Numa altura em que toda a nação musical começa a abrir bem os ouvidos àquilo que parece ser um novo “boom” do hip-hop em Portugal, um dos seus nomes sonantes volta a dar cartas: Nuno Carneiro, mais conhecido por MC Ace, um membro dos Mind da Gap, brinda-nos com o seu primeiro álbum a solo que, ao que parece, só tem um defeito: ter apenas 19 temas. Porque fica-se com a vontade de ouvir o 20º, ou o 21º, ou o 22º...
A produção do álbum é também da autoria de Ace, excepto nos temas com participações, onde esta é conjunta. E somos transportados para ambientes calmos que não destoam dos versos, criados também para se sentirem “intensamente”, sendo igualmente recomendável a audição dos interlúdios, principalmente a faixa 12 “À espera”.
Gostaria também de chamar a atenção para o facto de Ace, neste cd, mostrar “a sério” (com princípio, meio e fim) as suas capacidades, naquele que é por muitos considerado o quinto elemento do hip-hop, sendo até agora do conhecimento geral apenas a sua produção feita “a meias” com DJ Bomberjack num dos temas do álbum do MC Valete; É sem dúvida uma mais valia para o álbum.
Mas de facto não é na produção mas sim na poesia lírica e nas suas habilidades em debitar versos em cima do instrumental que Ace mais se salienta, e quem comprar o álbum não irá certamente ficar desiludido. O flow continua a ter a mesma qualidade de sempre mas nos versos verifica-se um acréscimo de qualidade há já habitual, sendo disso exemplo músicas como “Eu consigo” ou “À procura”.
O álbum estende-se por vários assuntos, havendo lugar a um certo sentimentalismo, que se denota, por exemplo, nas participações com o MC Maze e na música “Cor de Laranja”, assim como a um pouco de reflexão, que é bem marcante nos temas “Eu consigo” e “À procura”. Há também um pouco de intervencionismo, bem demonstrado em “Só posso ser eu”, uma música que foge aqui, aos parâmetros normais, havendo até lugar para o que parece ser uma nova versão de “Bazamos ou ficamos”, um famoso tema dos Mind da Gap, desta feita denominado “Tu sabes”. Mas o "IntensaMente" não se fica pelo lado sentimental e de reflexão mais patente nestas músicas; Ace não abdica da defesa da sua arte e do seu amor próprio e com certeza este álbum servirá para calar muitas das pessoas que o têm vindo a criticar, mas para isso será certamente melhor a audição de temas como o 15 e 16, com nomes muito apropriados: “Pergunta-te: quem é o número um?” e ”Inveja”.
Quanto às participações é de salientar a qualidade das duas músicas com Maze e com o companheiro de batalha habitual, Presto. Pessoalmente, a intervenção de Mundo pareceu-me ter ficado muito aquém do esperado. Tem-nos habituado a melhor!
Este é sem dúvida alguma um dos álbuns mais bem conseguidos de sempre do hip-hop nacional e dá-nos a conhecer um pouco de tudo aquilo que Ace nos tem presenteado, mas com mais...intensidade. De facto todo o cd é um pack de cerca de uma hora de muita intensidade e certamente o ouvinte, antes ainda de uma outra audição, concluirá que na realidade o álbum não poderia ter outro nome a não ser “IntensaMente”.
Por Jaime Silva para H2T - www.h2tuga.net |