Numa altura em que o meio HipHop nacional apelava à inovação e à criatividade, Fuse, assinando como “Inspector Mórbido”, lançou o seu terceiro trabalho a solo. Um álbum em que a poesia ficou de parte e a sonoridade voltou aos níveis densos e obscuros, que caracterizam “Informação ao Núcleo”.
Dividida em 20 faixas, onde o Terror é fantasticamente fundido com o HipHop, a obra está carregada de dramatismo, suspense, dor e brutalidade. “Revelação”, “Arma de Oração”, “Trilogia”, “Evocatore Diabolu” ou “Cordas Mentais” são nobres exemplos disso e verdadeiros reactores da criação mental. Basta uma empenhada abstracção do mundo físico, por um período de oitenta minutos, para experimentarmos as suas poderosas e profundas sensações. Sensações estas, que nos são transmitidas através de batidas fortes, violinos intensos, pianos imponentes, gritos arrepiantes, coros místicos e respirações ofegantes, primorosamente arquitectados num cenário pesado e assustador... Todos os ingredientes para criarmos o nosso próprio pesadelo foram convocados!
Sendo este um álbum só de instrumentais, não faz sentido falar da participação lírica de outros MC’s. No entanto, inúmeras vozes, extraídas dos mais variados contextos – poemas de Mário de Sá-Carneiro, músicas “dealemáticas”, filmes como “Nightmare on Elm Street”, “The Exorcist”, “Bram Stocker’s Dracula”–, compõem e complementam subtilmente a banda sonora deste cativante exercício para a imaginação humana.
À margem da música, a outra parte do trabalho, nomeadamente a que suporta e acompanha o disco, deve ser distinguida pela sua dedicada elaboração. Começando pelo desenho gráfico da capa, virtuosamente concebido por Chris Hawkes, designer da Loop:Recordings; Passando pela adequada escolha dos títulos das músicas; Também pelo formato da caixa, em forma de livro, acrescentando um toque de classe ao pacote; E acabando no texto introdutório que consta no booklet – poucas das palavras que o autor liberta nesta álbum! É extraordinário, e de enaltecer, a forma de como todos estes aspectos conseguem estar em sintonia e espelhar o ambiente que o ouvinte vai descobrir...
Quanto a extras, o vídeo do single “Arma de Oração”, que está a ser produzido pelo mesmo autor da capa, será todo ele em animação e não deverá tardar a rodar na TV. Enquanto que, numa outra frente, Fuse e Nuno Chagas (o realizador do vídeo da musica “Febre da Selva”), estão a desenvolver uma curta-metragem com o álbum como banda sonora – que irá servir para a apresentação do próprio disco, daqui a uns meses. Por agora, “Prestem culto ao som que” ele vos incute “como um sopro...”!
Por Pedro Bernardino para H2T - www.h2tuga.net |