Para quem já conhecia “Geração Rasca” ou “Filhos da Rua”, os dois registos discográficos que os Black Company deixaram para a história do hip-hop português, talvez este “Private Show” de Gutto (um dos seus ex-elementos, outrora também conhecido por Bantú) não seja uma completa surpresa. Na verdade, Gutto sempre foi o principal responsável pelas influências mais soul, jazz, ou mesmo r&b do grupo; e “Private Show” é a evolução e o assumir dessa vertente mais r&b.
O ambiente calmo, a festa, a dança, o sonho, a envolvência, o amor, o lado mais suave e sedutor do hip-hop… está tudo lá, através da excelente voz e singular interpretação de Gutto. Aliás, a única contra-indicação deste álbum acaba por ser a influência que exerce sobre nós, consegue prender aos poucos, de forma gradual, inconsciente, e mal damos conta já estamos (de novo) a assobiar a melodia ou a cantar por cima do refrão. Algo inexplicável.
Os MC’s convidados são os responsáveis pelos excertos mais hip-hop de todo o álbum. Bambino (outro ex- Black Company) marca presença no primeiro som, e Boss AC participa de forma mais activa e dispersa, ajudando inclusive a compor algumas das letras e músicas cantadas por Gutto.
As produções têm o selo “No Stress”, o mesmo que dizer Gutto & Boss AC, uma dupla que já anda nisto há tempo suficiente para poder garantir experiência e qualidade, assim como sustentar de modo seguro a postura exigente e arrojada deste álbum. E convém sublinhar o significado pioneiro de “Private Show”: o primeiro álbum verdadeiramente r&b, cantado em português, editado em Portugal.
Não esqueçam, quando um dia se aperceberem que existe por aí uma diferente realidade musical, merecedora de toda a atenção e devido respeito, saibam que desde o inicio (tal como ele diz) “o Gutto ‘tava aqui”.
Por Sofia Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista "Raio X" |