha orientadora –, o instrumental, o tom de voz e dicção estão perfeitos um para o outro; e o espírito de aventura rimática de Spell, embora não resulte sempre, quando resulta, compensa. A música com Angel tem um instrumental menos favorável e o flow não está tão bom como podia, assim como as rimas.
Ver uma rapariga na mixtape foi bom, mas infelizmente é das participações menos bem concretizadas do álbum. Angel canta no início do som, deixando a impressão de ter uma boa voz, mas não soa bem nem se encaixa no instrumental. Este, por sua vez, não foi bem escolhido para o flow (ainda muito verde) da mc, pois é um instrumental lento para um flow lento, o que provoca a sensação de arrastamento. Angel insiste muito em "Hiphop revolução" e em termos de conteúdo desilude. Isto acontece tanto na sua faixa a solo como música com Spell. Estafeta parece ainda não dominar a arte de escrever dentro do tempo das batidas, pois parece ter versos mais compridos que o instrumental suporta. Kombatente & Revoltado também insistem num tema banal, falando da vida de bairro e de crime, descurando a vertente da inovação.
Outra estrela brilhante é Perigo Público, um dos nomes que chama mais a atenção de quem tem a mixtape na mão. O estilo "freestyle & punch lines", sobre o instrumental extremamente bem escolhido, soa muito sugestivo e ficamos a compreender porque é que Perigo Público faz sucesso nas battles de improviso. O flow vê-se que está bem trabalhado e a elaboração de rimas, inspiradas no momento, está bem afinada. Obrigado ao Perigo Público por "fazer as honras da casa", é um prazer!
Dom Mouska tem uma boa noção de flow, que por vezes faz lembrar o estilo de Valete ou Adamastor, naquele estilo que flui sem restrições. O potencial está inegavelmente lá. SP é autor de uma das melhores músicas do álbum. Começa com um jogo de vozes muito sugestivo e interessante de ouvir, e este é mais um exemplo de um instrumental bem escolhido para combinar com o flow. As alturas em que canta, ao contrário da faixa da Angel, estão muitíssimo agradáveis de se ouvir e claro, como não podia deixar de ser, o beatbox marca presença e deixa-nos com água na boca.
A.S2 & Dino, em "Sul" também não tiveram medo de usar a voz e a musicalidade da faixa merece destaque. Estes dois mcs podem ficar descansados, pois verdadeiramente, sente-se o "flow do sul", como eles nos persuadem a fazer na sua música.
O último dos grandes sucessos deste álbum é a música do Iniciado. Merece os parabéns pela óptima escolha do instrumental, que soube explorar em termos de flow e de skill, sem medo de acompanhar o refrão (viciante) com a sua própria voz. A escrita e o conteúdo estão agradáveis de ouvir, muito pouco dejá-vu e nada entediante. "Bang bang!" – o objectivo foi atingido por este artista.
A última música antes do "outro", de DGPG, tem um excelente instrumental, mas não foi o mais indicado para o tema escolhido. O Dj GI Joe portou-se muito bem nesta faixa, fazendo um número artístico com os pratos a meio da música.
Sem dúvida, as mixtapes continuam a ser a melhor forma de trazer à luz talentos emergentes, quer sejam de zonas longínquas ou não. O resultado desta pode-se dizer que coloca "Algarve no mapa", uma vez que "Na mix do GI Joe, Quarteira arruma!"
Por Joana Nicolau para H2T - www.h2tuga.net (participação do passatempo "2º Aniversário H2T") |