“100 Insultos” é o segundo trabalho da dupla Infamous & Vrz e o primeiro com o selo da editora Matarroa, sucedendo a “Confiança ou Vingança”, editado em 1999 por conta própria. Esta obra é composta por 18 faixas. Pois bem. Após o play, nos próximos 72 minutos, aquele momento em que pomos o cd em pause e “ouço isto noutra altura” não acontece. E não acontece devido à qualidade de todos os temas. O álbum é consistente e nunca se torna monótono, as rimas são inteligentes e a produção de Infamous é de um nível superior. As rimas. As rimas são, em “100 Insultos”, veneno. Ou doença, como convém, pois VRZ é uma sigla que resume Víruz. O vírus espalha constante infecção por todo o álbum, sem grandes reservas morais e humildades fingidas, aliás “a minha humildade é escassa” resume desde logo a postura quanto ao assunto.
VRZ revela-se-nos um MC provocador, com olhos bem atentos e vigilantes quanto à sociedade em que se movimenta, sendo que o alvo preferido da sua língua afiada parece ser toda a indústria discográfica, desde aqueles que tomam as grandes decisões aos artistas fabricados e procuradores da fama, sucesso e dinheiro fácil, situação que aproveita para rejeitar para si próprio, opondo esta postura àquela que afirma alimentar, a da independência e autenticidade. De forma inteligente e incisiva, toda esta gente e muita outra recebe a sua dose de veneno consciente e bem dirigido. Mas não se pense que “100 Insultos” se torna cansativo. Se não bastasse a qualidade dos insultos (não contei, mas talvez chegue mesmo aos 100) também há pelo álbum algumas faixas que fogem a este tema dominante, e que são também bastante conseguidas.
De referir ainda as participações, protagonizadas por Brigadeiro Mata Frakuxz, Martinêz, Fuse, Bezegol, Bross, Badja e Fidbek.
No fim, não deixa de ser irónico que um álbum que tanto insulta tanto elogio receba, parece que a provocação pegou e diga-se que os elogios são merecidos. Merecem-nos as rimas, merecem-nos a produção, merecem-nos os temas e a atitude e carácter coerentes durante todo o álbum. Merecem elogios também o design gráfico de toda a embalagem do cd, crédito para a equipa da Matarroa, e merece também um grande elogio aquilo que este álbum afirma, a real inexistência de fronteiras no Hip-Hop. Com um MC residente em Évora, um produtor radicado em Toronto, e a editora do trabalho com sede no Porto, o resultado final transcende distâncias.
Por André Lemos para H2T - www.h2tuga.net |