Nos inícios da única editora com raízes nortenhas, Martinêz, o comandante da mesma, referia-se a esta como aqueles que fugiriam ao hip-hop, dito por ele, convencional... eles seriam o movimento alternativo de um “movimento inexistente”. Passados alguns meses destes inícios, e dois álbuns, que por si só não bastariam para se ter uma imagem abrangente desta nova editora, saiu finalmente a maior prova de fogo: a compilação.
A compilação no global está boa e cumpre requisitos: Nocas apresenta-nos temas e opiniões já muito badaladas mas de uma forma deliciosamente diferente, que nos lembra o trabalho de Valete... Brigadeiro Mata Frakuxz tem uma ironia e um modo de jogar com as ideias muito próprio. MatoZoo sempre foi uma banda que abordou os assuntos sobre outra perspectiva e com outro vocabulário, mais complexo, em resumo. Fuse é o Fuse, um MC que mais uma vez demonstra dinamismo e qualidade lírica. O Bezegol traz-nos um ragga que provoca a estranha tendência de querer ouvir outra e outra vez. Os pupilos mais novos do clã Matarroa, Paulo Leitão e Stray, ainda demonstram alguma imaturidade (natural), mas denota-se em Stray uma grande capacidade de inovação e de ritmo e em Paulo Leitão uma assimilação da identidade da editora. VRZ, por sua vez, não foge ao estilo que vem demonstrando desde sempre, o que não inova, em termos de temas, em nada o que se faz por aí, mas difere dos outros pela insistência e pela forma como o faz.
O que me leva a dizer que "Matarroêses" cumpre requisitos no “global” são algumas questões que me coloco: o dizer-se que se é alternativo basta para o ser? E o ter um estilo similar, como Pródigo, um bom MC em termos técnicos, e VRZ, mas com mais energia, mas menos qualidade, não é o que muito se vê no tal “movimento inexistente”? E até quando poderão os membros da editora refugiar-se num vocabulário complexo e críticas aos apreciadores do movimento para fugir ao convencional? Não será isso também uma “fórmula”? E até quando MC’s como Nocas ou Miúdo se adaptam à ideologia desta editora?
A compilação, refiro mais uma vez, está boa e vale muito a pena tê-la na colecção, quer por MC’s mais desconhecidos a darem provas, como Brigadeiro Mata Frakuxz, Stray ou Nocas, quer pelo trabalho dos mais badalados MatoZoo ou Fuse. Só acho que, às vezes, vale a pena reflectir também na outra parte, perguntar-nos o porquê das coisas e fazer-se autocrítica, principalmente naquilo em que nos consideramos melhores, e se isso acontecer, com ou sem vendas, a editora Matarroa continuará sem sombra de dúvidas a ser uma grande mais valia do nosso movimento.
Por Jaime Silva para H2T - www.h2tuga.net |